O TCC de Administração feito dentro de uma empresa é o formato mais comum do curso e o que mais atrasa: não pela escrita, mas pela sequência de decisões que precisam acontecer antes dela — conseguir a autorização, escolher o que diagnosticar, coletar sem atrapalhar a operação e transformar tudo isso num capítulo que a banca reconheça como pesquisa, e não como relatório de estágio. Este tutorial percorre o caminho inteiro em oito passos numerados, com os instrumentos de diagnóstico que a Administração usa, os documentos que a empresa vai pedir e o plano B para o caso de a porta fechar no meio do semestre.
Antes de começar: estudo de caso não é relatório de estágio
A diferença está na pergunta. O relatório descreve o que a empresa faz; o estudo de caso responde a uma pergunta sobre por que algo acontece ali e o que isso revela à luz da teoria. Sem pergunta, o trabalho vira uma apresentação institucional com organograma, e a banca de Administração reprova exatamente por isso. O desenho metodológico — caso único ou múltiplo, unidade de análise, validade e triangulação — está em estudo de caso como metodologia segundo Yin; aqui o foco é o roteiro prático de quem já decidiu que o TCC será feito numa organização.
Uma segunda distinção: diagnóstico não é consultoria. O TCC identifica e explica o problema; propor um plano de ação é opcional e, quando aparece, vai nas considerações finais como desdobramento, não como resultado. Muitos cursos aceitam o formato de TCC aplicado com proposta de intervenção; confirme no regulamento qual é o seu caso antes do passo 3.
Passo 1: escolher a empresa pelo acesso, não pelo tamanho
A empresa ideal para o TCC é aquela em que alguém com poder de decisão atende o seu telefone. Uma multinacional onde você conhece um analista é pior do que a distribuidora de vinte funcionários onde você conhece o dono, porque o estudo de caso depende de três acessos que só a direção concede: documentos internos, tempo dos gestores para entrevistas e permissão para observar a rotina.
Faça o teste de viabilidade em uma conversa de quinze minutos com o responsável, antes de escrever o projeto:
- Existe um problema que a própria empresa reconhece? (Rotatividade, atraso de entrega, queda de margem, estoque parado, retrabalho.) O tema do TCC nasce daí, não da sua preferência.
- Há registros? Planilhas de vendas, relatórios do sistema de gestão, indicadores de RH, atas de reunião. Sem registro, o diagnóstico fica só na percepção.
- Quem pode ser entrevistado e quando? Três a seis pessoas de níveis diferentes é o usual; se só o dono aceita falar, o caso é frágil.
- A empresa aceita aparecer com o nome? Se não, o trabalho usa nome fictício e o setor de atividade, o que é perfeitamente aceito.
Passo 2: formalizar a autorização e o sigilo
A autorização precisa existir por escrito antes da coleta, por três razões: a coordenação do curso pede, o comitê de ética pode pedir, e o gestor que autorizou verbalmente pode ser substituído. O documento é a carta de anuência, assinada por quem tem poder para conceder o acesso, e o modelo com os itens obrigatórios está em carta de anuência para coletar dados no TCC.
Junto com ela, resolva o sigilo. A empresa costuma pedir um termo de confidencialidade cobrindo dados financeiros, nomes de clientes e fornecedores e qualquer informação estratégica. Isso não impede a pesquisa: números podem ser apresentados em índices e variações percentuais, clientes viram categorias e a empresa vira “Empresa Alfa, distribuidora de médio porte do interior de São Paulo”. As regras para usar registros internos sem violar o acordo — e sem violar a LGPD quando houver dados de pessoas — estão em usar dados da empresa no TCC.
Sobre ética: entrevistar colaboradores identificáveis é pesquisa com seres humanos. A Resolução CNS nº 510/2016, que trata das ciências humanas e sociais, lista os casos que dispensam registro no sistema CEP/Conep, mas a interpretação varia entre instituições — pergunte à coordenação do seu curso qual é o procedimento antes de marcar a primeira entrevista, e prepare o termo de consentimento livre e esclarecido de qualquer forma.

Passo 3: transformar o problema da empresa em pergunta de pesquisa
O gestor diz “a rotatividade está alta”. Isso é um sintoma, e o TCC precisa de uma pergunta. O caminho é perguntar “alta em relação a quê, desde quando, em que área” até chegar a algo como: quais fatores organizacionais explicam a rotatividade dos operadores de logística da Empresa Alfa entre 2024 e 2025, e como eles se relacionam com as práticas de gestão de pessoas adotadas?
A pergunta define a teoria. Rotatividade chama a literatura de gestão de pessoas (clima, comprometimento, práticas de RH); atraso de entrega chama gestão de operações (lead time, capacidade, gargalos); queda de margem chama finanças e custos; perda de clientes chama marketing e qualidade de serviço. O erro comum é escolher a teoria antes do problema e depois forçar o caso a caber nela. A ordem correta — problema, pergunta, teoria, método — e a estrutura geral dos capítulos estão em como fazer o TCC de Administração.
Passo 4: escolher os instrumentos de diagnóstico
A Administração tem um repertório próprio de ferramentas de diagnóstico, e a banca espera ver pelo menos duas delas aplicadas com dados reais, não preenchidas de forma genérica. Cada uma serve a um tipo de problema:
| Ferramenta | Para que serve no caso | Dado que exige | Erro típico |
|---|---|---|---|
| Análise SWOT | Situar o problema no ambiente interno e externo | Entrevistas com gestores, dados de mercado | Quadro genérico que serviria para qualquer empresa |
| Cinco forças de Porter | Diagnosticar pressão competitiva e margem | Dados do setor, fornecedores, clientes | Aplicar sem nenhum dado do setor |
| Mapeamento de processos (fluxograma) | Localizar gargalo, retrabalho, espera | Observação direta, tempos medidos | Desenhar o processo como deveria ser, não como é |
| Diagrama de Ishikawa | Organizar causas de um problema de qualidade ou operação | Sessão com a equipe, registros de ocorrência | Causas listadas sem evidência |
| Matriz GUT ou 5W2H | Priorizar problemas e estruturar a proposta | Resultado do diagnóstico | Usar como diagnóstico em vez de como priorização |
| Indicadores (KPIs) em série | Medir o problema ao longo do tempo | Relatórios do sistema, planilhas | Um único mês, sem série histórica |
| Pesquisa de clima ou satisfação | Medir percepção de colaboradores ou clientes | Questionário com escala validada | Criar itens próprios sem pré-teste |
A regra de combinação: um instrumento de contexto, um de medição e um de causa. Para o caso da rotatividade, por exemplo: SWOT da área de gestão de pessoas (contexto), série mensal de desligamentos e admissões por turno em dezoito meses (medição) e entrevistas semiestruturadas com supervisores e operadores, organizadas num diagrama de causa e efeito (causa). Três fontes diferentes sobre o mesmo problema é o que Yin chama de triangulação, e é ela que separa o estudo de caso da opinião.
Passo 5: coletar sem atrapalhar a operação
A empresa autorizou, mas não vai parar para o seu TCC. Planeje a coleta em ordem de custo para ela:
- Documentos primeiro. Peça de uma vez todos os relatórios, planilhas e registros do período, com uma lista escrita do que precisa. Cada ida atrás de “só mais um dado” gasta a boa vontade que você vai precisar para as entrevistas.
- Observação em seguida. Um ou dois turnos acompanhando o processo, com diário de campo datado: o que acontece, quanto tempo leva, onde a fila se forma. É aqui que o fluxograma deixa de ser teórico.
- Entrevistas por último. Com os documentos e a observação em mãos, o roteiro fica específico (“o relatório mostra que os desligamentos concentram-se no turno da noite; o que acontece ali?”) e a entrevista rende em trinta minutos. O roteiro e a condução estão em entrevista semiestruturada e grupo focal no TCC.
- Questionário só se houver escala validada e população suficiente. Numa empresa de trinta pessoas, uma pesquisa de clima tem trinta respondentes no máximo — funciona como retrato descritivo, não como teste estatístico. Diga isso na metodologia em vez de fingir inferência.
Registre tudo com data, fonte e forma de acesso. A tabela de fontes — documento, período, quem forneceu, em que formato — entra no capítulo de metodologia e é a evidência de que o caso foi pesquisado, não imaginado.

Passo 6: escrever o capítulo do caso
O capítulo de resultados de um estudo de caso empresarial tem uma arquitetura que funciona quase sempre, nesta ordem:
- Caracterização da empresa em uma página: setor, porte, tempo de atividade, estrutura, o suficiente para o leitor situar o caso — sem histórico de fundação nem missão e valores copiados do site.
- Descrição do problema com dados: a série histórica, o indicador, a comparação com a referência do setor quando houver. É aqui que o gráfico entra, e cada gráfico tem fonte declarada.
- Diagnóstico: os instrumentos aplicados, um por seção, com o que cada um revelou. O fluxograma real, o quadro SWOT preenchido com evidência, as categorias das entrevistas com trechos curtos e identificação por código (Supervisor 1, Operador 3).
- Síntese: o que os três instrumentos, juntos, dizem sobre a pergunta. Onde convergem, onde divergem, o que ficou sem resposta.
A discussão — o confronto entre o que o caso mostrou e o que a teoria previa — é um capítulo à parte, e o roteiro específico da área, com os movimentos que a banca de Administração procura, está em como escrever a discussão do TCC de Administração.
Passo 7: a proposta de intervenção, se o curso pedir
Quando o regulamento prevê TCC aplicado, a proposta vem depois da discussão e responde apenas ao que o diagnóstico encontrou. Um plano 5W2H com três a cinco ações, cada uma ligada a uma causa identificada, com responsável, prazo e indicador de acompanhamento, é o formato mais aceito. O que não cabe: propor um sistema de gestão integrada para uma empresa que não tem nem planilha de estoque, ou uma ação que não decorre de nenhum dado do capítulo anterior. A proposta é julgada pela coerência com o diagnóstico, não pela ambição.
Passo 8: o plano B quando a empresa fecha a porta
Acontece com frequência: o gestor que autorizou sai, a empresa entra em período de auditoria, ou os dados prometidos nunca chegam. O plano B precisa existir no projeto, e há três saídas que preservam o semestre:
- Reduzir o escopo ao que já foi coletado. Se as entrevistas foram feitas e os documentos não vieram, o caso vira qualitativo e descritivo, com a limitação declarada. Um caso menor com método honesto vale mais que um caso grande com dados inventados.
- Migrar para fontes públicas. Empresas de capital aberto publicam demonstrações financeiras, relatórios de sustentabilidade e formulário de referência; o caso passa a ser documental, sobre uma empresa que você não precisa visitar.
- Trocar de empresa dentro do mesmo problema. A pergunta sobre rotatividade em operação logística serve para qualquer distribuidora; a teoria e o roteiro de entrevista já prontos migram com você.
Em todos os casos, avise o orientador na semana em que o problema aparecer, não na véspera da entrega. Mudança de campo com dois meses de antecedência é rotina; com duas semanas é reprovação.
Checklist antes de entregar
- Carta de anuência assinada e termo de confidencialidade arquivados; nome da empresa tratado conforme o acordo.
- Pergunta de pesquisa formulada sobre o problema da empresa, não sobre o tema da preferência do autor.
- Pelo menos dois instrumentos de diagnóstico aplicados com dado real; um de contexto, um de medição, um de causa.
- Tabela de fontes com documento, período e forma de acesso no capítulo de metodologia.
- Capítulo do caso na sequência caracterização, problema com dados, diagnóstico, síntese.
- Proposta de intervenção, se houver, ligada causa a causa ao diagnóstico.
- Plano B registrado no projeto e orientador informado de qualquer mudança de campo.
Escreva o capítulo do caso com os dados já organizados
Com a carta assinada, os instrumentos aplicados e a tabela de fontes montada, o que falta é transformar planilhas, diário de campo e transcrições em capítulo. O Tesify Editor IA ajuda a redigir o estudo de caso seção por seção — caracterização, problema com dados, diagnóstico por instrumento e síntese —, mantendo a sua voz e ajustando o texto às normas ABNT enquanto você escreve. A leitura dos dados e as conclusões sobre a empresa continuam sendo suas.
Escrever o capítulo do meu estudo de caso no Tesify
Perguntas frequentes
Posso fazer o TCC na empresa onde trabalho?
Pode, e é a situação mais comum em Administração. A condição é declarar o vínculo na metodologia, obter a carta de anuência da direção mesmo sendo funcionário e tratar a própria posição como uma limitação — o pesquisador que faz parte da rotina tende a naturalizar o que um observador externo notaria.
A empresa precisa aparecer com o nome verdadeiro no TCC?
Não. Nome fictício com descrição do setor, porte e região é aceito por praticamente todos os cursos e costuma ser exigido pelas empresas. O que não pode faltar é a caracterização suficiente para o leitor entender o contexto do caso.
Quantas entrevistas um estudo de caso em empresa precisa ter?
Não há número fixo; o critério é cobrir os níveis envolvidos no problema — direção, supervisão e operação — e chegar ao ponto em que as respostas começam a se repetir. Três a seis entrevistas costumam bastar numa empresa pequena ou média, desde que combinadas com documentos e observação.
Estudo de caso em empresa precisa passar pelo comitê de ética?
Depende da instituição e do desenho. Entrevistas com pessoas identificáveis configuram pesquisa com seres humanos; a Resolução CNS nº 510/2016 prevê situações que dispensam registro, mas a aplicação varia. Consulte a coordenação do curso antes da coleta e use o termo de consentimento em qualquer cenário.
Posso usar SWOT como única ferramenta de diagnóstico?
Não é recomendável. A SWOT situa o problema, mas não o mede nem explica suas causas. A banca espera ao menos um instrumento de medição — indicadores em série ou questionário — e um de causa — entrevistas, diagrama de Ishikawa ou mapeamento de processo — combinados com ela.
O que fazer se a empresa desistir no meio do TCC?
Avisar o orientador imediatamente e acionar o plano B previsto no projeto: reduzir o escopo ao que já foi coletado, migrar para fontes públicas de uma empresa de capital aberto ou trocar de empresa mantendo a pergunta, a teoria e os instrumentos já preparados.
