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Posso Excluir Outliers dos Dados do TCC em 2026? Quando É Legítimo e Como Declarar

Sim, é possível excluir valores atípicos — e às vezes é obrigatório. A diferença entre limpeza de dados e manipulação não está no ato de remover, mas em três coisas: o critério, o momento em que ele foi definido e o registro da decisão. Excluir um respondente porque a idade digitada foi 250 anos é rigor. Excluir porque o resultado só fica significativo sem ele é outra coisa, e tem nome.

Não existe uma definição única de outlier

Antes de decidir o que fazer, vale saber que a área não concorda sobre o que é a coisa. Aguinis, Gottfredson e Joo publicaram em Organizational Research Methods (2013;16(2):270-301) uma revisão de 46 fontes metodológicas e de 232 artigos empíricos, e o resultado é desconcertante: encontraram 14 definições de outlier distintas e mutuamente exclusivas, 39 técnicas de identificação e 20 maneiras diferentes de lidar com eles.

Mais importante do que o inventário é a conclusão dos autores: as diferentes maneiras de definir, identificar e tratar valores atípicos alteram as conclusões substantivas da pesquisa. E o que eles encontraram na prática dos artigos foi confusão e falta de transparência.

A consequência para o seu TCC é libertadora. A banca não pode exigir que você use “a” definição correta, porque ela não existe. O que ela pode — e vai — exigir é que você declare qual adotou e por quê. Isso transforma uma pergunta angustiante em um parágrafo de metodologia.

Os três tipos: erro, interessante e influente

A contribuição prática mais útil daquele trabalho é a separação dos valores atípicos em três categorias, com tratamentos diferentes. Classifique antes de decidir qualquer coisa.

Três categorias distintas em que um valor atípico pode ser classificado antes de qualquer decisão
A pergunta certa não é “excluo ou não”. É “de que tipo é este caso” — e a resposta determina o procedimento.
Tipos de valor atípico e o que fazer com cada um
Tipo O que é Exemplo em TCC Conduta
Erro O valor não corresponde ao fenômeno: houve falha de registro, digitação, instrumento ou codificação Idade 250; renda digitada sem a vírgula; escala de 1 a 5 com valor 55 Corrigir se a fonte original permitir; excluir se não permitir. Declarar.
Interessante O valor é real e revela algo sobre o fenômeno A única unidade que adotou o programa inteiro; o único hospital com fila zero Não excluir. Discutir — muitas vezes é o achado mais valioso do trabalho.
Influente O valor é real, mas puxa o modelo de forma desproporcional Um respondente que sozinho muda o coeficiente da regressão Rodar com e sem, relatar as duas versões.

Repare no tipo do meio. A pressa de “limpar os dados” faz muito TCC apagar exatamente o caso que responderia à pergunta de pesquisa. Um valor extremo real não é sujeira: é informação sobre a variabilidade do fenômeno, e não raro é o parágrafo mais citável da discussão.

Como identificar: a regra de 1,5 e de 3

O critério mais usado e mais fácil de defender é o do diagrama de caixa. A caixa vai do percentil 25 ao percentil 75 — a amplitude interquartil —, e a mediana é a linha dentro dela. As hastes representam os valores mínimo e máximo que estão dentro de 1,5 vez a amplitude interquartil a partir de cada extremidade da caixa. E então:

  • Valores além de 1,5 vez a amplitude interquartil ficam fora do diagrama e são considerados outliers.
  • Valores além de 3 vezes a amplitude interquartil são considerados outliers extremos.
Diagrama de caixa com mediana, amplitude interquartil, hastes e pontos além das hastes
O diagrama de caixa já entrega a identificação pronta: cada ponto plotado além das hastes é um candidato, e a distância dele diz se é atípico ou extremo.

É por isso que o boxplot é o instrumento de triagem: ele identifica os candidatos automaticamente e, de quebra, mostra a assimetria da distribuição. Ele sai em dois cliques no painel de gráficos das descritivas — o caminho está em Jamovi passo a passo.

Outro critério corrente é o do escore z, marcando como atípicos os casos que se afastam da média além de um certo número de desvios padrão. Ele tem uma fragilidade que convém conhecer: a própria média e o próprio desvio padrão são puxados pelo valor extremo, o que reduz a sensibilidade do critério justamente onde ele deveria funcionar. Em amostras pequenas de TCC, o critério do boxplot costuma se comportar melhor.

Uma advertência que vale para os dois: verifique se você está diante de um outlier univariado (extremo em uma variável) ou multivariado (nada extremo isoladamente, mas com uma combinação improvável de valores). O segundo não aparece em boxplot nenhum, e é o que costuma distorcer regressões.

A linha que separa limpeza de manipulação

Três perguntas resolvem quase todos os casos. Se você responder “sim” às três, a exclusão é defensável:

  1. O critério foi definido antes de olhar o resultado do teste? Critério escolhido depois, para acomodar o resultado desejado, é seleção de dados — e a diferença entre isso e falsificação é de grau, não de natureza. O tema está tratado em fabricação e falsificação de dados na pesquisa.
  2. O critério vale para todos os casos igualmente? Um critério que, por acaso, remove apenas os casos que contrariam a hipótese não é um critério — é uma escolha disfarçada de regra.
  3. A exclusão está escrita no trabalho, com número e motivo? Exclusão não declarada é o problema, mesmo quando a exclusão em si era correta. A revisão de Aguinis e colegas aponta exatamente essa falta de transparência como o padrão dominante na literatura.

Há dois casos em que a exclusão é obrigatória e nem entra nessa discussão: o participante que não atendia aos critérios de inclusão definidos na metodologia e o registro inválido — questionário respondido em quarenta segundos, mesma alternativa marcada em todos os itens, duplicata do mesmo respondente. Esses casos saem por regra, não por julgamento, e a regra já deveria estar escrita antes da coleta, junto com os critérios discutidos em critérios de inclusão e exclusão na pesquisa.

Alternativas à exclusão

Excluir é a opção mais drástica e raramente a única. Quatro alternativas, em ordem crescente de intervenção:

  • Trocar a estatística. Mediana e amplitude interquartil são resistentes a valores extremos, ao contrário de média e desvio padrão. Se o objetivo é descrever, essa troca resolve sem tocar em nenhum dado.
  • Trocar o teste. Testes não paramétricos trabalham com postos e são pouco sensíveis a extremos. A escolha do equivalente correto está em qual teste estatístico usar no TCC, e a decisão de migrar se conecta à verificação descrita em teste de normalidade no TCC.
  • Transformar a variável. A transformação logarítmica comprime a cauda direita e frequentemente reduz o problema a um caso comum, sem descartar ninguém.
  • Winsorizar. Em vez de remover o caso, substitui-se o valor extremo pelo maior valor não extremo. Preserva o tamanho da amostra e reduz a influência — mas é uma intervenção nos dados e, como todas, precisa ser declarada.

A análise de sensibilidade resolve a dúvida

Quando não há um argumento decisivo para excluir nem para manter, existe uma saída que dispensa a decisão: rode a análise das duas formas, com e sem os casos atípicos, e relate as duas.

  • Se a conclusão não muda, o outlier deixou de ser um problema e você ganhou um parágrafo de robustez que a banca valoriza: “os resultados se mantiveram com e sem a exclusão dos três casos atípicos”.
  • Se a conclusão muda, essa é a informação mais importante do seu capítulo. Significa que o achado depende de dois ou três respondentes, o que precisa ser dito com todas as letras nas limitações. Esconder isso é o pior desfecho possível — e, se a banca refizer a conta, aparece.

É a mesma lógica da análise de sensibilidade aplicada ao tamanho da amostra: em vez de tomar uma decisão arbitrária, você mede o quanto a conclusão depende dela.

E os dados faltantes?

Valor atípico e valor faltante são problemas diferentes que costumam aparecer juntos, e a confusão entre eles gera um erro grave: preencher célula vazia com zero. Um zero é um valor observado; uma célula vazia é a ausência de observação. Substituir a segunda pelo primeiro rebaixa a média de forma invisível e sem deixar rastro.

Três condutas aceitáveis, todas declaráveis:

  • Excluir o caso completo (análise de casos completos), informando quantos casos saíram por esse motivo.
  • Excluir apenas nas análises em que a variável entra, o que preserva n maior em algumas tabelas — e por isso mesmo exige que o n apareça em cada tabela, e não apenas uma vez no início.
  • Imputar, com método declarado. É procedimento legítimo, mas é intervenção, e precisa ser justificado.

Em qualquer dos três, informe quanto faltou. Um percentual pequeno de ausências distribuídas ao acaso é irrelevante; 30% de não resposta concentrados em uma pergunta sensível é um achado sobre o seu instrumento.

O parágrafo que você precisa escrever

“A base foi verificada quanto a registros inválidos e valores atípicos antes da análise. Foram excluídos 4 questionários por não atenderem aos critérios de inclusão e 2 por padrão de resposta invariante em todos os itens, resultando em n = 198. Valores atípicos foram identificados pelo critério do diagrama de caixa (acima de 1,5 vez a amplitude interquartil). Os três casos identificados na variável tempo de experiência foram mantidos por representarem valores plausíveis; a análise foi repetida sem eles como verificação de sensibilidade, sem alteração das conclusões.”

Cinco elementos tornam esse parágrafo suficiente: o n original, o número de exclusões, o motivo de cada bloco de exclusões, o n final e o critério de identificação. Some a isso a análise de sensibilidade e praticamente não sobra pergunta a fazer.

Erros que a banca identifica

  • Excluir depois de ver o p-valor. É o erro que define o problema, e a sequência costuma ficar visível no próprio relato.
  • Não informar o n final, deixando a metodologia falar em 204 respondentes e a tabela mostrar 191.
  • Apagar valores extremos reais porque “estragam o gráfico”.
  • Preencher faltantes com zero.
  • Aplicar o critério só em uma variável, justamente aquela em que o resultado incomoda.
  • Não guardar a base original. Toda exclusão deve ser feita em uma cópia; o arquivo intocado é a única forma de refazer o caminho se a banca pedir.

Depois de decidir e declarar, sobra escrever a discussão em torno desses números — o padrão está em análise e discussão dos resultados no TCC. E, se o gargalo for transformar as decisões metodológicas em texto coerente com o que você prometeu no capítulo anterior, o Tesify ajuda a estruturar o TCC a partir do seu próprio material, com referências ABNT automáticas e autoverificação de originalidade.

Perguntas frequentes

Posso excluir outliers do meu TCC?

Pode, quando o valor é comprovadamente um erro de registro, de digitação ou de instrumento, ou quando o participante não atendia aos critérios de inclusão. O que não é legítimo é excluir apenas porque o valor atrapalha o resultado. Em qualquer caso, a exclusão precisa ser declarada com o critério, a quantidade e o n antes e depois.

Qual é a regra de 1,5 vezes a amplitude interquartil?

No diagrama de caixa, as hastes representam os valores mínimo e máximo que estão dentro de 1,5 vez a amplitude interquartil a partir de cada extremidade da caixa. Valores além disso ficam fora do diagrama e são considerados outliers; valores além de 3 vezes a amplitude interquartil são considerados outliers extremos.

Excluir outliers é manipulação de dados?

Depende do critério e da transparência. Excluir com critério declarado antes de ver o resultado é procedimento metodológico. Excluir depois de constatar que o resultado não deu significativo, sem registrar a exclusão, é seleção de dados que altera a conclusão.

O que é análise de sensibilidade com outliers?

É rodar a análise duas vezes, com e sem os casos atípicos, e relatar as duas versões. Se a conclusão não muda, o outlier deixa de ser um problema. Se muda, essa é a informação mais importante do capítulo de resultados e precisa ser discutida.

Preciso relatar quantos casos excluí?

Sim. Informe o n original, quantos casos foram removidos, por qual critério e o n final. Sem esses números o leitor não consegue avaliar o resultado, e a diferença entre a amostra planejada e a analisada é uma das primeiras coisas que a banca confere.

Existe uma definição única de outlier?

Não. Uma revisão de 46 fontes metodológicas identificou 14 definições distintas e mutuamente exclusivas, 39 técnicas de identificação e 20 maneiras diferentes de lidar com eles. Por isso o que se cobra não é a definição certa, e sim que você declare qual adotou.

Posso substituir o outlier pela média?

É uma prática desaconselhada, porque reduz artificialmente a variabilidade e trata como observado um valor que não foi. Se a intenção é limitar a influência sem descartar o caso, a winsorização — substituir pelo maior valor não extremo — é mais defensável, e também precisa ser declarada.

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