Existe uma pergunta que decide qual ferramenta de avaliação crítica você deve usar, e ela não é “qual é a melhor”. É o que exatamente você vai avaliar: uma revisão sistemática inteira, um ensaio randomizado, um estudo observacional, uma pesquisa qualitativa. Cada ferramenta tem um objeto definido, e usar a errada é um erro de método que a banca identifica em segundos.
Antes de tudo: isto não é o PRISMA
A confusão mais comum do assunto é entre dois tipos de instrumento que fazem coisas opostas.
Uma diretriz de relato — PRISMA, STROBE, CONSORT, COREQ — diz o que precisa estar escrito no documento que você produz. Ela orienta a sua escrita. O mapa dessas diretrizes está em PRISMA, STROBE, CONSORT ou COREQ e o conceito em o que é uma diretriz de relato.
Uma ferramenta de avaliação crítica — JBI, CASP, AMSTAR 2, RoB 2, ROBINS-I — serve para julgar a qualidade dos estudos que você leu. Ela orienta o seu julgamento sobre a literatura alheia.
As duas coisas convivem no mesmo trabalho e em momentos diferentes: você avalia os estudos incluídos com uma ferramenta crítica e relata a sua revisão seguindo uma diretriz. Escrever “seguiu-se o PRISMA para avaliação da qualidade dos estudos” é trocar as duas — e é uma frase frequente em TCCs.

Cada ferramenta tem um objeto
AMSTAR 2 — avalia revisões sistemáticas
Apresentada por Beverley J. Shea e outros dez autores no BMJ em 2017 (358:j4008). O título do artigo já delimita o objeto: uma ferramenta de avaliação crítica para revisões sistemáticas que incluem estudos randomizados ou não randomizados de intervenções em saúde, ou ambos. O objeto é a revisão — não os estudos dentro dela.
RoB 2 — avalia ensaios randomizados
Apresentada por Jonathan A. C. Sterne e colaboradores — 28 autores ao todo — no BMJ em 2019 (366:l4898), como a ferramenta revisada para avaliação de risco de viés em ensaios randomizados. Se os estudos incluídos na sua revisão são ensaios clínicos randomizados, é aqui que você olha.
ROBINS-I — avalia estudos não randomizados de intervenções
Também de Sterne e colaboradores, com 35 autores, no BMJ em 2016 (355:i4919). É a contraparte da RoB 2 para desenhos em que a alocação não foi aleatória — situação muito mais comum nos temas que um TCC brasileiro costuma investigar.
JBI — listas específicas por desenho
O JBI mantém um conjunto de listas de verificação organizadas por desenho de estudo, e não uma ferramenta única. Constam do seu repositório listas para estudos transversais analíticos, caso-controle, relatos de caso, séries de casos, coortes, acurácia de testes diagnósticos, avaliações econômicas, estudos de prevalência e pesquisa qualitativa, entre outros. Cada uma traz a sua própria orientação de citação.
CASP — listas para leitura crítica, com foco didático
O Critical Appraisal Skills Programme mantém listas de verificação igualmente organizadas por tipo de estudo, com uma vocação declaradamente formativa: são desenhadas para ensinar a ler criticamente, com perguntas em linguagem acessível. Por isso são muito usadas em disciplinas de graduação e em TCCs — o que é uma escolha legítima, desde que declarada.
Tabela de decisão

| O que você vai avaliar | Ferramenta indicada | Referência de origem |
|---|---|---|
| Uma revisão sistemática | AMSTAR 2 | Shea et al., BMJ, 2017;358:j4008 |
| Ensaio clínico randomizado | RoB 2 | Sterne et al., BMJ, 2019;366:l4898 |
| Estudo não randomizado de intervenção | ROBINS-I | Sterne et al., BMJ, 2016;355:i4919 |
| Transversal, coorte, caso-controle, prevalência | Lista JBI do desenho correspondente | JBI, listas por desenho |
| Pesquisa qualitativa | Lista JBI ou CASP de pesquisa qualitativa | JBI / CASP |
| Leitura crítica formativa, em qualquer desenho | CASP | CASP, listas por tipo de estudo |
Uma consequência prática que costuma gerar dúvida: se a sua revisão incluiu estudos de desenhos diferentes, você vai usar mais de uma ferramenta — e isso é o procedimento correto, não uma incoerência. O que não se pode é aplicar uma lista de coorte a um estudo qualitativo só para manter a tabela uniforme.
O erro da AMSTAR 2

É o engano mais frequente e o mais fácil de evitar. A AMSTAR 2 avalia revisões sistemáticas. Se você fez uma revisão e quer avaliar a qualidade dos estudos primários que incluiu, a AMSTAR 2 não serve — os itens dela perguntam sobre protocolo prévio, estratégia de busca, seleção em duplicata, ou seja, sobre a condução de uma revisão. Aplicá-la a um estudo transversal produz respostas sem sentido, e quem conhece a ferramenta percebe imediatamente.
A AMSTAR 2 é a ferramenta certa em um caso específico e cada vez mais comum: quando a sua própria revisão é uma revisão de revisões (overview), e portanto os seus estudos incluídos são revisões sistemáticas. Aí o objeto bate.
A regra geral que evita todos os erros dessa família: abra a ferramenta e leia o objeto declarado no seu título e nas primeiras linhas antes de aplicá-la. Todas as cinco declaram explicitamente o que avaliam.
Ferramentas mudam de versão
Um detalhe que quase nenhum TCC observa e que vale nota: essas ferramentas são revisadas, exatamente como as normas técnicas.
O nome já denuncia em dois casos — AMSTAR 2 e RoB 2 são segundas versões. E o JBI informa em seu próprio material que as ferramentas foram revisadas, remetendo a publicações que detalham a revisão e mantendo a orientação de citação atualizada para cada lista; a lista revisada de estudos transversais analíticos, por exemplo, é citada por uma publicação de 2026 no JBI Evidence Synthesis.
Duas consequências práticas. Primeira: diga qual versão você usou, com a referência correspondente — “aplicou-se a lista do JBI” sem versão nem citação é o mesmo problema descrito em qual versão da norma ABNT o seu TCC deve seguir, transposto para instrumentos metodológicos. Segunda: baixe a ferramenta do site oficial da instituição que a mantém, não de um PDF solto encontrado em uma busca — o arquivo solto pode ser de uma versão anterior, e você não terá como saber.
Como declarar no método
Um modelo que cobre o que se espera:
A avaliação crítica dos estudos incluídos foi realizada com [ferramenta e versão], conforme [referência], aplicada de forma independente por [n] avaliador(es). Para os estudos de desenho [x] utilizou-se [ferramenta correspondente]. As divergências foram resolvidas por [procedimento]. Os resultados da avaliação são apresentados no [quadro/apêndice x] e foram utilizados para [interpretar os achados / ponderar a síntese / conduzir análise de sensibilidade], não tendo sido empregados como critério de exclusão.
Repare no fecho, porque ele carrega a decisão metodológica mais importante: o que você faz com o resultado da avaliação. Avaliar qualidade e não usar o resultado para nada é trabalho perdido; usar o resultado para excluir estudos é uma escolha que precisa ser coerente com o método declarado.
E aqui há uma diferença que importa muito no Brasil. Na revisão integrativa, o método prevê uma etapa própria de avaliação dos estudos, mas a qualidade metodológica não deve funcionar como critério de exclusão — você avalia para interpretar, não para descartar. Numa revisão sistemática clássica, ao contrário, a avaliação de risco de viés frequentemente informa a síntese e pode motivar análises de sensibilidade. A escolha entre os formatos está em qual tipo de revisão de literatura o seu TCC precisa, e o percurso com PRISMA em revisão sistemática de literatura.
Se a triagem anterior foi apoiada por alguma automação, ela também entra no relato — o que declarar está em IA na triagem de artigos da revisão. E os critérios que definiram quem entrou na amostra, em critérios de inclusão e exclusão.
Aplicar a ferramenta é trabalho intelectual; transformar dezenas de julgamentos em um quadro coerente e num capítulo bem escrito, com cada referência metodológica formatada, é trabalho mecânico. Escreva essa parte no Tesify — as referências em ABNT saem prontas e o texto continua 100% seu.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre diretriz de relato e ferramenta de avaliação crítica?
A diretriz de relato, como o PRISMA, diz o que precisa estar escrito no seu documento. A ferramenta crítica, como a RoB 2 ou as listas do JBI, julga a qualidade dos estudos que você leu. Uma orienta a escrita, a outra o julgamento — e ambas podem aparecer no mesmo trabalho.
Posso usar a AMSTAR 2 nos artigos incluídos na minha revisão?
Só se os incluídos forem revisões sistemáticas. A AMSTAR 2 é ferramenta de avaliação de revisões sistemáticas que incluem estudos randomizados ou não randomizados de intervenções em saúde. Se os seus incluídos são estudos primários, a ferramenta é outra.
Qual ferramenta usar para ensaios clínicos randomizados?
A RoB 2 (Sterne et al., BMJ, 2019;366:l4898). Para estudos não randomizados de intervenções, a ROBINS-I (Sterne et al., BMJ, 2016;355:i4919).
O JBI tem uma ferramenta única para tudo?
Não. Mantém listas específicas por desenho — transversais analíticos, caso-controle, relatos e séries de casos, coortes, acurácia diagnóstica, avaliações econômicas, prevalência e pesquisa qualitativa, entre outras. Escolhe-se a lista do desenho de cada estudo.
Preciso avaliar qualidade em uma revisão integrativa?
Há etapa própria de avaliação dos estudos, mas a qualidade metodológica não deve funcionar como critério de exclusão nesse método: avalia-se para interpretar os resultados, não para descartar estudos.
Posso usar CASP em um TCC de graduação?
Pode, e é uma escolha comum, porque as listas do CASP são desenhadas com finalidade formativa e linguagem acessível. O requisito é o mesmo de qualquer ferramenta: declarar qual lista foi usada, com a referência, e mostrar o que se fez com o resultado.
