Como Citar Software e Pacote Estatístico na ABNT em 2026: SPSS, R, jamovi e IRaMuTeQ (NBR 6023)

Você rodou a análise no SPSS, no jamovi ou no R. Na hora de escrever a metodologia, aparece a dúvida: isso entra nas referências? Entra. O software de análise é um instrumento de pesquisa, e omiti-lo tem o mesmo efeito de omitir o questionário que você aplicou — o leitor deixa de conseguir refazer o seu caminho. Este guia mostra como montar a referência pela NBR 6023 (3ª edição, de 21 de maio de 2025), com modelos prontos para os programas mais usados no Brasil e a solução para o campo que trava todo mundo: o local.

Software é fonte que se referencia?

Sim — e por uma razão metodológica, não burocrática. Versões diferentes do mesmo programa podem produzir resultados diferentes. Mudam algoritmos, mudam os valores-padrão de um procedimento, muda o método de estimação escolhido automaticamente. Um leitor que queira reproduzir a sua análise precisa saber exatamente com o quê você a fez.

Vale a distinção que evita exagero: referencia-se o que produziu resultado. O Word em que você digitou o trabalho não entra. O gerenciador de referências não entra. Já o programa que calculou as suas médias, rodou o seu teste ou classificou o seu corpus textual é instrumento de análise e entra — na metodologia e na lista final.

Os elementos da referência

A NBR 6023 não dedica uma seção exclusiva a “software estatístico”; ela trata o caso pela lógica geral de documento eletrônico, com os elementos na ordem consagrada. Aplicada a um programa, a sequência é:

Referência de software decomposta em segmentos coloridos, cada um correspondendo a um elemento obrigatório
Cada segmento da referência tem origem definida — e o campo “versão” ocupa a posição que a edição ocuparia em um livro.
Elementos da referência de um software e onde encontrar cada um
Elemento Onde obter
Autor A pessoa ou entidade responsável pelo desenvolvimento. Pode ser empresa, projeto coletivo ou autor pessoal.
Título O nome oficial do programa, com o destaque tipográfico usado nas demais referências.
Versão No menu Ajuda > Sobre do próprio programa. Ocupa a posição da edição.
Local A sede do desenvolvedor. Ver a seção seguinte para projetos abertos.
Produtor/Editora A entidade que distribui o programa.
Ano O ano da versão que você usou, não o ano em que o programa foi criado.
Disponível em / Acesso em Obrigatórios quando o programa foi obtido online.

Duas observações que resolvem a maioria das dúvidas. A primeira: o ano é o da versão utilizada. Se você rodou uma versão de 2026, o ano é 2026, mesmo que o programa exista desde 1968. A segunda: a autoria pode ser pessoal. Nem todo software é de empresa — e isso muda a forma de entrada, como veremos no IRaMuTeQ.

O problema do “Local” em software livre

A ABNT exige local. Um projeto de código aberto desenvolvido por voluntários em vários países não tem, a rigor, uma cidade. É aqui que a maioria das referências de software trava.

A saída é usar a sede que o próprio projeto indica. Vários projetos anteciparam a pergunta. O jamovi, por exemplo, afirma na sua página oficial que a exigência de cidade e país “não se encaixa bem em um projeto de código aberto desenvolvido internacionalmente”, mas que, se o editor insistir, “Sydney, Austrália” é a melhor opção. É uma resposta oficial e citável — use-a. O R, por sua vez, indica formalmente Viena, Áustria, sede da R Foundation for Statistical Computing.

Quando o projeto não indica nada e não há sede identificável, aplique a regra geral da NBR 6023 para local desconhecido: a expressão [S. l.] entre colchetes. O mesmo princípio que resolve obras sem autor, sem data e sem local vale aqui.

Modelos prontos para copiar

Substitua a versão pela que aparece no seu programa e a data de acesso pela data em que você baixou ou consultou.

SPSS — autoria de entidade comercial:

IBM CORPORATION. IBM SPSS Statistics for Windows. Versão 30.0.
Armonk: IBM Corp., 2026. 1 programa de computador.

R — autoria coletiva. A R Foundation publica a forma exata, com DOI próprio:

R CORE TEAM. R: a language and environment for statistical computing.
Versão 4.6.1. Viena: R Foundation for Statistical Computing, 2026.
DOI: 10.32614/R.manuals. Disponível em: https://www.R-project.org.
Acesso em: 17 ago. 2026.

jamovi — projeto coletivo, com o local recomendado pelo próprio projeto:

THE JAMOVI PROJECT. jamovi. Versão 2.7. Sydney: The jamovi project, 2026.
Disponível em: https://www.jamovi.org. Acesso em: 17 ago. 2026.

IRaMuTeQ — o caso de autor pessoal. O programa é desenvolvido por Pierre Ratinaud, no LERASS, e distribuído sob licença GNU GPL v2; a entrada, portanto, é pelo sobrenome:

RATINAUD, Pierre. IRaMuTeQ: interface de R pour les analyses
multidimensionnelles de textes et de questionnaires. Versão [a que você usou].
Toulouse: LERASS, 2025. Disponível em: [endereço oficial do projeto].
Acesso em: 17 ago. 2026.

G*Power — desenvolvido e distribuído por uma universidade:

HEINRICH-HEINE-UNIVERSITÄT DÜSSELDORF. G*Power. Versão [a que você usou].
Düsseldorf: Heinrich-Heine-Universität, 2026. Disponível em: [endereço oficial].
Acesso em: 17 ago. 2026.

Se você usou o G*Power para justificar o número de participantes, a referência acompanha o cálculo — o procedimento completo está em como calcular o tamanho da amostra no G*Power. Para o jamovi, o passo a passo da análise está em jamovi passo a passo, e a escolha entre softwares qualitativos, incluindo o IRaMuTeQ, é comparada em IRaMuTeQ, NVivo, ATLAS.ti ou MAXQDA.

Pacotes e bibliotecas: o comando que resolve

Quem usa R enfrenta uma camada extra: o resultado não saiu do R puro, saiu de um pacote. E cada pacote tem autoria própria, muitas vezes com um artigo científico associado.

A boa notícia é que o próprio R gera a citação correta. O comando citation() devolve a referência do R; citation("nome_do_pacote") devolve a do pacote, no formato que os autores pedem, inclusive em BibTeX. Não há motivo para inventar: rode o comando, copie a saída e converta para a ordem da ABNT.

A regra de bom senso: referencie os pacotes que produziram resultados apresentados no trabalho, não todos os que estavam instalados. Se um pacote gerou a sua análise fatorial ou o seu gráfico, ele entra.

O mesmo princípio vale além do R. O jamovi informa que traz citações específicas por análise dentro do próprio programa — ou seja, ao rodar um procedimento, ele indica qual referência usar para aquele método. Vale conferir antes de escrever a lista final.

Onde o software aparece no trabalho

Duas páginas do trabalho: um parágrafo destacado no capítulo de metodologia e a entrada correspondente na lista de referências
O software aparece duas vezes: descrito na metodologia e referenciado na lista final.

São dois lugares, com funções diferentes.

1. No capítulo de metodologia, em prosa, junto da descrição da análise. É ali que se informa programa, versão e o que foi feito com ele. Um modelo de parágrafo:

As análises estatísticas foram realizadas no jamovi (versão 2.7). Adotou-se nível de significância de 5%. A normalidade das distribuições foi verificada pelo teste de Shapiro-Wilk e a consistência interna da escala foi estimada pelo alfa de Cronbach.

Note que a menção ao programa vem junto dos procedimentos — não isolada em uma frase solta. O leitor precisa saber o que foi rodado, não apenas onde.

2. Na lista de referências, com a entrada completa, em ordem alfabética junto das demais fontes. A chamada no corpo do texto segue o sistema autor-data da NBR 10520:2023 — (R CORE TEAM, 2026) ou (RATINAUD, 2025), conforme a autoria.

Se o seu trabalho também usou uma base de dados pública, ela é um objeto distinto do software e tem regra própria, detalhada em como citar base de dados e dataset na ABNT. E se você usou inteligência artificial em alguma etapa, o tratamento é outro — veja como citar o ChatGPT e outras IAs.

Erros comuns

  • Omitir a versão. É o erro mais frequente e o mais custoso: sem ela, a referência não cumpre a função de permitir reprodução.
  • Usar o ano de criação do programa. O ano é o da versão utilizada.
  • Entrar pelo nome do produto quando o autor é pessoa. No IRaMuTeQ, a entrada é Ratinaud, não IRaMuTeQ.
  • Citar o R e esquecer os pacotes que efetivamente geraram os resultados.
  • Referenciar tudo o que foi aberto no computador. Editor de texto e navegador não são instrumentos de análise.
  • Copiar uma referência de software pronta da internet sem conferir a versão e a sede — os dois campos que mais mudam entre edições do mesmo programa.

Por fim, confirme sempre o manual de normalização da sua instituição. Muitas universidades brasileiras publicam guias próprios que detalham casos que a norma trata de modo genérico, e a exigência local prevalece na banca. A mesma lógica de consulta à norma oficial vale para citar normas técnicas ABNT NBR e ISO.

Quer manter método, análise e referências consistentes do começo ao fim do trabalho? Organize seu TCC no Tesify e gere as referências já no padrão exigido.

Perguntas frequentes

Preciso citar o software que usei na análise do TCC?

Sim. O software de análise é um instrumento de pesquisa, e informar qual programa e qual versão foram usados é condição para que outro pesquisador reproduza o seu resultado. A prática consolidada é declarar o programa e a versão no capítulo de metodologia e incluir a referência completa na lista final.

Qual é a estrutura da referência de um software na ABNT?

Segue a lógica de documento eletrônico da NBR 6023: autor (pessoa ou entidade responsável), título do software em destaque, versão, local, produtor ou editora, ano e, quando online, o endereço eletrônico com a data de acesso. A versão ocupa a posição equivalente à da edição em um livro.

Como citar o R e um pacote do R na ABNT?

A autoria do R é coletiva: R Core Team, com a R Foundation for Statistical Computing em Viena, Áustria, como responsável. O próprio R gera a citação correta de si mesmo e de qualquer pacote instalado com o comando citation() — para um pacote específico, use citation("nome_do_pacote"). Cada pacote que produziu um resultado do seu trabalho deve ser referenciado separadamente.

Qual local usar na referência de um software livre sem sede?

Use a sede indicada pelo próprio projeto. O jamovi, por exemplo, reconhece que a pergunta não se encaixa bem em um projeto internacional, mas orienta usar Sydney, Austrália, quando um editor exigir cidade e país. Se o projeto não indicar nenhuma, aplica-se a solução da NBR 6023 para local não identificado: a expressão [S. l.] entre colchetes.

Preciso citar o Excel e o Word?

Depende da função. Se o Excel foi apenas onde você digitou a planilha, não. Se foi a ferramenta que produziu as estatísticas ou os gráficos apresentados nos resultados, sim — nesse caso ele é instrumento de análise. Editores de texto como o Word nunca precisam ser citados, porque não produzem resultado de pesquisa.

Devo informar a versão do software mesmo que a banca não peça?

Sim. Versões diferentes de um mesmo programa podem aplicar algoritmos e valores-padrão distintos e chegar a resultados ligeiramente diferentes. Sem a versão, o leitor não consegue reproduzir a análise, que é justamente a razão de identificar o software.

Escreva seu TCC com IA

Estruture, escreva e formate suas referências nas normas ABNT — com integridade acadêmica. Cadastro gratuito, sem cartão.

Comece grátis com o Tesify →

Categorias