População e Amostra no TCC de Medicina: Cálculo Amostral em Estudos Clínicos

Definir população e amostra no TCC de Medicina não é escolher “quantos pacientes preciso” de forma arbitrária — é uma decisão que decorre diretamente do desenho do estudo (prevalência, comparação entre grupos, associação de variáveis) e que precisa ser justificada com uma fórmula e parâmetros explícitos, não com um número redondo escolhido por conveniência. Este guia cobre como definir a população-alvo, os critérios clínicos de inclusão e exclusão, como calcular — e conferir — o tamanho da amostra, e como lidar com perdas amostrais.

População-alvo, população acessível e amostra

Três conceitos que a banca de Medicina cobra com precisão, e que muitos TCCs confundem:

  • População-alvo — o grupo sobre o qual você quer generalizar a conclusão (por exemplo, “pacientes hipertensos atendidos na atenção primária no Brasil”).
  • População acessível — o subconjunto da população-alvo que você efetivamente pode estudar (por exemplo, “pacientes hipertensos atendidos em uma UBS específica, entre janeiro e junho de determinado ano”).
  • Amostra — o subconjunto da população acessível que efetivamente entra no estudo, selecionado por um método de amostragem declarado.

Declarar os três níveis, e não apenas “a amostra”, é o que permite à banca avaliar até onde a conclusão do seu TCC pode ser generalizada — uma amostra de uma única UBS não generaliza para “pacientes hipertensos no Brasil”, mesmo que o cálculo do tamanho da amostra esteja matematicamente correto.

Critérios de inclusão e exclusão clínicos

Critérios de inclusão definem quem pertence à população acessível; critérios de exclusão removem, dessa população, quem não deve entrar no estudo por razões clínicas ou metodológicas específicas. A distinção importa: inclusão é positiva (“adultos com diagnóstico confirmado de X”), exclusão é a remoção de um subconjunto que atenderia à inclusão mas traz um problema específico (por exemplo, “gestantes”, quando a gestação altera o desfecho medido, ou “uso de medicação que interfere no parâmetro avaliado”).

Cada critério precisa de uma justificativa clínica ou metodológica — “excluímos pacientes com insuficiência renal crônica porque o parâmetro X é alterado independentemente da condição estudada, o que confundiria a análise” é o nível de justificativa esperado; “excluímos por não se enquadrarem no perfil” não é. Evite também o erro oposto: multiplicar critérios de exclusão até restar uma população tão específica que o cálculo amostral perde sentido prático diante do tempo disponível para a coleta — cada critério adicional deve responder a uma ameaça real à validade do estudo, não a uma preferência de conveniência do pesquisador.

Qual fórmula usar conforme o desenho do estudo

A fórmula de cálculo amostral depende do que o estudo mede:

  • Estudo de prevalência (estimar a proporção de uma condição na população) — fórmula de estimação de proporção, com base em nível de confiança, margem de erro e a prevalência esperada (ou 50%, quando não há estimativa prévia, por ser o cenário mais conservador).
  • Estudo de comparação entre dois grupos (por exemplo, tratamento versus controle) — fórmula de comparação de médias ou proporções, que depende também do tamanho de efeito esperado e do poder estatístico desejado — o G*Power é a ferramenta mais usada para esse cálculo.
  • Estudo de associação/correlação — depende do tipo de análise planejada (regressão, correlação), com regras práticas de número mínimo de casos por variável independente, quando aplicável.

Este guia detalha o cálculo de prevalência, por ser o mais comum em TCCs de Medicina de graduação; para desenhos de comparação entre grupos com poder estatístico, veja o guia dedicado ao cálculo de amostra no G*Power.

Tela de computador exibindo o software G*Power com os campos de nível de confiança, tamanho de efeito e poder estatístico preenchidos para o cálculo do tamanho da amostra
Para desenhos de comparação entre grupos, o cálculo por poder estatístico no G*Power substitui a fórmula de prevalência.

Cálculo amostral passo a passo, com exemplo refeito

A fórmula de estimação de proporção (prevalência) é:

n = Z² × p × (1−p) / e²

Onde Z é o valor da distribuição normal para o nível de confiança escolhido (1,96 para 95%), p é a prevalência esperada da condição (use 0,5 quando não houver estimativa prévia — é o valor que gera o maior tamanho de amostra, portanto o mais conservador), e e é a margem de erro tolerada (expressa como proporção, por exemplo 0,05 para 5 pontos percentuais).

Exemplo ilustrativo (parâmetros fictícios, criados apenas para demonstrar o cálculo — substitua pelos parâmetros reais do seu estudo): confiança de 95% (Z = 1,96), prevalência esperada de 50% (p = 0,5, por não haver estimativa prévia confiável para a condição hipotética estudada) e margem de erro de 5% (e = 0,05).

n = 1,96² × 0,5 × (1−0,5) / 0,05²
n = 3,8416 × 0,25 / 0,0025
n = 0,9604 / 0,0025
n = 384,16 → arredondar para cima: n = 385

Note a regra de arredondamento: tamanho de amostra sempre arredonda para cima, nunca para baixo — 384,16 pacientes não é um número que existe na prática, e arredondar para baixo deixaria a amostra ligeiramente subdimensionada em relação à margem de erro pretendida.

Correção para população finita

Quando a população acessível é pequena e conhecida (por exemplo, o total de pacientes atendidos em uma clínica específica em um período), aplica-se a correção para população finita, que reduz o tamanho de amostra necessário:

n_ajustado = n / (1 + (n−1)/N)

Continuando o exemplo ilustrativo, com uma população acessível hipotética de N = 500 pacientes:

n_ajustado = 385 / (1 + (385−1)/500)
n_ajustado = 385 / (1 + 384/500)
n_ajustado = 385 / (1 + 0,768)
n_ajustado = 385 / 1,768
n_ajustado = 217,76 → arredondar para cima: n_ajustado = 218

Ou seja, dos 385 pacientes que seriam necessários em uma população infinita, a correção para uma população finita de 500 reduz a exigência para 218 — a diferença é grande o suficiente para valer a pena aplicar a correção sempre que N for conhecido e relativamente pequeno.

Tipo de amostragem: probabilística ou por conveniência

Depois de calcular o tamanho, declare como os participantes serão selecionados dentro da população acessível. Em estudos clínicos de TCC, a amostragem por conveniência (todos os pacientes elegíveis atendidos em um período, até completar o N calculado) é comum e aceitável, desde que declarada como tal — o problema não é usar amostragem por conveniência, é apresentá-la como se fosse probabilística. Quando a lista completa da população acessível está disponível (por exemplo, todos os prontuários de um período), a amostragem aleatória simples ou sistemática é preferível por reduzir viés de seleção.

Perdas amostrais e taxa de reposição

Em estudos com coleta prospectiva (o paciente é acompanhado ao longo do tempo, ou precisa retornar para um segundo momento de coleta), é comum perder participantes por desistência, perda de seguimento ou dados incompletos. A prática recomendada é somar uma margem de segurança ao N calculado, prevendo essa perda esperada — por exemplo, se a taxa de perda esperada for de 10%, o N final recrutado deve ser N/(1−0,10), não apenas N. Continuando o exemplo ilustrativo, se o N ajustado de 218 fosse para um estudo prospectivo com 10% de perda esperada: 218/0,90 ≈ 242,2 → recrutar 243 participantes para, mesmo com a perda estimada, terminar o estudo próximo do N calculado como necessário.

Declare essa margem — e sua justificativa — no capítulo de metodologia, junto com o que será feito se a perda real exceder a estimativa (recrutamento adicional, ou reconhecimento da limitação na discussão).

Como redigir no capítulo de metodologia

Um parágrafo de amostra completo, no nível de detalhe que a banca de Medicina espera, nomeia: a população-alvo e a população acessível, os critérios de inclusão e exclusão com justificativa, a fórmula e os parâmetros usados no cálculo (com os valores explícitos de Z, p e e), o resultado do cálculo e, se aplicável, a correção para população finita e a margem para perdas, e por fim o método de amostragem dentro da população acessível. Um TCC que apresenta apenas “a amostra foi de 218 pacientes” sem esse encadeamento deixa a banca sem como avaliar se o número é adequado ao desenho proposto.

CEP, Plataforma Brasil e prontuário

Qualquer estudo que envolva pacientes — seja coleta direta, seja análise retrospectiva de prontuários — está sujeito à submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa via Plataforma Brasil, conforme as Resoluções CNS nº 466/2012 e nº 510/2016. Estudos retrospectivos de prontuário costumam solicitar dispensa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) ao CEP, mas essa dispensa precisa ser explicitamente concedida pelo comitê — nunca presumida pelo pesquisador. Documente no capítulo de metodologia o número do parecer de aprovação e a data.

Pilha de prontuários de pacientes fechados, com um cadeado sobre eles, ao lado de um computador em um ambiente hospitalar
Estudos retrospectivos de prontuário exigem submissão ao CEP e, em geral, dispensa formal do TCLE explicitamente concedida pelo comitê.

Para a estrutura completa do capítulo de metodologia, incluindo a formatação ABNT dos elementos textuais, veja a estrutura completa do TCC pela ABNT. E para comparar esse cálculo de prevalência com o cálculo baseado em poder estatístico (usado em estudos de comparação entre grupos), veja também população e amostra no TCC, que cobre os tipos de amostragem probabilística e não probabilística em mais detalhe.

Perguntas frequentes

Por que usar p = 0,5 quando não sei a prevalência real da condição?

Porque p = 0,5 é o valor que maximiza o produto p × (1−p) na fórmula, gerando o maior tamanho de amostra possível para os demais parâmetros — é a escolha conservadora que evita subdimensionar o estudo quando não há uma estimativa prévia confiável da prevalência.

Preciso aplicar a correção para população finita sempre?

Não. A correção só se aplica quando a população acessível (N) é conhecida e relativamente pequena em relação à amostra calculada. Quando a população é muito grande ou desconhecida, a correção tem efeito desprezível e pode ser omitida.

Amostragem por conveniência invalida o estudo?

Não invalida, mas limita a generalização e precisa ser declarada como limitação na discussão. É o método mais usado em TCCs de Medicina de graduação, justamente pela viabilidade dentro do prazo e recursos disponíveis — o problema é apresentá-la como se fosse aleatória.

Um estudo retrospectivo de prontuários precisa de cálculo amostral?

Depende do desenho: se o estudo analisa todos os prontuários elegíveis de um período (um censo, não uma amostra), o cálculo amostral não se aplica da mesma forma — declare que se trata de um censo da população acessível, não de uma amostra selecionada. Se apenas uma parte dos prontuários elegíveis será analisada, o cálculo amostral se aplica normalmente.

Como decido a margem de perda amostral se não tenho dados prévios do serviço?

Na ausência de dado local, uma prática aceita é adotar uma margem conservadora (10% a 20%, conforme a complexidade do seguimento) e declarar explicitamente que a estimativa é uma convenção adotada na ausência de dado prévio do serviço — nunca apresentar esse percentual como um dado medido quando ele foi apenas estimado.

O orientador pode exigir um N diferente do calculado pela fórmula?

Pode, e às vezes por boas razões práticas (prazo do TCC, disponibilidade real de pacientes no serviço). Quando isso acontece, declare no texto que o N efetivamente coletado ficou abaixo do calculado, explique o motivo e trate essa diferença como limitação metodológica na discussão — omitir a diferença é pior do que declará-la.

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