O TCC de Enfermagem que mede alguma coisa — risco, dependência, carga de trabalho, qualidade de vida, sintomas — precisa de um instrumento validado para o português do Brasil, e a banca confere três coisas antes de qualquer resultado: se a escala existe em versão brasileira, se foi aplicada como a validação prevê e se a confiabilidade foi calculada na sua amostra. Este tutorial percorre a escolha e o uso em seis passos, com as escalas que os TCCs da área mais usam, organizadas por tema, e o que declarar de cada uma no capítulo de metodologia.
Passo 1: decidir o que vai ser medido antes de escolher a escala
A pergunta define o construto; o construto define a escala. “Risco de lesão por pressão” é um construto com escala própria; “qualidade da assistência” não é — é um guarda-chuva que precisa ser decomposto em algo mensurável. O teste é simples: se você não consegue dizer em uma frase o que a escala vai produzir (um escore de risco, uma classificação em categorias, um índice de dependência), o construto ainda não está definido. A cadeia pergunta, objetivo e variável, com exemplos da área, está em objetivos e justificativa do TCC de Enfermagem.
Definido o construto, a busca é por “[nome do construto] escala validação Brasil” na BDENF, na LILACS e no SciELO. Quase sempre existe uma versão brasileira; quando não existe, o TCC muda de natureza e vira um estudo de adaptação — o que é um trabalho inteiro, tratado no passo 6.
Passo 2: conhecer as escalas que a enfermagem brasileira usa
A tabela reúne os instrumentos mais frequentes nos TCCs e dissertações de enfermagem no país, agrupados por área, com o que cada um mede e a forma de aplicação. Todos têm versão em português do Brasil publicada em periódico; a referência da validação é a que entra na sua lista de referências, não a do instrumento original apenas.
| Área | Instrumento | O que mede | Aplicação |
|---|---|---|---|
| Segurança do paciente | Escala de Braden | Risco de lesão por pressão em seis subescalas; escore de 6 a 23 | Avaliação do profissional, à beira do leito |
| Segurança do paciente | Escala de Quedas de Morse | Risco de quedas em seis itens; classifica em baixo, moderado e alto | Avaliação do profissional na admissão e reavaliações |
| Gestão e dimensionamento | Nursing Activities Score (NAS) | Carga de trabalho de enfermagem em terapia intensiva, em percentual do tempo de um profissional | Preenchido por turno a partir das atividades realizadas |
| Gestão e dimensionamento | Sistema de Classificação de Pacientes de Fugulin | Grau de dependência de cuidados em unidades de internação | Avaliação diária pelo enfermeiro |
| Saúde do trabalhador | Maslach Burnout Inventory (MBI) | Exaustão emocional, despersonalização e realização profissional | Autopreenchido pelo profissional |
| Saúde do trabalhador | Escala de Estresse Percebido (PSS) | Percepção de estresse no último mês | Autopreenchida |
| Qualidade de vida | WHOQOL-bref | Qualidade de vida em quatro domínios, 26 itens | Autopreenchida ou por entrevista |
| Saúde do idoso | Índice de Katz | Independência em seis atividades básicas de vida diária | Entrevista ou observação |
| Saúde do idoso | Escala de Lawton | Independência em atividades instrumentais de vida diária | Entrevista |
| Saúde do idoso | Mini Exame do Estado Mental (MEEM) | Rastreio de comprometimento cognitivo, com pontos de corte por escolaridade | Aplicado pelo profissional |
| Saúde da mulher | Escala de Depressão Pós-parto de Edimburgo (EPDS) | Rastreio de sintomas depressivos no puerpério, 10 itens | Autopreenchida |
| Saúde da mulher | Escala de Autoeficácia na Amamentação (forma reduzida) | Confiança da mulher para amamentar | Autopreenchida |
| Doenças crônicas | Escala de Autocuidado de pessoas com insuficiência cardíaca | Manutenção, manejo e confiança no autocuidado | Autopreenchida ou entrevista |
| Dor | Escala Visual Analógica e Escala Numérica | Intensidade da dor autorrelatada | Autorrelato |
| Neurológico | Escala de Coma de Glasgow | Nível de consciência em abertura ocular, resposta verbal e motora | Avaliação do profissional |

Passo 3: obter a versão brasileira e a autorização, quando exigida
Localize o artigo de validação brasileira e leia-o inteiro, não só o resumo: é nele que estão o formato exato dos itens, as instruções de aplicação, os pontos de corte e os coeficientes de confiabilidade que você vai comparar com os seus. Muitos instrumentos são de uso livre para pesquisa acadêmica com citação; alguns — o MBI é o caso mais conhecido — são comercializados e exigem licença para cada aplicação; outros pedem que o autor da adaptação seja informado. As regras para cada situação, e o e-mail que se envia ao autor, estão em usar a escala de outro autor no TCC.
Regra que evita reprovação: não altere itens, ordem ou opções de resposta. A validação vale para o instrumento como foi publicado. Se um item não faz sentido no seu contexto, a saída é declarar a limitação, não reescrever o item — reescrever cria um instrumento novo, sem validação.
Passo 4: aplicar como a validação prevê
- Quem aplica. Escalas de avaliação clínica (Braden, Morse, Glasgow, Fugulin) são preenchidas pelo profissional; escalas de autorrelato (WHOQOL, EPDS, PSS) pela própria pessoa. Trocar o aplicador muda a medida.
- Quando. Braden na admissão e a cada 48 horas em UTI; Morse na admissão e a cada mudança de condição; EPDS entre a segunda e a oitava semana pós-parto. O intervalo faz parte do método.
- Treinamento. Se mais de uma pessoa aplica uma escala de avaliação, registre o treinamento e, se possível, meça a concordância entre avaliadores numa subamostra.
- Instrumento completo. Aplicar “os itens mais relevantes” de uma escala é o mesmo que inventar uma. Aplique todos e some como a validação manda.
- Dados sociodemográficos à parte. Idade, sexo, escolaridade e variáveis clínicas vão num formulário próprio, elaborado por você e declarado como tal — esse, sim, pode ser criado, porque não mede construto.
Quando a coleta envolve pacientes ou profissionais, o projeto passa pelo comitê de ética antes da primeira aplicação, e o instrumento inteiro vai como apêndice ou anexo do projeto — anexo se é de terceiros, apêndice se é seu.

Passo 5: calcular a confiabilidade na sua amostra e declarar tudo
Para escalas com itens somados em domínios (WHOQOL, MBI, PSS, EPDS, escalas de autocuidado), a banca espera o coeficiente de consistência interna calculado nos seus dados, por domínio, e a comparação com o valor da validação brasileira. Qual coeficiente escolher e como ler valores baixos está em alfa de Cronbach ou ômega de McDonald. Para escalas de avaliação clínica com poucos itens e escore de risco (Braden, Morse), a consistência interna não é a medida usual; reporte a concordância entre avaliadores quando houver mais de um, ou declare que houve um único avaliador treinado.
O parágrafo do capítulo de metodologia que descreve o instrumento precisa conter, nesta ordem: nome e autores originais; versão brasileira e autores da adaptação; número de itens, domínios e formato de resposta; forma de cálculo do escore e pontos de corte; quem aplicou e quando; coeficiente de confiabilidade na validação e na sua amostra. Um exemplo:
“A qualidade de vida foi avaliada pelo WHOQOL-bref, instrumento da Organização Mundial da Saúde com 26 itens em quatro domínios — físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente —, na versão validada para o português do Brasil por Fleck e colaboradores. Os escores por domínio foram calculados conforme a sintaxe oficial e transformados para a escala de 0 a 100. O instrumento foi autopreenchido após orientação da pesquisadora. A consistência interna na amostra deste estudo foi de [valor] no domínio físico, [valor] no psicológico, [valor] nas relações sociais e [valor] no meio ambiente.”
A forma de entrar cada instrumento na lista de referências — artigo de validação, e não site — está em como referenciar uma escala validada na ABNT.
Passo 6: quando não existe versão brasileira
Se o construto tem escala consolidada em inglês ou espanhol mas nenhuma adaptação brasileira publicada, há duas saídas honestas. A primeira é trocar de instrumento: quase sempre existe um construto vizinho com escala validada no país. A segunda é fazer do TCC um estudo metodológico de adaptação transcultural — tradução, retrotradução, comitê de especialistas, pré-teste e, se a amostra permitir, análise das propriedades psicométricas. É um desenho reconhecido e valorizado na enfermagem, mas tem etapas próprias e cronograma longo; a etapa de comitê de juízes e o cálculo do índice de validade de conteúdo estão em validação de conteúdo: comitê de juízes e IVC.
O que não é saída: traduzir a escala por conta própria, aplicar e apresentar como se fosse validada. É o erro mais grave da categoria, porque compromete todos os resultados e costuma ser identificado na arguição.
Cinco erros que aparecem nos TCCs com escalas
- Citar o instrumento original e não a validação brasileira. A versão que você aplicou é a brasileira; a referência principal é a dela.
- Escore calculado do jeito errado. Somar itens que a validação manda inverter, ou usar média onde a sintaxe prevê transformação. Leia a seção de análise do artigo de validação.
- Confiabilidade copiada. Reportar o alfa da validação como se fosse o da sua amostra.
- Ponto de corte inventado. Classificar em “alto” e “baixo” por um valor escolhido pelo autor, quando a validação define os cortes.
- Instrumento reduzido sem dizer. Aplicar dez dos vinte e seis itens do WHOQOL-bref e chamar de WHOQOL-bref.
O lugar de cada um desses elementos nos capítulos — instrumento na metodologia, escores nos resultados, anexo no fim — está em estrutura do TCC de Enfermagem capítulo por capítulo.
Checklist do instrumento antes da coleta
- Construto definido em uma frase e escala escolhida para ele.
- Artigo de validação brasileira localizado, lido e referenciado.
- Autorização obtida ou dispensa documentada; licença paga quando o instrumento é comercial.
- Instrumento aplicado completo, sem alteração de itens, pelo aplicador e no momento previstos.
- Cálculo do escore e pontos de corte conforme a validação.
- Confiabilidade calculada na amostra e comparada com a da validação.
- Instrumento no anexo do projeto submetido ao comitê de ética.
Escreva a seção do instrumento com a validação em mãos
Com a escala escolhida e o artigo de validação lido, a seção de instrumentos do capítulo de metodologia segue uma estrutura fixa — e é uma das partes do TCC de Enfermagem em que a IA ajuda sem risco, porque o conteúdo vem da validação e dos seus dados. O Tesify Editor IA ajuda a redigir a descrição do instrumento na ordem que a banca espera e gera as referências do instrumento original e da adaptação brasileira em ABNT ou Vancouver, enquanto a aplicação e a leitura dos escores continuam sendo suas.
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Perguntas frequentes
Posso usar uma escala validada em Portugal no TCC de Enfermagem?
Não como equivalente à versão brasileira. A adaptação transcultural considera a língua e o contexto cultural; a versão portuguesa de Portugal tem itens e expressões que não correspondem ao uso brasileiro. Procure a validação para o português do Brasil e, se não existir, trate o caso como ausência de versão brasileira.
Preciso pagar para usar o MBI no TCC?
O Maslach Burnout Inventory é um instrumento comercializado, e a aplicação normalmente exige licença adquirida junto ao detentor dos direitos, mesmo em pesquisa acadêmica. Verifique as condições vigentes antes de incluí-lo no projeto ou considere um instrumento de uso livre para o mesmo construto.
Posso aplicar duas escalas no mesmo questionário?
Pode, e é comum — por exemplo, PSS e WHOQOL-bref no mesmo formulário. Mantenha cada instrumento íntegro, com suas próprias instruções, e considere o tempo total de resposta; questionários longos aumentam dados faltantes e abandono.
O que fazer se o alfa de Cronbach na minha amostra ficar baixo?
Reporte o valor, compare com o da validação e discuta as possíveis razões — tamanho da amostra, homogeneidade do grupo, contexto de aplicação — na seção de limitações. Não exclua itens para elevar o coeficiente sem declarar e justificar, e não omita o resultado.
A Escala de Braden precisa de validação para ser usada?
A escala já tem versão adaptada e validada para o português do Brasil, e é essa versão, com sua referência, que se aplica e se cita. O que o TCC precisa garantir é a aplicação correta — pelo profissional, com os seis itens, nos momentos previstos — e o uso dos pontos de corte definidos.
Escala validada dispensa o comitê de ética?
Não. A validação diz respeito ao instrumento; a ética diz respeito à pesquisa com as pessoas que vão respondê-lo. Todo projeto que aplica escalas em pacientes, acompanhantes ou profissionais passa pelo sistema CEP/Conep antes da coleta, com o instrumento anexado.
