Você rodou a análise, copiou a saída do software para o Word e agora o seu capítulo de resultados diz “M = 3.72, p = .043”. Duas linhas depois, o texto que você mesmo escreveu diz “a média foi de 3,72”. O mesmo número, duas convenções, no mesmo parágrafo — e nenhuma das duas está declarada em lugar nenhum do trabalho.
Esse é o ponto cego mais comum do TCC quantitativo brasileiro. As normas de apresentação tabular cuidam da tabela; o capítulo inteiro de texto corrido, onde a maior parte dos números do trabalho aparece, fica por conta do improviso. Este guia trata exatamente disso: o número dentro da frase.
A vírgula decimal não é preferência: é a convenção brasileira
Em português do Brasil, o separador decimal é a vírgula. É assim que o Sistema Internacional de Unidades foi adotado no país, é assim que os órgãos oficiais publicam seus dados e é assim que a banca espera ler. “3.72” não é um estilo alternativo: em um texto em português, é ambíguo, porque o ponto ocupa historicamente o lugar do separador de milhar.
O problema é que praticamente todo software estatístico devolve o resultado no padrão anglófono. SPSS, R, jamovi, Python, Excel em locale inglês — todos entregam ponto decimal por padrão. O aluno cola a saída, corrige alguns lugares na revisão e deixa outros passar.
| Saída do software | No texto em português | Observação |
|---|---|---|
| 3.72 | 3,72 | Vírgula decimal |
| .043 | 0,043 | O zero antes da vírgula não se omite em português |
| 1,250.5 | 1.250,5 (ou 1 250,5) | Milhar e decimal trocam de papel |
| M = 3.72, SD = 0.94 | M = 3,72; DP = 0,94 | Sigla e separador em português |
| p < .05 | p < 0,05 | Com zero à esquerda |
| n = 87 | n = 87 | Inteiro não muda |
A conversão é mecânica e vale fazer de uma vez, ao final, com uma busca dirigida — nunca durante a redação, quando você inevitavelmente esquece metade. Se o seu trabalho usa um pacote específico, ele também precisa aparecer nas referências: o guia sobre como citar software e pacote estatístico na ABNT mostra o formato de cada um.
Separador de milhar: escolha um e mantenha
Aqui a prática brasileira é menos uniforme do que parece. O ponto (1.250) é a forma mais comum em texto corrente e nos dados de órgãos oficiais. O espaço (1 250) é recomendado em contextos técnicos alinhados ao Sistema Internacional, justamente porque é imune à confusão com o decimal.
As duas formas circulam em trabalhos aprovados. O que não se aceita é alternar entre elas no mesmo documento, ou usar o ponto para milhar em uma frase e para decimal na frase seguinte. Verifique o manual do seu curso; havendo silêncio, escolha o ponto, que é o mais legível para o leitor brasileiro, e registre a escolha para si.
Uma exceção conhecida: números de quatro dígitos sem casa decimal costumam dispensar o separador quando designam ano ou identificador — escreve-se “2026”, não “2.026”, e “NBR 6023”, não “NBR 6.023”.
Por extenso ou em algarismos?
Esta é uma convenção editorial, não uma norma técnica — e é justamente por isso que gera tanta divergência entre orientadores. A prática mais difundida no texto acadêmico brasileiro:
- De zero a dez, por extenso no texto corrido: “foram entrevistados oito professores”.
- De 11 em diante, em algarismos: “participaram 87 estudantes”.
- Sempre em algarismos, independentemente do valor: medidas, porcentagens, valores monetários, idades, datas, páginas, tamanhos amostrais e qualquer número que apareça em tabela ou seja comparado com outro.
- Nunca inicie a frase com algarismo. Reescreva: em vez de “87 estudantes responderam”, use “Responderam ao questionário 87 estudantes” ou “Oitenta e sete estudantes responderam”.
- Não misture na mesma comparação. “Entre oito e 12 participantes” quebra o paralelismo; escreva “entre 8 e 12”.
Se o manual da sua instituição disser outra coisa, o manual vence. Na ausência de regra local, o critério acima é seguro e passa despercebido — que é exatamente o que se espera de uma convenção de escrita.
Símbolos, unidades e o espaço entre eles
O Sistema Internacional recomenda um espaço entre o valor e o símbolo da unidade: 25 kg, 3 h, 180 cm, 37 °C. Símbolos de unidade não recebem ponto de abreviação nem plural — escreve-se “5 kg”, nunca “5 kgs.”.
O sinal de porcentagem é o ponto em que a prática brasileira mais varia: parte dos manuais adota “25%” e parte adota “25 %”. As duas aparecem em trabalhos aprovados. Escolha uma, use em todo o documento e não volte atrás. O mesmo vale para o cifrão: “R$ 1.250,00”, com espaço após o símbolo, é a forma corrente.
Pontos percentuais não são por cento
Este é o erro numérico que mais aparece em bancas de exatas e de aplicadas, e ele não é de digitação: é de interpretação.
Se um índice sobe de 20% para 25%, ele aumentou 5 pontos percentuais — e aumentou 25% em termos relativos. As duas afirmações são verdadeiras e descrevem coisas diferentes. Escrever “aumentou 5%” nesse caso é simplesmente falso.
| Situação | Formulação correta | Erro frequente |
|---|---|---|
| De 20% para 25% | Aumento de 5 pontos percentuais | “Aumento de 5%” |
| De 20% para 25%, em termos relativos | Aumento de 25% | “Aumento de 5 pontos” sem dizer “percentuais” |
| De 40 para 20 casos | Redução de 50% | “Redução de 20 casos” sem a base |
| Dobro de 15% | 30% | “Aumento de 100 pontos percentuais” |
Sempre que apresentar uma variação, diga a base. “Caiu 30%” sem informar de quanto para quanto é uma frase que a banca vai devolver.
Arredondamento: quantas casas o seu instrumento autoriza
A ABNT NBR 5891 trata das regras de arredondamento na numeração decimal, e vale conhecê-la. Mas o problema mais comum nos trabalhos não é arredondar errado — é arredondar de menos.
Uma escala Likert de cinco pontos não produz uma média com quatro casas decimais significativas. Reportar “3,7241” sugere uma precisão que o instrumento não tem, e é o tipo de detalhe que um avaliador atento comenta. Critérios práticos:
- Médias e desvios: normalmente uma casa a mais que a escala original. Escala de 1 a 5 → duas casas, no máximo.
- Porcentagens: em amostras pequenas, sem casa decimal. Com 87 respondentes, “62,07%” é falsa precisão; escreva 62%.
- Valores de p: três casas decimais é o padrão mais aceito. Abaixo de 0,001, escreva “p < 0,001” em vez de um número.
- Consistência: todos os números do mesmo tipo, na mesma quantidade de casas, do começo ao fim do trabalho.
- Arredonde uma vez só, no final. Arredondar valores intermediários e depois somá-los produz totais que não fecham.
Uma consequência prática: quando as porcentagens arredondadas somam 99% ou 101%, isso é normal e deve ser declarado em nota — não corrigido à força.
Como escrever um resultado estatístico em português
Os relatos entre parênteses seguem um formato razoavelmente estável nos periódicos brasileiros. As siglas mais usadas em português:
| Grandeza | Sigla em português | Exemplo de frase |
|---|---|---|
| Tamanho da amostra | n | Participaram 87 estudantes (n = 87). |
| Média | M | A média de horas semanais foi de 12,4 (M = 12,4). |
| Desvio-padrão | DP | M = 12,4; DP = 3,1. |
| Mediana | Md | A mediana ficou em 11,0 (Md = 11,0). |
| Valor de p | p | A diferença foi estatisticamente significativa (p = 0,043). |
| Intervalo de confiança | IC 95% | Média de 12,4 (IC 95% [10,9; 13,9]). |
Repare no separador dentro do intervalo de confiança: como a vírgula já é o separador decimal, os limites são separados por ponto e vírgula. Escrever “[10,9, 13,9]” produz uma sequência ilegível de quatro números possíveis.
E uma regra de conteúdo, não de forma: o número entre parênteses acompanha uma frase, não a substitui. “(p = 0,043)” sozinho não diz o que foi comparado nem em que direção. A construção completa está no roteiro de análise e discussão dos resultados.
Datas, períodos e intervalos
- Períodos: “de 2010 a 2020” no texto corrido; “2010–2020”, com travessão, em tabelas e figuras. Não misture “de 2010 – 2020”.
- Décadas: “década de 1990”, sem apóstrofo e sem plural anglófono.
- Séculos: algarismos romanos — “século XXI”.
- Datas completas: “12 de março de 2026” no texto; a forma numérica fica para tabelas e formulários.
- Horas: “14h30” ou “14:30”, conforme o manual; nunca as duas no mesmo trabalho.
- Faixas etárias: “de 18 a 24 anos”, e não “18-24 anos” no texto corrido.
O número precisa vir com o seu contexto
Convenção de escrita resolve a forma; ela não resolve o que a frase afirma. Um dado sem base, sem recorte e sem fonte continua sendo uma afirmação frágil, ainda que impecavelmente formatada.
Toda frase que carrega um número de terceiros deveria conter quatro elementos: o valor, a unidade ou base, o período e a fonte. “A evasão é alta” não informa nada; “a evasão anual na rede privada foi de 26% em 2023, segundo o Censo da Educação Superior” informa tudo. E, quando o número é seu, o cuidado passa a ser com o verbo que o acompanha — o guia sobre como calibrar a força das afirmações mostra o que cada delineamento autoriza dizer.
A busca dirigida antes de entregar
- Procure por
.seguido de dígito para achar decimais anglófonos remanescentes (“0.5”, “3.72”). - Procure por
p = .ep < .— os zeros à esquerda que faltam. - Procure por
SD,Mean,Median— siglas em inglês que sobreviveram à cópia. - Procure por
%e verifique se o espaçamento é o mesmo em todas as ocorrências. - Procure por
aumento deeredução dee confira se cada variação declara a base. - Confira se todas as médias têm a mesma quantidade de casas decimais.
- Confira se nenhuma frase começa com algarismo.
Sete buscas, dez minutos, e o capítulo de resultados deixa de ter o aspecto de saída colada. O mesmo método de varredura funciona para os deslizes de linguagem listados no guia sobre registro acadêmico e vícios de escrita, e vale rodar os dois na mesma sessão de revisão.
Checklist numérico
- Todos os decimais usam vírgula.
- Todos os valores menores que 1 têm zero à esquerda.
- O separador de milhar é o mesmo no documento inteiro.
- Números de zero a dez estão por extenso no texto corrido, salvo medidas e comparações.
- Nenhuma frase começa com algarismo.
- As siglas estatísticas estão em português e definidas na primeira ocorrência.
- Toda variação percentual declara a base e distingue por cento de pontos percentuais.
- O número de casas decimais é compatível com a precisão do instrumento.
- Toda porcentagem que não soma 100% tem nota explicativa.
- Cada número de terceiros traz período e fonte.
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Perguntas frequentes
Uso vírgula ou ponto como separador decimal no TCC?
Vírgula. Em português do Brasil, o separador decimal é a vírgula e o ponto ocupa historicamente o lugar do separador de milhar. Como os pacotes estatísticos devolvem ponto decimal por padrão, é preciso converter todos os valores copiados da saída do software antes de entregar.
Posso escrever “p < ,05” sem o zero à esquerda?
Em português, escreva “p < 0,05”. A omissão do zero à esquerda é uma convenção de manuais de estilo anglófonos para valores que não podem exceder 1; em texto em português ela dificulta a leitura e costuma ser corrigida. Mantenha o zero em todos os valores menores que a unidade.
Quais números vão por extenso no TCC?
A prática mais difundida é escrever de zero a dez por extenso no texto corrido e usar algarismos a partir de 11. Medidas, porcentagens, valores monetários, idades, datas e tamanhos amostrais vão sempre em algarismos. É convenção editorial, não norma técnica: se o manual do seu curso definir outro critério, ele prevalece.
Qual a diferença entre por cento e pontos percentuais?
Se um índice passa de 20% para 25%, ele subiu 5 pontos percentuais em termos absolutos e 25% em termos relativos. As duas leituras são corretas e descrevem coisas diferentes. Dizer “subiu 5%” nesse caso é incorreto; declare sempre a base da variação.
Quantas casas decimais devo usar nos resultados?
Tantas quantas o instrumento autorizar. Médias de escalas Likert costumam ficar bem com duas casas; porcentagens em amostras pequenas dispensam casa decimal; valores de p usam três, com “p < 0,001” abaixo desse limite. O essencial é manter o mesmo número de casas para todos os valores do mesmo tipo.
Minhas porcentagens somam 101%. Preciso corrigir?
Não force o ajuste. Somas de 99% ou 101% são consequência normal do arredondamento e devem ser declaradas em nota abaixo da tabela ou no próprio texto. Alterar um valor para fechar a conta introduz um erro real onde havia apenas um efeito conhecido do arredondamento.
