Os instrumentos de coleta de dados são a parte mais concreta da metodologia do TCC e, curiosamente, a que menos aparece pronta nos manuais: todo mundo explica o que é um questionário, quase ninguém mostra um inteiro. Este artigo traz quatro instrumentos escritos do começo ao fim, para copiar e adaptar: um questionário com vinte itens em blocos, um roteiro de entrevista semiestruturada com perguntas de sondagem, uma ficha de observação com categorias definidas e uma ficha de extração para pesquisa documental. Antes deles, o cabeçalho que todo instrumento precisa ter; depois, o pré-teste e o parágrafo que descreve o instrumento na metodologia.
Resposta rápida: o instrumento nasce dos objetivos específicos: cada objetivo vira um bloco de perguntas, cada bloco vira itens ou questões. Questionário para medir com muitos respondentes, roteiro de entrevista para compreender em profundidade, ficha de observação para registrar o que acontece no campo e ficha documental para extrair dados de textos. Todos levam cabeçalho com instruções e referência ao TCLE, passam por pré-teste e vão na íntegra como apêndice do TCC.
Qual instrumento para qual pesquisa
A escolha do instrumento é consequência da abordagem e do procedimento definidos no capítulo de metodologia, não o contrário. A tabela resume a correspondência mais frequente em TCCs brasileiros; o raciocínio completo, com as quatro decisões de classificação, está em metodologia do TCC com exemplos por área.
| Instrumento | Abordagem e procedimento | O que produz | Análise típica |
|---|---|---|---|
| Questionário | Quantitativa; levantamento (survey) | Respostas padronizadas de muitos participantes | Estatística descritiva e testes |
| Roteiro de entrevista | Qualitativa; estudo de caso, pesquisa de campo | Falas gravadas e transcritas de poucos participantes | Análise de conteúdo ou temática |
| Ficha de observação | Qualitativa ou mista; pesquisa de campo, pesquisa-ação | Registros de comportamentos e situações em categorias | Frequências e análise de conteúdo |
| Ficha de extração documental | Qualitativa ou quantitativa; pesquisa documental e bibliográfica | Dados padronizados extraídos de documentos, decisões, relatórios ou artigos | Análise de conteúdo, síntese, estatística |
A diferença entre entrevista individual e grupo focal está em grupo focal e entrevista semiestruturada; a entre observação participante e não participante, em observação participante e não participante.
O cabeçalho que todo instrumento precisa ter
Antes da primeira pergunta, o participante precisa saber quem pesquisa, para quê e com que garantias. O cabeçalho abaixo serve para os quatro modelos, com pequenas adaptações:
[NOME DA INSTITUIÇÃO] – Curso de [nome]
Pesquisa: [título do TCC]
Pesquisador(a): [nome] · Orientador(a): [nome]
Este [questionário/roteiro] faz parte de um Trabalho de Conclusão de Curso e tem como objetivo [objetivo em uma frase]. A participação é voluntária, as respostas são anônimas e serão usadas apenas para fins acadêmicos, de forma agregada. O tempo estimado de resposta é de [x] minutos. Ao continuar, você confirma ter lido e aceitado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido apresentado na página anterior.
Instruções: [marque apenas uma opção por pergunta / responda com suas palavras / não há respostas certas ou erradas].
O texto do TCLE, que vem antes do cabeçalho em formulários eletrônicos e em folha separada nos impressos, está em TCLE no TCC; quando a pesquisa exige submissão a Comitê de Ética, o instrumento completo é um dos documentos enviados, como descrito em Comitê de Ética e Plataforma Brasil.
Modelo 1: questionário com 20 itens

Tema ilustrativo: uso de bibliotecas digitais por estudantes de graduação. O questionário tem quatro blocos: perfil, uso, percepção (escala Likert de concordância) e questões abertas. Os itens de percepção seguem a lógica de uma dimensão por objetivo específico.
Bloco A – Perfil
1. Idade: ( ) até 20 anos ( ) 21 a 25 ( ) 26 a 30 ( ) 31 ou mais
2. Curso: __________ 3. Período: ( ) 1º a 3º ( ) 4º a 6º ( ) 7º ou mais
4. Turno: ( ) matutino ( ) noturno ( ) integral
5. Você trabalha além de estudar? ( ) Sim ( ) Não
6. Você tem acesso à internet em casa? ( ) Sim ( ) Não
Bloco B – Uso da biblioteca digital
7. Com que frequência você acessa a biblioteca digital da instituição? ( ) Nunca ( ) Raramente ( ) Às vezes ( ) Frequentemente ( ) Sempre
8. Para quais finalidades você a utiliza? (marque todas) ( ) Leitura obrigatória ( ) Pesquisa para trabalhos ( ) TCC ( ) Estudo para provas ( ) Outra: ______
9. Por qual dispositivo você acessa com mais frequência? ( ) Celular ( ) Notebook ( ) Computador da instituição
10. Você já recebeu treinamento para usar a biblioteca digital? ( ) Sim ( ) Não
Bloco C – Percepção (1 = discordo totalmente; 2 = discordo; 3 = nem concordo nem discordo; 4 = concordo; 5 = concordo totalmente)
Dimensão facilidade de uso
11. Encontro com facilidade os livros de que preciso. 1 2 3 4 5
12. A busca da biblioteca digital retorna resultados relevantes. 1 2 3 4 5
13. Consigo acessar a biblioteca digital fora da instituição sem dificuldade. 1 2 3 4 5
Dimensão utilidade percebida
14. A biblioteca digital atende às leituras exigidas nas disciplinas. 1 2 3 4 5
15. A biblioteca digital é suficiente para a pesquisa do meu TCC. 1 2 3 4 5
16. Usar a biblioteca digital melhora o meu desempenho nas disciplinas. 1 2 3 4 5
Dimensão intenção de uso
17. Pretendo continuar usando a biblioteca digital neste semestre. 1 2 3 4 5
18. Eu recomendaria a biblioteca digital a colegas. 1 2 3 4 5
Bloco D – Questões abertas
19. Qual é a principal dificuldade que você encontra ao usar a biblioteca digital?
20. O que poderia ser melhorado?
Quatro regras de redação sustentam o modelo: um item mede uma coisa só (nada de “fácil e útil”); a mesma âncora de escala vale para o bloco inteiro; o bloco de perfil vem primeiro, mas com o mínimo de perguntas necessárias à análise; as abertas ficam no fim e são poucas. A montagem da escala e a análise dos escores estão em escala Likert no TCC; a aplicação em formulário eletrônico, em questionário de pesquisa no Google Forms; e o que fazer quando faltam respostas, em dados faltantes no questionário.
Modelo 2: roteiro de entrevista semiestruturada

Tema ilustrativo: percepções de professoras alfabetizadoras sobre o uso de material manipulável na alfabetização matemática. O roteiro tem quatro blocos, cada um com perguntas principais e sondagens entre parênteses, que só são usadas se a resposta ficar curta.
Abertura (2 min): apresentação, objetivo, confirmação do TCLE e da autorização para gravar, lembrete de que não há respostas certas.
Bloco 1 – Trajetória
1. Conte-me um pouco da sua trajetória como alfabetizadora. (Há quanto tempo? Em quais redes? O que mudou na sua prática ao longo desse tempo?)
2. Como você descreveria a turma com a qual trabalha este ano?
Bloco 2 – Uso do material manipulável
3. Como o material manipulável entrou na sua rotina de aula? (Foi decisão sua, da escola, da rede? Houve formação?)
4. Descreva uma aula recente em que você usou o material. (O que os alunos fizeram? Quanto tempo durou? O que você observou?)
5. Em que momentos você prefere não usar o material? Por quê?
Bloco 3 – Percepções sobre aprendizagem
6. Que diferenças você percebe entre alunos que usam e que não usam o material? (Em quais conteúdos? Em quais alunos?)
7. Houve alguma situação em que o material atrapalhou? Conte como foi.
Bloco 4 – Condições e apoio
8. Que condições da escola facilitam ou dificultam o uso do material? (Espaço, quantidade, tempo de planejamento, apoio da coordenação.)
9. Se você pudesse mudar uma coisa nesse trabalho, o que seria?
Encerramento: 10. Há algo que não perguntei e que você considera importante? Agradecimento e informação sobre a devolutiva.
Repare que nenhuma pergunta induz a resposta (“você acha que o material ajuda?”) e que as sondagens são perguntas, não afirmações. Um roteiro de oito a quinze perguntas rende entrevistas de quarenta a sessenta minutos, e a análise das transcrições segue as etapas de análise de conteúdo de Bardin. A forma de citar trechos de entrevista no texto está em como citar entrevista e informação verbal na ABNT.
Modelo 3: ficha de observação
Tema ilustrativo: atendimento na recepção de uma unidade básica de saúde. A ficha combina campos de contexto, categorias pré-definidas com marcação de frequência e um espaço para registro livre. As categorias vêm do referencial teórico e podem ser refinadas após as primeiras sessões, desde que isso seja relatado.
Identificação da sessão: Ficha nº ___ · Data ___/___/______ · Horário de início ___ e término ___ · Local/setor ___ · Observador(a) ___ · Nº de usuários presentes no início ___
Categorias observadas (marque a frequência em cada intervalo de 15 minutos)
| Categoria | 0–15 | 15–30 | 30–45 | 45–60 | Notas |
|---|---|---|---|---|---|
| Usuário orientado sobre a fila ou senha ao chegar | |||||
| Usuário pergunta a mesma informação mais de uma vez | |||||
| Atendente consulta o sistema durante a conversa | |||||
| Interrupção do atendimento por outro profissional | |||||
| Usuário deixa a fila sem ser atendido | |||||
| Uso de linguagem técnica sem explicação |
Registro descritivo (o que aconteceu, sem interpretar): ____________________
Notas reflexivas do observador (impressões, hipóteses, dúvidas a checar): ____________________
A separação entre registro descritivo e notas reflexivas é o que dá credibilidade à observação na banca: o primeiro é o dado, o segundo é a interpretação em andamento. Observações em serviços de saúde e escolas exigem autorização institucional e, quando há registro de pessoas identificáveis, aprovação ética.
Modelo 4: ficha de extração documental
Tema ilustrativo: acórdãos de um tribunal sobre um tema jurídico, mas a mesma ficha serve para relatórios de empresas, demonstrações contábeis, planos de aula ou artigos de uma revisão. A ficha padroniza o que se extrai de cada documento, o que permite comparar e contar.
Ficha nº ___ · Data da extração ___/___/______
Identificação do documento: tipo (acórdão, relatório, plano, artigo) ___ · órgão ou autor ___ · número ou identificador ___ · data ___ · fonte e endereço de acesso ___
Critérios de elegibilidade: atende aos critérios de inclusão? ( ) Sim ( ) Não – motivo da exclusão: ___
Variáveis extraídas: tema central ___ · fundamento ou base legal citada ___ · resultado ou decisão ___ · argumentos principais (até três) ___ · presença do conceito investigado ( ) Sim ( ) Não · trecho literal relevante, com página ___
Categoria atribuída na análise: ___ · Observações: ___
Os campos de identificação garantem que cada documento possa ser referenciado depois; os de elegibilidade documentam a formação do corpus; os de variáveis são as colunas da planilha de análise. A busca e a seleção de artigos para revisões, com strings e critérios, seguem o roteiro de pesquisa bibliográfica.
Pré-teste e validação
Nenhum dos quatro modelos vai a campo sem teste. Para o questionário e o roteiro, aplique a cinco a dez pessoas do mesmo perfil da amostra, pergunte o que ficou confuso e cronometre; para a ficha de observação, faça uma sessão piloto e veja se as categorias cobrem o que acontece; para a ficha documental, extraia três documentos e confira se os campos bastam. Quando o instrumento mede um construto (satisfação, engajamento, adesão), o caminho mais seguro é adotar uma escala já validada no Brasil, e a decisão entre adotar, adaptar ou construir está em do modelo teórico ao instrumento. Os conceitos de validade e confiabilidade, com o alfa de Cronbach e o pré-teste, estão em validade e confiabilidade da pesquisa; a validação por especialistas, em validação de conteúdo com comitê de juízes.
Como descrever o instrumento na metodologia
O instrumento inteiro vai como apêndice, identificado por letra (APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO), conforme apêndices e anexos no Word. No capítulo de metodologia, ele é descrito em um parágrafo que responde a cinco perguntas: qual é, de onde veio, como está estruturado, como foi testado e como será aplicado. Um modelo para o questionário acima:
O instrumento de coleta foi um questionário estruturado (Apêndice A), elaborado pela autora a partir das dimensões do referencial teórico, composto por vinte itens distribuídos em quatro blocos: perfil (seis itens), uso (quatro itens), percepção em escala Likert de cinco pontos (oito itens em três dimensões) e duas questões abertas. O questionário foi submetido a pré-teste com oito estudantes de outro curso da mesma instituição, o que levou à reformulação de dois itens por ambiguidade, e foi aplicado por formulário eletrônico entre 6 e 24 de abril de 2026, precedido do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Com o instrumento e a amostra definidos (o cálculo está em população e amostra no TCC), o capítulo de metodologia fica quase pronto. Quem escreve no Tesify monta o apêndice e o parágrafo descritivo no mesmo fluxo, com as referências metodológicas em ABNT: comece a metodologia do seu TCC no Tesify. E se a primeira versão do seu questionário ainda está em rascunho, o passo a passo de redação de itens está em como fazer o questionário do TCC; para deixar o instrumento pronto para o pré-teste hoje, abra o editor do Tesify.
Perguntas frequentes
Quais são os instrumentos de coleta de dados mais usados no TCC?
Questionário, roteiro de entrevista, ficha de observação e ficha de extração documental; muitos trabalhos combinam dois deles.
O que precisa constar no cabeçalho de um instrumento de coleta?
Título da pesquisa, pesquisador e orientador, instituição e curso, objetivo em uma frase, instruções, garantia de anonimato e referência ao TCLE.
Onde o instrumento aparece no TCC?
Na íntegra como apêndice; no capítulo de metodologia, em um parágrafo com origem, estrutura, pré-teste e aplicação.
Quantas perguntas deve ter o questionário do TCC?
Entre 15 e 30 itens fechados, em blocos ligados aos objetivos específicos, com no máximo duas ou três abertas.
É obrigatório fazer pré-teste do instrumento?
Não é exigência formal, mas é prática esperada pela banca e deve ser relatada na metodologia.
Posso usar um questionário já validado em vez de criar o meu?
Sim, citando o original e a validação brasileira, respeitando a licença e descrevendo qualquer adaptação.
