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Como Apresentar Números e Tabelas Estatísticas no TCC em 2026: A Norma Que Ninguém Lê

Existe uma norma brasileira que diz o que cada célula da sua tabela pode conter, quantas casas decimais usar, o que escrever quando não há dado e por que um traço não é a mesma coisa que um zero. Ela não é uma NBR e quase nenhum TCC a cita: são as Normas de Apresentação Tabular do IBGE, 3ª edição, de 1993 — e a própria apresentação da obra diz que ela se destina a pesquisadores, professores e estudantes.

Qual norma manda nos números

Há uma divisão de trabalho que resolve boa parte da confusão. A NBR 14724 — em 4ª edição desde 16 de dezembro de 2024 — cuida da estrutura do trabalho acadêmico: quais elementos são pré-textuais, textuais e pós-textuais. Qual edição de cada norma vale para o seu curso é assunto de qual versão da norma ABNT o seu TCC deve seguir.

Já o conteúdo interno de uma tabela estatística — o que pode ocupar uma célula, como arredondar, o que vai no rodapé — vem das Normas de Apresentação Tabular do IBGE, 3ª edição, Rio de Janeiro, 1993, 62 páginas, publicadas pelo Centro de Documentação e Disseminação de Informações. O documento está disponível gratuitamente na Biblioteca do IBGE.

Vale ler o que a própria obra diz sobre a quem se destina. O texto de apresentação afirma que as normas se dirigem não apenas aos participantes do Sistema Estatístico Nacional, mas também a entidades normativas — “como a Associação Brasileira de Normas Técnicas-ABNT, que poderão adotá-la em suas recomendações” — e a “pesquisadores, professores e estudantes, que terão nestas normas orientação para a apresentação tabular dos resultados de seus estudos e pesquisas”.

É exatamente por isso que os guias de normalização das bibliotecas universitárias brasileiras remetem a tabela ao IBGE e não a uma NBR: não existe uma NBR de apresentação tabular, e a norma que ocupa esse lugar tem trinta e poucos anos e continua sendo a referência.

Vírgula decimal e casas decimais

Em português do Brasil o separador decimal é a vírgula e o separador de milhar é o ponto: 1.234,56. Isso parece óbvio até o momento em que a planilha vem configurada em inglês e a tabela sai com 1,234.56 no meio de um texto em português. Confira a configuração regional antes de colar qualquer saída, e confira de novo depois de colar.

Sobre o número de casas decimais, a regra prática é a consistência: a mesma quantidade de casas para a mesma grandeza, em toda a tabela e em todo o trabalho. Não misture 3,7 com 3,68 na mesma coluna. E resista à precisão emprestada — se você mediu idade em anos inteiros, uma média de 24,3187 anos não descreve nada que os seus dados sustentem. Duas casas decimais cobrem a quase totalidade dos casos em TCC; percentuais costumam ficar bem com uma.

As regras de arredondamento

A norma trata o arredondamento em seção própria, e as duas regras centrais são explícitas:

  • Quando o primeiro algarismo a ser abandonado for 0, 1, 2, 3 ou 4, o último algarismo que permanece fica inalterado. Assim, 9,2377 arredondado para número inteiro resulta 9; para uma casa decimal, 9,2; e 21,0509 para duas casas decimais resulta 21,05.
  • Quando o primeiro algarismo a ser abandonado for 5, 6, 7, 8 ou 9, aumenta-se em uma unidade o último algarismo que permanece. Assim, 399,85 arredondado para número inteiro resulta 400; para uma casa decimal, 399,9; e 9,2377 para duas casas decimais resulta 9,24.

Duas exigências acompanham essas regras e costumam ser esquecidas. A primeira: o arredondamento deve ser indicado em nota geral ou específica — não é uma operação silenciosa. A segunda: o arredondamento deve respeitar as diferenças significativas, absolutas e relativas, existentes entre os dados; arredondar até o ponto em que duas categorias distintas passam a exibir o mesmo número destrói a informação que a tabela existe para transmitir.

Há ainda um detalhe elegante que quase ninguém conhece. Quando o arredondamento produz zero a partir de um valor originalmente negativo, a norma manda escrever -0,0 ou -0,00, conservando o sinal do dado original — justamente para distinguir esse caso de um zero verdadeiro.

Ilustração do arredondamento de um número a um número fixo de casas decimais
Arredondar é uma decisão declarada, não um efeito colateral da planilha: a norma exige que ela apareça em nota.

E o clássico: a soma das parcelas não bate com o total. Isso é esperado quando se arredonda, e a solução não é forçar o número — é a nota que as próprias tabelas de exemplo do IBGE trazem: “As diferenças entre soma de parcelas e respectivos totais são provenientes do critério de arredondamento.”

Os seis sinais convencionais

Um sinal convencional é, na definição da norma, a representação gráfica que substitui o dado numérico. Célula vazia não é opção: quando não há número, entra um sinal, e cada sinal significa uma coisa distinta.

Sinais convencionais e seus significados, conforme as tabelas de exemplo da norma
Sinal Significado Quando aparece no seu TCC
– Dado numérico igual a zero não resultante de arredondamento Zero absoluto: nenhum caso naquela categoria
0 (0,0 · 0,00) Dado numérico igual a zero resultante de arredondamento de um dado originalmente positivo O valor existia, era pequeno e virou zero na casa decimal escolhida
-0,0 (-0,00) Zero por arredondamento de um dado originalmente negativo Variações negativas mínimas em séries econômicas
… Dado numérico não disponível O dado existe, mas você não conseguiu obtê-lo
.. Não se aplica dado numérico O cruzamento de linha e coluna não faz sentido
x Dado numérico omitido a fim de evitar a individualização da informação Sigilo: poucos casos permitiriam identificar o informante

A distinção entre os três primeiros é o que mais rende pergunta de banca. Um traço afirma que o fenômeno não ocorreu; um zero afirma que ocorreu pouco. São conclusões diferentes, e trocar um pelo outro é um erro de conteúdo, não de formatação.

O sinal x merece atenção especial de quem trabalha com bases oficiais: quando um recorte municipal volta cheio de x, isso não é falha do portal — é sigilo estatístico protegendo o informante, e a leitura correta muda a sua conclusão sobre “falta de dados”.

Células de uma tabela ocupadas por sinais convencionais no lugar de dados numéricos
Nenhuma célula fica vazia: quando não há número, há um sinal, e cada sinal carrega uma afirmação diferente sobre o dado.

A norma é explícita sobre a obrigação que acompanha o uso: quando uma tabela contiver sinais convencionais, eles devem ser apresentados em nota geral com os respectivos significados. A dispensa só existe quando a publicação inteira exibe a legenda em destaque em outro lugar — o que, num TCC, raramente é o caso.

O rodapé: fonte, nota geral, nota específica

O rodapé da tabela tem três elementos, nesta ordem, e cada um com uma regra:

  1. Fonte. Toda tabela deve ter fonte, inscrita a partir da primeira linha do rodapé, para identificar o responsável pelos dados numéricos. Ela é precedida da palavra Fonte (ou Fontes), recomenda-se identificação por extenso, e — detalhe importante para o TCC — quando os dados vêm de um documento, recomenda-se que a identificação indique a referência bibliográfica do documento. Se você transformou os dados obtidos na fonte, o responsável pela operação deve ser identificado em nota. Se os dados são da sua coleta, a fonte é você, e isso precisa estar escrito.
  2. Nota geral. Vem logo após a fonte, sempre que for preciso esclarecer o conteúdo geral da tabela — é onde entram a legenda dos sinais convencionais e o aviso sobre o arredondamento. Precedida da palavra Nota ou Notas.
  3. Nota específica. Vem depois da nota geral e esclarece um elemento pontual, sempre precedida da respectiva chamada. A chamada é feita com algarismos arábicos em destaque — entre parênteses, entre colchetes ou em expoente — e, havendo várias, elas se distribuem de cima para baixo e da esquerda para a direita, em ordem crescente.

A relação entre esse rodapé e as regras gerais de indicação de fonte em elementos ilustrativos está em como indicar a fonte de imagens, figuras, gráficos e tabelas. A construção da tabela dentro do editor de texto, com bordas e numeração, é tratada em como fazer tabelas e quadros nas normas ABNT no Word.

Hífen ou barra nas séries temporais

Esta é a regra mais desconhecida da norma e a mais fácil de aplicar. Ao apresentar um intervalo de tempo:

  • Hífen para série temporal consecutiva. Escrever 1981-1985 afirma que há dados para 1981, 1982, 1983, 1984 e 1985.
  • Barra para série temporal não consecutiva. Escrever 1981/1985 afirma que há dados para 1981 e 1985, e que faltam dados de pelo menos um dos anos intermediários.

Ou seja: o sinal entre as datas é uma declaração sobre a completude da sua série, não uma preferência tipográfica. A mesma lógica vale para meses (OUT 1991-MAR 1992) e para dias. E, quando a série não consecutiva tem poucos pontos, a norma permite listá-los separados por vírgula — 1988, 1990, 1991 — dispensando o intervalo.

Há ainda a convenção de safra, útil em trabalhos de Agronomia e Zootecnia: dados que abrangem dois anos são apresentados com os dois últimos algarismos de cada ano ligados por barra e precedidos da palavra Safra — Safra 91/92. E, se o período anual for diferente do ano civil, isso deve ser indicado no título ou em nota.

Como escrever as classes de frequência

Quem monta faixas etárias ou faixas de renda esbarra na ambiguidade clássica: uma pessoa de 30 anos entra na faixa “20 a 30” ou na “30 a 40”? A norma resolve com notação explícita, e o critério é qual extremo o intervalo inclui:

Notação das classes de frequência
O intervalo Por extenso Com notação
Inclui o extremo inferior e exclui o superior w a menos de z w |— z
Exclui o extremo inferior e inclui o superior mais de w a z w —| z
Inclui ambos os extremos w a z w |—| z

A recomendação final da seção poupa dor de cabeça na banca: as classes inicial e final devem ser fechadas, evitando-se expressões abertas do tipo “até z” ou “w ou mais”. Uma faixa aberta na ponta impede o leitor de saber o que está dentro dela.

Médias, desvios e percentuais no texto

A norma tabular cuida da tabela; o texto corrido segue convenções de área, mas quatro hábitos são consensuais e evitam correção:

  • Informe sempre o n junto de qualquer percentual. “45% dos respondentes” sem o n é um número que o leitor não consegue avaliar — 45% de 20 pessoas e 45% de 800 são afirmações muito diferentes.
  • Média acompanhada de dispersão. Escreva a média com o desvio padrão, e declare qual medida de dispersão está usando — desvio padrão e erro padrão da média são grandezas diferentes e frequentemente confundidas.
  • Quando a distribuição é assimétrica, prefira mediana e intervalo interquartil. Média com desvio padrão em dados enviesados descreve mal o conjunto. Se a sua variável não passou na verificação tratada em teste de normalidade no TCC, essa troca é parte da consequência.
  • Não repita na íntegra, no texto, a tabela que está ao lado. Cite o elemento e acrescente a leitura que a tabela não dá. O padrão de redação está em análise de dados quantitativos no TCC, e os gráficos em como fazer gráficos para o TCC nas normas ABNT.

Sobre estatísticas de teste, a mesma lógica de completude se aplica: teste, estatística, graus de liberdade, p-valor e uma medida de magnitude — o que cada uma delas significa está em o que é tamanho de efeito.

Checklist antes de fechar o capítulo

  • Separador decimal é vírgula em todas as tabelas e em todo o texto.
  • Mesmo número de casas decimais para a mesma grandeza, do começo ao fim.
  • Nenhuma célula vazia: onde não há número, há sinal convencional.
  • Legenda dos sinais convencionais em nota geral, em toda tabela que os usa.
  • Nota informando o critério de arredondamento onde ele foi aplicado.
  • Fonte em todas as tabelas, inclusive nas de dados próprios.
  • Hífen para série consecutiva, barra para não consecutiva.
  • Classes de frequência fechadas nas duas pontas e sem ambiguidade de extremo.
  • Unidade de medida declarada no cabeçalho ou nas colunas indicadoras.
  • O n aparece junto de todo percentual, na tabela ou no texto.

Percorrer essa lista leva vinte minutos e resolve a maior parte dos apontamentos de formatação que voltam da banca. Se o gargalo é escrever o capítulo em torno dessas tabelas — e manter a coerência com o que a metodologia prometeu —, o Tesify ajuda a estruturar o texto do TCC a partir do seu próprio material, com referências ABNT automáticas e autoverificação de originalidade.

Perguntas frequentes

Qual norma rege a apresentação de tabelas no TCC?

A referência brasileira são as Normas de Apresentação Tabular do IBGE, 3ª edição, de 1993, publicadas pelo Centro de Documentação e Disseminação de Informações. A própria apresentação da obra diz que ela se destina também a pesquisadores, professores e estudantes, e que entidades normativas como a ABNT poderiam adotá-la em suas recomendações.

O que significa o traço em uma célula de tabela?

Indica dado numérico igual a zero não resultante de arredondamento, isto é, um zero absoluto. É diferente do algarismo zero, que indica um zero obtido por arredondamento de um valor originalmente positivo.

Qual a diferença entre dois pontos e três pontos na tabela?

Três pontos indicam dado numérico não disponível; dois pontos indicam que não se aplica dado numérico àquela célula. No primeiro caso o dado existe e não foi obtido; no segundo, o cruzamento de linha e coluna não faz sentido.

Como arredondar os números da tabela?

Quando o primeiro algarismo a ser abandonado for 0, 1, 2, 3 ou 4, o último algarismo que permanece fica inalterado; quando for 5, 6, 7, 8 ou 9, aumenta-se em uma unidade o último algarismo que permanece. O arredondamento precisa ser indicado em nota geral ou específica.

Uso hífen ou barra entre os anos de uma série?

Hífen para série temporal consecutiva, em que todos os pontos intermediários têm dados; barra para série não consecutiva, em que faltam dados de ao menos um ponto intermediário. É uma distinção com significado, não uma escolha de estilo.

Preciso indicar a fonte mesmo se os dados forem meus?

Sim. Toda tabela deve ter fonte, inscrita a partir da primeira linha do rodapé, identificando o responsável pelos dados numéricos. Quando os dados são da própria pesquisa, a fonte é o autor, e isso deve estar escrito.

Por que a soma das parcelas não bate com o total?

Porque os valores foram arredondados. É um efeito esperado, e a solução é declará-lo em nota, no formato usado pelas próprias tabelas de exemplo do IBGE: as diferenças entre soma de parcelas e respectivos totais são provenientes do critério de arredondamento.

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