TCC de Direito em Formato de Artigo Científico em 2026: Por Que Não é IMRaD

O TCC de Direito em formato de artigo científico não segue a estrutura IMRaD (Introdução, Métodos, Resultados e Discussão) que domina as ciências empíricas — a monografia jurídica argumenta por seções temáticas, sem capítulo de “resultados” porque não há dado coletado a apresentar. Entender essa diferença logo no início evita reescrever o artigo inteiro depois de tentar encaixá-lo num molde que não serve ao Direito.

Por que o artigo jurídico não usa IMRaD

O guia geral de TCC em formato de artigo científico descreve corretamente a estrutura IMRaD para áreas que coletam dados originais — mas a pesquisa jurídica majoritária no Brasil é dogmática (doutrinária) ou de revisão bibliográfica, não experimental. Sem um “método” no sentido de coleta de dados e sem “resultados” no sentido de achados numéricos, forçar essas seções na monografia jurídica produz um capítulo de método artificial, que a banca de Direito reconhece imediatamente como enchimento. A confusão costuma vir de modelos genéricos de “artigo científico” encontrados online, que assumem por padrão um desenho experimental — sem verificar se isso corresponde ao tipo de pesquisa que o Direito de fato produz.

A estrutura que o artigo jurídico usa de fato

Em vez de IMRaD, o artigo científico de Direito organiza o argumento em seções temáticas, cada uma desenvolvendo um aspecto da tese central defendida:

Seção Função no argumento jurídico
Introdução Contextualização do problema jurídico, delimitação por norma/tribunal/período e a tese que o artigo vai defender
Desenvolvimento (2 a 4 seções temáticas) Cada seção avança um argumento: o marco normativo, a posição doutrinária dominante e as divergentes, a análise jurisprudencial, o problema identificado
Considerações finais Retomada da tese à luz dos argumentos desenvolvidos, sem “conclusão” no sentido de resultado experimental

Note que não há capítulo de “método”: a metodologia jurídica (pesquisa dogmática, exploratória, o tipo de análise documental/jurisprudencial usada) é declarada em um ou dois parágrafos dentro da introdução, não em um capítulo próprio como nas ciências empíricas.

Comparação entre a estrutura IMRaD de um artigo empírico e as seções temáticas de um artigo jurídico
O artigo jurídico organiza por argumento temático, não pelas quatro seções fixas do IMRaD.

Quando a faculdade aceita o formato de artigo em vez de monografia

A aceitação varia por curso e depende de três fatores que valem a pena confirmar antes de escolher o formato:

  • O regulamento de TCC do curso. Alguns cursos de Direito só aceitam monografia tradicional; outros aceitam artigo científico como alternativa, geralmente com extensão menor (15 a 25 páginas contra 40 a 60 da monografia).
  • O padrão exigido para publicação. Cursos que aceitam artigo costumam exigir que ele siga a NBR 6022 (apresentação de artigo em publicação periódica), diferente da NBR 14724 usada para a monografia — isso muda elementos pré-textuais, não o corpo do argumento.
  • A expectativa de submissão a periódico. Em alguns cursos, o artigo formato TCC é literalmente preparado para submissão a uma revista jurídica da própria faculdade ou externa — confirme se essa submissão é exigida ou apenas recomendada.

O que muda na citação e nas referências

A NBR 6023 rege as referências em ambos os formatos, mas o artigo científico tende a ter uma lista de referências mais enxuta e focada — a monografia jurídica tradicional acumula doutrina de forma mais extensa ao longo de vários capítulos, enquanto o artigo precisa justificar cada citação dentro de um espaço mais curto. Isso favorece:

  • Doutrina mais recente e diretamente relevante à tese defendida, em vez de uma revisão histórica completa do tema — o referencial teórico do TCC de Direito detalha os autores e teorias que cada ramo do Direito costuma citar, útil tanto para o artigo quanto para a monografia.
  • Jurisprudência selecionada por relevância ao argumento central, não um levantamento exaustivo de todos os julgados sobre o tema.
  • Menos subdivisões de seção — cada seção temática do artigo tende a ser mais longa e menos fragmentada do que os capítulos de uma monografia.
Página de referências bibliográficas de um artigo científico jurídico ao lado da norma NBR 6022
O artigo científico jurídico segue a NBR 6022, com uma lista de referências mais enxuta que a monografia tradicional.

Um exemplo de seção temática bem construída

Veja como uma seção de desenvolvimento em um artigo jurídico costuma amarrar norma, doutrina e conclusão parcial — o conteúdo é ilustrativo, para adaptar ao seu tema:

“O marco normativo vigente estabelece [dispositivo legal], interpretado majoritariamente pela doutrina como [posição dominante, com autor e ano]. Parte da doutrina, contudo, sustenta [posição divergente, com autor e ano], argumentando que [razão da divergência]. A análise dos julgados do período [X a Y] revela que os tribunais têm adotado, majoritariamente, [tendência jurisprudencial identificada], o que sugere [conclusão parcial que alimenta a tese central do artigo].”

Note que a seção não descreve um “resultado” no sentido empírico — ela constrói um argumento em três camadas (norma, doutrina, jurisprudência) que se encaixa na tese defendida pelo artigo como um todo.

Declarando o tipo de pesquisa jurídica na introdução

Como não há um capítulo de método separado, a introdução do artigo jurídico precisa nomear, em um ou dois parágrafos, qual dos tipos de pesquisa jurídica sustenta o argumento — isso orienta a leitura de tudo que vem depois. Os tipos mais comuns na graduação em Direito:

Tipo de pesquisa O que caracteriza
Dogmática (doutrinária) Análise da norma e da doutrina que a interpreta, sem coleta de dados empíricos — o tipo mais comum em artigos de conclusão de curso
Exploratória com revisão bibliográfica Mapeamento do estado da doutrina sobre um tema pouco consolidado, geralmente para identificar lacunas ou controvérsias
Análise jurisprudencial Estudo sistemático de decisões de um ou mais tribunais sobre um tema, buscando padrões ou divergências de interpretação
Direito comparado Comparação entre o tratamento de um instituto jurídico em dois ou mais ordenamentos, geralmente para propor uma leitura do direito nacional

Uma frase-modelo que resolve essa declaração: “O presente artigo desenvolve pesquisa dogmática, de natureza qualitativa, tendo como fontes a legislação vigente, a doutrina especializada e a jurisprudência dos tribunais superiores sobre o tema, no período de [X] a [Y].” Note que essa única frase substitui o que, numa área empírica, ocuparia um capítulo inteiro de metodologia. Se o seu TCC ainda está na fase de escolher o tema e a delimitação — norma, tribunal, período —, os 50 temas de TCC de Direito organizados por ramo ajudam a fechar esse recorte antes de decidir o tipo de pesquisa a declarar aqui.

Um resumo modelo para o artigo jurídico

Diferente do resumo estruturado de áreas empíricas, o resumo de um artigo jurídico segue o parágrafo único da NBR 6028, mas ainda assim tem uma lógica interna que vale seguir — problema, tese e conclusão, nessa ordem. Um exemplo adaptável:

“O presente artigo analisa [problema jurídico específico], a partir da controvérsia doutrinária entre [posição A] e [posição B]. Por meio de pesquisa dogmática e análise da jurisprudência dos tribunais superiores, defende-se que [tese central do artigo]. Conclui-se que [síntese da posição defendida], contribuindo para [relevância prática ou teórica do argumento].”

Note que o resumo não promete um “resultado” mensurável — ele antecipa a tese e a conclusão argumentativa, que é exatamente o que um leitor de Direito espera encontrar num resumo de artigo jurídico.

Erros que comprometem o formato de artigo em Direito

Erro Por que compromete
Forçar um capítulo de “metodologia” nos moldes empíricos Cria uma seção artificial, sem conteúdo real, que a banca identifica como preenchimento
Título de seção “Resultados” sem dado empírico Confunde o leitor e sugere um formato de pesquisa que o artigo não é
Manter a extensão de monografia dentro do formato de artigo Descumpre o limite de páginas típico do artigo (15-25) e mistura convenções dos dois formatos
Não declarar o tipo de pesquisa jurídica na introdução A banca espera saber, nas primeiras páginas, se a pesquisa é dogmática, exploratória ou de análise jurisprudencial

Como a banca avalia o artigo, diferente da monografia

Os critérios de avaliação de um TCC em formato de artigo tendem a pesar de forma diferente dos critérios de uma monografia tradicional, mesmo quando a nota final usa a mesma ficha de avaliação do curso — vale conversar com o orientador sobre o que muda na prática:

  • Densidade argumentativa acima de extensão. Como o espaço é menor, a banca costuma valorizar mais a qualidade e a economia do argumento do que a exaustividade — dizer mais com menos é parte do que está sendo avaliado.
  • Adequação ao formato de publicação. Bancas familiarizadas com o formato de artigo tendem a verificar se o texto realmente segue as convenções de uma revista jurídica (extensão, resumo, palavras-chave, referências) e não apenas uma monografia encurtada.
  • Originalidade da tese central. Como o artigo defende uma tese específica (não apenas descreve um tema), a banca costuma perguntar diretamente: qual é a contribuição original deste texto em relação ao que a doutrina já diz?

Essa última pergunta — a contribuição original — é a que mais pega estudantes desprevenidos na arguição: um artigo que apenas resume o estado da doutrina, sem posicionar uma tese própria, tende a receber essa pergunta e não ter uma resposta pronta. Vale ensaiar essa resposta antes da defesa, em uma ou duas frases, do mesmo jeito que se prepara a resposta para qualquer outra pergunta previsível da banca.

Perguntas frequentes

Posso incluir uma seção de “resultados” mesmo sem dados coletados?

Não é recomendado — chame a seção pelo que ela realmente é: análise normativa, análise jurisprudencial ou análise doutrinária. Usar o rótulo “resultados” sem um desenho empírico por trás confunde o leitor sobre o tipo de pesquisa realizada.

O artigo científico em Direito precisa de resumo estruturado?

Normalmente não — o resumo de um artigo jurídico costuma seguir o formato de parágrafo único da NBR 6028, apresentando o problema, a tese defendida e a conclusão, sem as seções fixas (objetivo/métodos/resultados/conclusão) típicas de áreas empíricas.

Quantas seções temáticas um artigo de Direito costuma ter?

Entre duas e quatro seções de desenvolvimento é o mais comum, além de introdução e considerações finais — mais do que isso tende a fragmentar demais o argumento; menos do que duas geralmente não dá espaço suficiente para desenvolver a tese com profundidade.

Posso transformar uma monografia jurídica já escrita em artigo?

Pode, mas raramente é uma simples redução de tamanho — geralmente exige reorganizar os capítulos em seções temáticas mais enxutas, cortar revisão histórica extensa e reformular a introdução para apresentar a tese de forma mais direta, já que o espaço do artigo é significativamente menor.

O artigo de Direito precisa de palavras-chave em vocabulário controlado, como o DeCS na área da saúde?

Não existe um vocabulário controlado padronizado equivalente ao DeCS para a área jurídica no Brasil — as palavras-chave costumam ser termos jurídicos de uso corrente na doutrina e na jurisprudência sobre o tema, escolhidos por relevância para a busca, não extraídos de uma base terminológica oficial.

Escolher o formato certo — e escrever cada seção para o que ela realmente é, não para o que um molde genérico de artigo científico sugere — é o que faz a diferença entre um TCC de Direito aprovado sem ressalvas e um devolvido para reescrever a estrutura. Se a formatação ABNT das referências ou a redação de alguma seção temática ainda está travada, o Tesify organiza o TCC de Direito do argumento à formatação final.

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