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Instrumentos para o TCC de Educação Física em 2026: IPAQ, PAR-Q+, Borg e Como Aplicar Passo a Passo

Instrumentos para o TCC de Educação Física em 2026: IPAQ, PAR-Q+, Borg e Como Aplicar Passo a Passo

O TCC de Educação Física raramente trava na escrita. Trava na coleta: você marcou a academia, a escola ou o grupo de idosos para a semana que vem e ainda não sabe exatamente quais questionários vai aplicar, em que ordem, nem como transformar as respostas em número. Este guia resolve isso.

Abaixo estão os instrumentos validados em português que sustentam a maior parte dos TCCs do curso, o que cada um mede de fato, como se pontua cada um e a sequência correta do dia da coleta — porque a ordem importa: aplicar o questionário de risco depois do teste físico é um erro ético grave, não apenas metodológico.

Passo 1 — Defina o que você precisa medir antes de escolher o instrumento

Instrumento não se escolhe por popularidade, se escolhe pelo desfecho do seu objetivo. Traduza o objetivo específico em uma variável mensurável:

  • “Analisar o nível de atividade física” → variável: minutos semanais em atividade moderada e vigorosa → instrumento: IPAQ.
  • “Avaliar a percepção de esforço durante a sessão” → variável: RPE por série → instrumento: Escala de Borg.
  • “Verificar a qualidade de vida de praticantes” → variável: escore por domínio → instrumento: WHOQOL-bref ou SF-36.
  • “Investigar motivos de adesão à musculação” → variável: escore por dimensão motivacional → instrumento: IMPRAF-54 ou BREQ-3 em versão brasileira.

Se o objetivo ainda não chegou nesse nível de precisão, o instrumento vai sair errado. Reescreva o objetivo primeiro.

Passo 2 — Triagem obrigatória: PAR-Q+

Qualquer coleta que envolva esforço físico — teste de caminhada, dinamometria, sentar e levantar, protocolo de corrida, sessão de treino — começa pela triagem de prontidão. O PAR-Q+ (Physical Activity Readiness Questionnaire for Everyone) é a versão atualizada do antigo PAR-Q, com sete perguntas iniciais de sim ou não e um bloco de perguntas de seguimento para quem responde sim a alguma delas.

Como aplicar

  1. Aplique antes de qualquer esforço, na chegada do participante, junto com a assinatura do TCLE.
  2. Todas as respostas “não” nas sete perguntas iniciais: participante liberado para o protocolo previsto.
  3. Qualquer resposta “sim”: encaminhe às perguntas de seguimento. Persistindo condição não controlada, o participante não faz o teste. Isso não é opcional e precisa constar como critério de exclusão na sua metodologia.
  4. Guarde as folhas assinadas. Elas fazem parte do material que o Comitê de Ética pode solicitar.

Registre no capítulo de metodologia quantos participantes foram excluídos pela triagem. Esse número entra no fluxo da amostra e é a primeira coisa que a banca procura em TCC com esforço físico.

Passo 3 — Nível de atividade física: IPAQ

O IPAQ (Questionário Internacional de Atividade Física) tem duas versões: a curta, com sete questões, e a longa, com 27, organizada por domínios (trabalho, transporte, atividades domésticas e lazer). A versão curta é a escolha padrão em TCC de graduação por levar de cinco a dez minutos.

Como pontuar sem errar

O IPAQ não gera um “escore” único; gera minutos por semana por intensidade. O procedimento:

  1. Para cada bloco (caminhada, moderada, vigorosa), multiplique dias por semana × minutos por dia.
  2. Trunque em 180 minutos por dia qualquer valor superior — é a regra de limpeza recomendada pelo protocolo, para evitar que respostas exageradas distorçam a média.
  3. Descarte blocos com menos de 10 minutos contínuos.
  4. Classifique conforme os pontos de corte do protocolo brasileiro em sedentário, insuficientemente ativo, ativo e muito ativo.
  5. Se for reportar em MET-minutos, use os multiplicadores do protocolo: 3,3 para caminhada, 4,0 para moderada e 8,0 para vigorosa.

Cuidado com o mais comum dos erros: perguntar “quantos minutos você se exercita por semana?” e chamar isso de IPAQ. O instrumento tem redação fixa e ordem fixa das perguntas; alterar isso invalida a comparação com a literatura e derruba a justificativa de usar um instrumento validado.

Limitação que você precisa declarar

O IPAQ é autorrelato e superestima sistematicamente a atividade física quando comparado a acelerômetro. Declare isso nas limitações — é um ponto que a banca cobra e que você desarma antecipando.

Passo 4 — Percepção de esforço: escalas de Borg

Existem duas, e confundi-las é frequente:

  • Borg RPE 6-20: a escala clássica, ancorada aproximadamente na frequência cardíaca (o valor multiplicado por 10 aproxima a FC de adultos jovens). Usada para esforço aeróbio contínuo.
  • Borg CR-10 (OMNI e derivadas): escala de razão de 0 a 10, mais adequada para treinamento resistido e para o cálculo de carga interna da sessão (PSE da sessão × duração em minutos).

Regra de aplicação: apresente a escala impressa em tamanho legível, explique as âncoras antes do esforço (não durante), e colete no momento previsto pelo seu protocolo — ao final de cada série, ao final da sessão ou a cada estágio. Padronize a pergunta: “qual é a sua percepção de esforço agora?”, sempre a mesma frase, sempre pelo mesmo avaliador.

Passo 5 — Desfechos complementares mais usados

Instrumento O que mede Formato
WHOQOL-bref Qualidade de vida em quatro domínios 26 itens, escala de 1 a 5
SF-36 Qualidade de vida relacionada à saúde, oito domínios 36 itens, escores 0-100
PSQI Qualidade do sono 19 itens, escore global 0-21
Escala de Baecke Atividade física habitual em três domínios 16 itens
IMPRAF-54 Motivos para a prática de atividade física 54 itens, 6 dimensões
Escala de Autoeficácia para Atividade Física Confiança em manter a prática varia por versão

Antes de adotar qualquer um deles, confirme três coisas: existe versão validada para o português do Brasil, com referência publicada; a população da validação é compatível com a sua (escala validada em idosos não se aplica automaticamente a adolescentes); e o uso é livre ou requer autorização. Essa última parte é ignorada com frequência — o que fazer está descrito em usar a escala de outro autor no TCC, e a forma correta de citá-la em como referenciar um instrumento validado na ABNT.

Passo 6 — A ordem do dia da coleta

Uma sequência que funciona para um protocolo típico de campo com 20 a 40 participantes:

  1. Recepção e explicação do estudo (5 min).
  2. Leitura e assinatura do TCLE. Menores de idade exigem também o termo de assentimento e a autorização do responsável — o procedimento está em assentimento e autorização dos responsáveis na pesquisa de TCC.
  3. PAR-Q+ e ficha de caracterização (idade, sexo, tempo de prática, uso de medicação).
  4. Questionários em repouso: IPAQ, qualidade de vida, motivação. Nunca depois do esforço, porque a fadiga altera a resposta.
  5. Medidas antropométricas: massa, estatura, circunferências. Padronize o equipamento e o avaliador.
  6. Testes físicos, na ordem do menos para o mais fatigante.
  7. Borg no momento previsto pelo protocolo.
  8. Volta à calma e conferência da ficha antes de o participante ir embora — dado faltante descoberto uma semana depois é dado perdido.

Passo 7 — Do papel à planilha

Digite os dados no mesmo dia, uma linha por participante e uma coluna por item — nunca uma coluna por escore já somado, senão você perde a possibilidade de calcular consistência interna depois. A estrutura correta da base está em como montar o banco de dados do TCC.

Três colunas que a maioria esquece e que salvam a análise: código do participante (nunca o nome), data da coleta e avaliador responsável. Com elas você consegue investigar diferenças entre dias e entre avaliadores se algo estranho aparecer nos resultados.

Se você usou uma escala multi-item, relate a consistência interna da sua amostra, não apenas a do estudo original — a diferença entre os coeficientes está explicada em alfa de Cronbach ou ômega de McDonald. E se alguém deixou itens em branco, decida a regra antes de analisar, seguindo o que fazer com dados faltantes no questionário.

Como descrever o instrumento na metodologia

Um parágrafo por instrumento, com seis elementos fixos: nome completo e sigla, autoria original, referência da validação para o português, número de itens e estrutura, forma de pontuação e classificação, e propriedades psicométricas relatadas. Exemplo:

“O nível de atividade física foi avaliado pelo Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ), versão curta, validado para a população brasileira. O instrumento é composto por sete questões referentes à frequência e à duração de caminhadas e de atividades de intensidade moderada e vigorosa realizadas na última semana. O escore foi obtido pela soma dos minutos semanais em cada intensidade, com truncamento em 180 minutos diários, e os participantes foram classificados em sedentários, insuficientemente ativos, ativos e muito ativos conforme os pontos de corte do protocolo. A aplicação ocorreu por entrevista face a face, em sala reservada, antes da realização dos testes físicos.”

Erros que aparecem na arguição

  • Adaptar o instrumento “para ficar mais fácil” e continuar chamando pelo nome original.
  • Aplicar questionário de qualidade de vida logo após esforço máximo.
  • Não relatar quantos participantes foram excluídos pela triagem.
  • Somar itens de uma escala sem inverter os itens que exigem inversão.
  • Concluir causalidade a partir de desenho transversal: nível de atividade física associado a melhor qualidade de vida não significa que um cause o outro.
  • Comparar seus resultados apenas com estudos internacionais, ignorando a produção brasileira da área.

Para o panorama geral do curso, o que é aceito como formato e os temas mais comuns, vale a leitura de TCC de Educação Física: o que é, formatos e temas mais comuns.

Perguntas frequentes

Preciso pagar para usar o IPAQ no TCC?

O IPAQ é de uso livre para fins de pesquisa e não exige pagamento. O que se exige é citar corretamente o instrumento e a referência da validação para o português, além de aplicar a versão íntegra, sem alterar a redação ou a ordem das questões. Outros instrumentos, como o SF-36, têm regras próprias de licenciamento — confirme caso a caso antes de coletar.

Posso criar meu próprio questionário em vez de usar um validado?

Pode, para variáveis de caracterização (idade, tempo de prática, modalidade, frequência semanal de treino). Para construtos psicológicos ou de saúde — motivação, qualidade de vida, autoeficácia, imagem corporal — o instrumento próprio precisaria passar por validação de conteúdo e análise psicométrica, o que não cabe no prazo de um TCC de graduação. A regra prática: caracterização pode ser própria, desfecho deve ser validado.

Qual escala de Borg usar em treinamento resistido?

A CR-10, de 0 a 10, é a mais adequada para exercício resistido, porque permite discriminar esforço por série e serve de base para o cálculo de carga interna da sessão (percepção de esforço multiplicada pela duração em minutos). A escala 6-20 foi concebida para esforço aeróbio contínuo e sua ancoragem à frequência cardíaca não se sustenta bem em séries de força.

Coleta em escola precisa de autorização além do Comitê de Ética?

Sim. Além da aprovação do Comitê de Ética, é necessária a autorização institucional da escola ou da secretaria de educação, normalmente formalizada em carta de anuência, e o consentimento dos responsáveis somado ao assentimento dos próprios estudantes menores de idade. Muitas redes exigem também aprovação de um núcleo de pesquisa próprio, com prazo adicional que precisa entrar no seu cronograma.