O capítulo voltou do orientador com uma anotação na margem: “linguagem inadequada”. Você releu três vezes e não encontrou nenhum erro de gramática — porque não há. O problema não é a norma culta, é o registro: o nível de formalidade que o gênero acadêmico exige e que a escrita do dia a dia não tem.
Registro é a diferença entre um texto correto e um texto adequado. Um TCC pode estar impecável em concordância e regência e ainda assim soar como um trabalho de escola, um post de blog ou uma conversa de WhatsApp transcrita. Este guia mapeia os nove vícios que aparecem em praticamente todo TCC brasileiro e traz as trocas prontas.
Registro acadêmico não é linguagem difícil
Antes das listas, uma correção de rota importante. Muita gente reage ao comentário do orientador aumentando o vocabulário: troca “sobre” por “no que tange a”, “portanto” por “destarte”, “é necessário” por “faz-se mister”. O resultado é pior que o original.
Registro acadêmico é formal, impessoal, preciso e enxuto. Não é ornamentado. Um texto acadêmico bem escrito usa palavras comuns em construções claras e reserva o vocabulário técnico para os conceitos que realmente precisam dele. O rebuscamento é tão inadequado quanto a gíria — os dois desviam a atenção do argumento para a superfície da frase.
Vício 1 — Gerundismo
“Vamos estar analisando os dados no próximo capítulo.” “Estaremos apresentando os resultados a seguir.” A construção nasceu no atendimento telefônico e migrou para o texto acadêmico como se fosse formalidade. Não é: é perífrase vazia, porque o futuro simples faz o mesmo trabalho com metade das palavras.
- “Estaremos apresentando” → “o capítulo apresenta”
- “Vamos estar analisando” → “analisa-se” / “foram analisados”
- “Vou estar enviando” (no e-mail ao orientador também) → “envio”
Vício 2 — Oralidade residual
São as marcas da fala que escapam quando você escreve rápido. Elas nunca sobrevivem a uma leitura em voz alta, e é por isso que ouvir o próprio texto continua sendo a revisão mais barata que existe — as opções para isso estão comparadas no guia sobre ouvir o TCC para revisar.
| Oralidade | Registro acadêmico |
|---|---|
| a gente | este estudo / os pesquisadores |
| meio que / mais ou menos | parcialmente / em certa medida |
| um monte de / um tanto de | um número expressivo de |
| coisa / negócio | elemento / fator / aspecto |
| dar uma olhada em | examinar / analisar |
| acabou sendo | resultou em / mostrou-se |
| com certeza | (cortar, ou substituir por evidência) |
| pra / pro | para / para o |
| tipo assim | (cortar) |
| na real / no fim das contas | em síntese |
Vício 3 — Intensificadores vazios
“Muito importante”, “bastante relevante”, “extremamente significativo”, “super interessante”. Nenhum desses advérbios acrescenta informação: eles apenas declaram entusiasmo. Em texto acadêmico, a intensidade vem do dado, não do advérbio.
A regra: se você puder substituir o intensificador por um número, substitua. “A adesão foi muito alta” vira “a adesão alcançou 78% dos convidados”. Se não houver número, corte o advérbio — a frase quase nunca perde algo.
Atenção especial a “significativo”: em trabalho com estatística, a palavra tem sentido técnico. Usá-la como sinônimo de “importante” cria ambiguidade real, e a banca vai perguntar qual teste você aplicou.
Vício 4 — Vagueza quantitativa
“Vários autores defendem…”, “a maioria dos estudos aponta…”, “grande parte dos alunos…”. São afirmações que parecem sustentadas e não são. Quantos autores? Quantos estudos, de que levantamento? Que porcentagem de alunos?
- “Vários autores” → “Três dos cinco estudos localizados (SILVA, 2019; COSTA, 2020; LIMA, 2022)”
- “A maioria dos respondentes” → “62% dos respondentes”
- “Um número considerável de instituições” → “41 das 78 instituições analisadas”
Vício 5 — Rebuscamento e hipercorreção
O movimento contrário, igualmente penalizado. Expressões como “faz-se mister”, “outrossim”, “destarte”, “no que tange a”, “em se tratando de” e “o presente labor monográfico” soam artificiais fora da tradição jurídica. Elas não elevam o texto; elas anunciam que o autor está imitando um estilo em vez de argumentar.
Um teste honesto: leia a frase em voz alta imaginando que está explicando o seu trabalho para um colega de outro curso. Se você jamais diria aquela palavra em voz alta, provavelmente não precisa dela por escrito.
Vício 6 — Pleonasmo e redundância
| Redundante | Enxuto |
|---|---|
| elo de ligação | elo |
| planejar antecipadamente | planejar |
| conclusão final | conclusão |
| experiência anterior | experiência |
| criar novos métodos | criar métodos |
| encarar de frente | enfrentar |
| a nível de graduação | em nível de graduação / na graduação |
| em termos de resultados | quanto aos resultados |
| fazer uma análise de | analisar |
| realizar a aplicação de | aplicar |
As duas últimas linhas merecem atenção. A nominalização — transformar o verbo em substantivo e apoiá-lo num verbo genérico — é o principal fator de inchaço do texto acadêmico brasileiro. “Realizou-se a coleta dos dados” tem cinco palavras onde “coletaram-se os dados” tem três, e nenhuma delas acrescenta precisão.
Vício 7 — Clichês de abertura
Existem quatro frases que abrem uma quantidade impressionante de introduções brasileiras e não dizem nada:
- “Desde os primórdios da humanidade…”
- “Em um mundo cada vez mais globalizado…”
- “Vivemos na era da informação…”
- “Com o avanço da tecnologia…”
Todas prometem contexto e entregam vaguidão. A introdução ganha muito mais começando pelo problema concreto e verificável: um número, uma tensão, uma lacuna. Um leitor que chega à segunda linha sem saber do que o trabalho trata já perdeu o interesse.
Vício 8 — Enchimento e opinião não fundamentada
Duas famílias que costumam andar juntas. A primeira são as frases de enchimento: “é importante ressaltar que”, “cabe destacar que”, “vale lembrar que”, “não podemos esquecer que”. Elas anunciam importância em vez de demonstrá-la e podem ser cortadas sem que a frase perca nada — experimente apagar a expressão e ler o que sobra.
A segunda são os marcadores de opinião: “infelizmente”, “obviamente”, “é claro que”, “sem dúvida alguma”, “lamentavelmente”. Em texto acadêmico, se algo é óbvio não precisa ser dito; se não é, precisa de evidência, não de advérbio. Esse tipo de deslize aparece com frequência na lista dos erros mais comuns no TCC, justamente porque passa despercebido em todas as releituras.
Vício 9 — Abreviações e atalhos do rascunho
Menos discutido e igualmente visível para quem corrige. São os atalhos que você usou para escrever depressa e nunca voltou para desfazer:
- “etc.” no fim de enumerações. Sinaliza que a lista está incompleta e que o autor não decidiu o critério. Ou complete a enumeração, ou abra com “entre outros” e assuma o recorte.
- “&” no lugar de “e” fora de nomes próprios e referências.
- “p/”, “q”, “pq”, “obs.” — resíduos de anotação, comuns em capítulos escritos a partir de fichamentos.
- Siglas não apresentadas. Toda sigla precisa aparecer por extenso na primeira ocorrência, com a forma abreviada entre parênteses, e só depois circular sozinha.
- Números de zero a dez costumam ir por extenso no texto corrido; a partir de onze, em algarismos. Dados, porcentagens e medidas seguem sempre em algarismos.
A busca dirigida de dez minutos
Antes de entregar, abra a busca do editor e procure, um a um, os termos abaixo. Cada ocorrência exige uma decisão consciente: manter ou trocar.
estar— pega gerundismo em todas as formasa gentemuito,bastante,extremamentevários,maioria,grande partea nívelé importante,cabe destacar,vale lembrarobviamente,infelizmente,com certezaonde— para conferir se há lugar físicocoisa,algorealizar,efetuar— indícios de nominalização
Essa varredura leva menos tempo do que reler um capítulo e costuma retirar entre trezentas e seiscentas palavras de um TCC médio — palavras que não faziam falta. Depois dela, resolva a consistência de voz do trabalho conferindo se o texto está em primeira ou terceira pessoa do começo ao fim, e reveja a costura lógica com o banco de conectivos organizados por função.
Onde a IA ajuda de verdade nessa etapa
Uniformizar registro é exatamente o tipo de tarefa em que uma ferramenta de escrita acadêmica rende: é repetitiva, tem regras estáveis e exige atenção constante ao longo de sessenta páginas — precisamente a atenção que falta na semana da entrega.
O que a ferramenta faz bem: identificar oralidade residual, apontar nominalizações, sinalizar intensificadores sem dado, manter a mesma pessoa do discurso do primeiro ao último capítulo. O que ela não faz: decidir qual é o seu argumento. Um texto com registro impecável e sem tese continua sendo um texto sem tese.
Vale lembrar que o uso deve ser declarado conforme a política da sua instituição — o guia sobre como declarar o uso de IA no TCC traz os modelos de declaração aceitos.
Checklist de registro
- Zero ocorrências de “vamos estar”, “estaremos” + gerúndio.
- Zero “a gente”, “pra”, “tipo”, “coisa”.
- Todo intensificador foi trocado por número ou cortado.
- “Vários” e “a maioria” foram quantificados.
- Nenhuma expressão rebuscada substituindo uma palavra comum.
- Nenhuma frase de enchimento sobreviveu.
- A introdução não começa com clichê de contexto universal.
- O texto foi ouvido em voz alta pelo menos uma vez.
Escreva no registro certo desde o primeiro rascunho
Corrigir registro depois custa uma revisão inteira; escrever já no registro certo não custa nada. O Tesify escreve com você mantendo formalidade acadêmica constante, elimina oralidade residual e nominalizações antes que virem hábito, e gera as referências no padrão ABNT enquanto o capítulo avança — com verificação de originalidade do próprio texto antes da entrega.
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Perguntas frequentes
O que significa “linguagem inadequada” no comentário do orientador?
Na maioria das vezes significa registro, não gramática. O texto está correto, mas usa marcas de fala, intensificadores vazios, expressões vagas ou frases de enchimento que não pertencem ao gênero acadêmico. A correção é de vocabulário e de construção, não de norma culta.
Posso usar “a gente” no TCC?
Não. “A gente” é marca de oralidade e não tem lugar no texto acadêmico, nem mesmo em trabalhos escritos em primeira pessoa. As alternativas são “este estudo”, “a pesquisa”, “os pesquisadores” ou, se o curso aceitar primeira pessoa, “nós”.
“A nível de” está errado?
A forma consagrada é “em nível de”, e “a nível de” é amplamente considerada inadequada em texto formal. Na prática, quase sempre a melhor solução é reescrever sem a expressão: em vez de “a nível de graduação”, escreva “na graduação”.
Usar palavras difíceis melhora a avaliação do TCC?
Não. Rebuscamento desnecessário costuma ser penalizado tanto quanto informalidade, porque desloca a atenção do argumento para a superfície do texto. Registro acadêmico é formal e preciso, não ornamentado: palavras comuns em construções claras, com termos técnicos apenas onde são necessários.
Como identifico oralidade no meu próprio texto?
Leia em voz alta ou use um leitor de tela. Marcas de fala que passam despercebidas na leitura silenciosa saltam imediatamente quando ouvidas. Combine isso com uma busca dirigida pelos termos mais frequentes — “a gente”, “muito”, “coisa”, “pra” — e a varredura fica completa em cerca de dez minutos.
Uma IA pode corrigir o registro do meu TCC?
Pode ajudar bastante nessa etapa específica, porque uniformizar formalidade é tarefa repetitiva e de regras estáveis. O que a ferramenta não substitui é a decisão sobre o que você quer argumentar. Use-a como revisão de superfície e declare o uso conforme a política da sua instituição.
