No TCC de Psicologia, o teste estatístico costuma ser escolhido pela pressa, não pela pergunta — abre-se o software, tenta-se uma ANOVA porque soa mais robusta, e só na defesa aparece a pergunta que devia ter vindo primeiro: o seu delineamento sequer permite esse teste? Este guia organiza a escolha do teste pela estrutura do delineamento típico da Psicologia (comparação de grupos, medidas repetidas, associação, predição), mostra os pressupostos que a área realmente verifica e como relatar o resultado no padrão que a banca espera.
A pergunta que decide o teste
Antes de qualquer tabela, três perguntas simples eliminam a maior parte da dúvida: você está comparando grupos, associando variáveis ou prevendo um desfecho? E dentro disso, os mesmos participantes foram medidos mais de uma vez, ou são grupos independentes? A escolha do delineamento em si — experimental, correlacional, quase-experimental — está em como escrever a metodologia do TCC de Psicologia; o que segue aqui é o passo seguinte, quando o delineamento já está definido e falta escolher a análise.
Tabela de decisão: da pergunta ao teste
| Sua pergunta é | Delineamento | Teste paramétrico | Alternativa não paramétrica |
|---|---|---|---|
| Dois grupos independentes diferem numa medida (ex.: grupo clínico x controle) | Comparação entre grupos | Teste t de Student para amostras independentes | Mann-Whitney |
| O mesmo grupo mudou entre dois momentos (ex.: antes e depois de uma intervenção) | Medidas repetidas, dois momentos | Teste t pareado | Wilcoxon |
| Três ou mais grupos independentes diferem numa medida | Comparação entre grupos | ANOVA de um fator | Kruskal-Wallis |
| O mesmo grupo foi medido em três ou mais momentos | Medidas repetidas | ANOVA de medidas repetidas | Friedman |
| Dois fatores agem ao mesmo tempo (ex.: sexo e condição experimental) | Fatorial | ANOVA fatorial (two-way) | — |
| Duas variáveis contínuas estão associadas (ex.: ansiedade e desempenho) | Correlacional | Correlação de Pearson | Correlação de Spearman |
| Duas variáveis categóricas estão associadas (ex.: sexo e diagnóstico) | Associação categórica | Qui-quadrado de independência | Teste exato de Fisher (amostras pequenas) |
| Uma variável contínua prevê outra contínua | Preditivo | Regressão linear (simples ou múltipla) | — |
| Variáveis preditoras prevêem um desfecho categórico (ex.: desistência sim/não) | Preditivo | Regressão logística | — |
Para a associação entre duas variáveis contínuas, o critério de escolha entre Pearson e Spearman — tipo de relação, distribuição e valores extremos — está detalhado em correlação de Pearson ou Spearman, e o roteiro completo de pressupostos e interpretação de uma regressão está em regressão linear no TCC. A lógica geral de decisão entre paramétrico e não paramétrico, válida para qualquer curso, está em qual teste estatístico usar no TCC; o que muda aqui é o delineamento típico da Psicologia e os cuidados que a área tem com escalas.

Antes do teste: os pressupostos que a Psicologia verifica
Um teste paramétrico só é válido quando seus pressupostos se sustentam, e a banca de Psicologia costuma perguntar por eles mesmo quando o texto não menciona:
- Normalidade — verificada pelo teste de Shapiro-Wilk em amostras pequenas ou médias, ou pela inspeção de um histograma e de um gráfico Q-Q em amostras maiores. Reportar apenas “os dados eram normais” sem o teste ou o critério usado é insuficiente.
- Homogeneidade de variâncias — o teste de Levene, exigido antes de um teste t ou de uma ANOVA entre grupos independentes; quando ele indica variâncias desiguais, a correção de Welch substitui o teste padrão.
- Esfericidade — específica da ANOVA de medidas repetidas com três ou mais momentos, verificada pelo teste de Mauchly; quando violada, a correção de Greenhouse-Geisser ajusta os graus de liberdade.
- Independência das observações — cada participante contribui uma vez para cada célula do delineamento, salvo nos desenhos de medidas repetidas, que tratam essa dependência de propósito.
Escala do tipo Likert merece uma nota à parte: um único item Likert é ordinal e, tratado isoladamente, pede um teste não paramétrico; o escore somado ou médio de vários itens de uma escala validada é tratado, por convenção da área, como intervalar, o que abre caminho para testes paramétricos — desde que a normalidade do escore total, não do item isolado, se sustente.
Tamanho de efeito: o número que a área cobra além do p
Um resultado significativo (p menor que 0,05) diz que a diferença provavelmente não é acaso; não diz se ela é grande. A Psicologia, mais do que a maioria dos cursos, exige a medida de tamanho de efeito ao lado do p-valor:
- d de Cohen, para a diferença entre dois grupos (teste t): 0,2 pequeno, 0,5 médio, 0,8 grande, como referência de leitura, nunca como corte rígido.
- Eta ao quadrado (η²) ou eta parcial ao quadrado, para ANOVA, indicando a proporção de variância explicada pelo fator.
- r, o próprio coeficiente de correlação, já interpretável como força de associação.
- R² ou pseudo-R², para regressão, indicando a proporção de variância do desfecho explicada pelo modelo.
Relatar somente “houve diferença significativa (p<0,05)” sem o tamanho de efeito é uma das correções mais frequentes em banca de Psicologia, porque um efeito estatisticamente significativo numa amostra grande pode ser clinicamente irrelevante.

Depois da ANOVA: por que o teste post-hoc é obrigatório
Uma ANOVA significativa com três ou mais grupos só diz que existe diferença em algum lugar entre eles — não diz entre quais grupos. Reportar apenas o resultado da ANOVA e concluir informalmente qual grupo “parece maior” é um dos erros mais corrigidos em banca. O teste post-hoc correto depende da mesma verificação de variâncias já feita antes da ANOVA:
- Tukey HSD — o mais usado quando as variâncias entre grupos são homogêneas e os grupos têm tamanhos semelhantes; compara todos os pares mantendo o erro tipo I controlado.
- Bonferroni — mais conservador, ajusta o nível de significância dividindo-o pelo número de comparações; recomendado quando há poucas comparações planejadas a priori.
- Games-Howell — a escolha correta quando o teste de Levene indicou variâncias desiguais entre os grupos, situação em que o Tukey deixa de ser apropriado.
- Dunn, com correção de Bonferroni — o equivalente post-hoc do Kruskal-Wallis, para quando a via não paramétrica foi necessária.
O capítulo de resultados precisa nomear qual post-hoc foi usado e por quê — a resposta está sempre no mesmo teste de Levene que já orientou a escolha do teste principal.
Quando os dados violam tudo: alternativas e o que dizer na limitação
Nem toda amostra de TCC de Psicologia — em geral pequena, coletada por conveniência — sustenta os pressupostos de um teste paramétrico, mesmo depois de tentativas de transformação dos dados. Três caminhos são aceitos pela área quando isso acontece:
- Migrar para a via não paramétrica correspondente, a solução mais comum e a mais simples de justificar na metodologia.
- Usar uma versão robusta do teste, como a ANOVA de Welch para variâncias desiguais, ou testes baseados em médias aparadas (trimmed means), quando disponíveis no software.
- Declarar a violação como limitação do estudo, quando nenhuma alternativa está disponível e o teste paramétrico ainda assim é reportado — uma prática aceitável apenas quando explicitada, nunca quando escondida.
O que a banca não aceita é o pressuposto verificado, violado e ignorado no texto sem qualquer menção.
Exemplo de parágrafo de resultados já redigido
“Os escores de ansiedade do grupo experimental (M = 18,4; DP = 5,2) foram comparados aos do grupo controle (M = 23,1; DP = 6,0) por meio de um teste t de Student para amostras independentes, após verificação da normalidade (Shapiro-Wilk, p > 0,05) e da homogeneidade de variâncias (Levene, p > 0,05). A diferença foi estatisticamente significativa, t(58) = 3,12, p = 0,003, com tamanho de efeito grande (d de Cohen = 0,81), indicando que os participantes submetidos à intervenção apresentaram redução relevante nos escores de ansiedade em comparação ao grupo controle.”
O relato segue o formato consagrado pela 7ª edição das normas APA, adotado por convenção na maioria dos programas de Psicologia no Brasil para a apresentação de estatísticas, mesmo quando o restante do documento segue a ABNT nas referências e na formatação geral.
Sete erros que a banca de Psicologia aponta
- Escolher o teste pelo nome, não pela estrutura do delineamento — ANOVA para dois grupos independentes, quando um teste t já resolveria.
- Não verificar nenhum pressuposto, ou mencionar “dados normais” sem o teste que sustenta a afirmação.
- Tratar item Likert isolado como intervalar sem justificar, quando o escore somado da escala é que permite essa convenção.
- Omitir o tamanho de efeito, relatando apenas significância.
- Confundir correlação com causalidade num delineamento correlacional.
- Rodar múltiplos testes t em vez de uma ANOVA, inflando o erro tipo I sem correção.
- Não declarar o software e a versão usados na análise, o que impede a reprodução do resultado.
- Reportar uma ANOVA significativa sem o post-hoc, deixando para o leitor adivinhar entre quais grupos a diferença apareceu.
O software usado na análise também precisa constar no capítulo de metodologia, com a versão. Pacotes estatísticos de uso livre, como o Jamovi e o JASP, tornaram-se comuns em TCCs de Psicologia por reproduzirem a saída no mesmo formato do relato em APA, mas o SPSS continua sendo o mais citado nos programas de pós-graduação da área — a escolha do programa não altera o teste correto, apenas a forma de obter e formatar a mesma saída.
Da tabela de saída ao capítulo de resultados
Escolhido o teste e verificados os pressupostos, o que separa a tabela de saída do software do capítulo de resultados pronto é a redação: transformar números em frases que respondem à pergunta de pesquisa, no formato que a área espera. É nessa etapa que o Tesify ajuda: a partir do delineamento, do teste escolhido e dos valores que você obteve, o editor organiza o capítulo de resultados na sequência e no estilo de relato da Psicologia, mantém a terminologia estatística consistente e gera as referências em ABNT. A escolha do teste, a análise e a interpretação continuam sendo suas. Escrever o capítulo de resultados do meu TCC de Psicologia no Tesify.
Perguntas frequentes
Como sei se devo usar um teste paramétrico ou não paramétrico?
Verificando a normalidade da distribuição (teste de Shapiro-Wilk) e o tamanho da amostra. Com normalidade sustentada e amostra suficiente, o teste paramétrico é preferido por ter mais poder estatístico. Quando a normalidade falha, a amostra é pequena, ou a variável é ordinal por natureza, a alternativa não paramétrica correspondente é o caminho correto.
Posso tratar uma escala Likert como variável contínua?
O escore somado ou médio de vários itens de uma escala validada costuma ser tratado como intervalar por convenção da área, o que permite testes paramétricos, desde que a normalidade do escore total se sustente. Um item Likert isolado, por outro lado, é ordinal e pede tratamento não paramétrico.
Por que preciso relatar o tamanho de efeito além do p-valor?
Porque o p-valor indica apenas se a diferença é estatisticamente improvável de ser acaso, não o quanto ela é grande ou relevante na prática. O tamanho de efeito (d de Cohen, eta ao quadrado, r ou R²) informa a magnitude do resultado e é exigido pela maioria dos programas de Psicologia ao lado da significância.
Qual teste uso para comparar o mesmo grupo antes e depois de uma intervenção?
O teste t pareado, se a diferença entre os pares de medidas for aproximadamente normal, ou o teste de Wilcoxon, quando esse pressuposto não se sustenta ou a amostra é pequena. Para três ou mais momentos de medida no mesmo grupo, a ANOVA de medidas repetidas ou o teste de Friedman substituem essas opções.
Como relato os resultados estatísticos no padrão que a Psicologia espera?
Seguindo o formato consagrado pela 7ª edição das normas APA para a estatística — teste usado, estatística do teste com graus de liberdade, valor de p e tamanho de efeito — mesmo quando o restante do TCC segue a ABNT nas referências e na formatação geral, prática comum nos programas de Psicologia no Brasil.
