O estado da arte do TCC de Administração tem um risco que a área compartilha com poucas outras: como o campo é amplo — estratégia, marketing, finanças, gestão de pessoas, operações —, uma revisão que tenta cobrir “a Administração” genericamente sempre soa rasa. O estado da arte que funciona é sempre recortado por subárea, com os autores e periódicos que aquela subárea especificamente cita — e não os que “soam” acadêmicos de forma genérica, mas que ninguém na sua banca realmente reconhece como referência daquele campo específico.
Onde procurar: as bases que a Administração usa de fato
Além do guia geral sobre o que é estado da arte, que cobre a definição e a diferença para revisão bibliográfica, a Administração brasileira tem uma base de referência que concentra praticamente toda a produção nacional da área:
- SPELL (Scientific Periodicals Electronic Library) — a base mais usada para TCCs de Administração no Brasil, reunindo os principais periódicos nacionais de gestão, com busca por palavra-chave, autor e periódico.
- Portal de Periódicos CAPES — para acesso ao portfólio internacional licenciado (Journal of Marketing, Strategic Management Journal, Academy of Management Journal, entre outros), essencial quando o tema exige literatura internacional de referência.
- Google Acadêmico — útil como complemento para localizar working papers e teses/dissertações que ainda não foram publicadas em periódico, mas não deve ser a única fonte, já que mistura material revisado por pares com material que não passou por revisão.
Organizando por subárea, não por “Administração” genérica
O erro mais comum é escrever uma revisão que cita Porter, Kotler e Chiavenato no mesmo parágrafo, sem organizar por linha temática — o que produz uma colcha de retalhos em vez de um estado da arte. A alternativa:
- Identifique a subárea central do seu tema (estratégia, marketing, gestão de pessoas, finanças, operações, empreendedorismo) antes de buscar literatura.
- Dentro da subárea, organize por linha teórica ou por variável — por exemplo, num TCC sobre satisfação do cliente, separe os estudos que tratam de qualidade de serviço dos que tratam de valor percebido, mesmo que ambos apareçam frequentemente juntos na literatura.
- Feche com os estudos brasileiros aplicados ao seu contexto (setor, porte de empresa, região), que costumam ser o elo entre a teoria internacional e a realidade que o seu TCC estuda.

Os periódicos que sinalizam onde está a produção atual
Conhecer os periódicos brasileiros de Administração mais bem avaliados ajuda a calibrar o que é literatura de referência na área: a RAE — Revista de Administração de Empresas (FGV-EAESP), a RAC — Revista de Administração Contemporânea (ANPAD) e a RAUSP — Revista de Administração (USP) são as três referências nacionais mais citadas em TCCs e dissertações de Administração, cada uma com um perfil um pouco diferente de artigos aceitos — a RAE historicamente mais aberta a estudos de caso e ensaios teóricos, a RAC e a RAUSP com exigência mais forte de rigor metodológico quantitativo.
Autores seminais por subárea
Cada subárea da Administração cita um conjunto relativamente estável de autores fundadores, que uma revisão de estado da arte precisa reconhecer mesmo quando o foco é a literatura mais recente:
| Subárea | Autores seminais frequentemente citados |
|---|---|
| Estratégia | Michael Porter (vantagem competitiva, cinco forças), Henry Mintzberg (escolas de estratégia), Barney (visão baseada em recursos) |
| Marketing | Philip Kotler (composto de mercadológico, gestão de marketing), Parasuraman/Zeithaml/Berry (qualidade de serviço, escala SERVQUAL) |
| Gestão de pessoas | Idalberto Chiavenato (produção nacional consolidada em RH), Ulrich (RH estratégico) |
| Cultura organizacional | Geert Hofstede (dimensões culturais), Edgar Schein (cultura e liderança) |
Citar esses autores não substitui a literatura empírica recente — eles servem para ancorar os conceitos que a revisão vai usar, exatamente como um referencial teórico faz, mas aqui aplicado à seleção e organização do estado da arte.

Um parágrafo de síntese já modelado
Veja como um parágrafo de estado da arte em Administração costuma amarrar teoria consolidada, produção nacional e lacuna — o conteúdo é ilustrativo, para adaptar ao seu tema:
“A literatura internacional sobre qualidade de serviço consolidou-se a partir da escala SERVQUAL, amplamente validada em diferentes setores. No contexto brasileiro, estudos aplicados ao varejo e a serviços financeiros têm replicado o instrumento com adaptações pontuais às dimensões culturais locais, mas a literatura nacional sobre qualidade de serviço no setor de saúde suplementar permanece escassa, especialmente em estudos que comparam operadoras de pequeno e grande porte.”
Note que o parágrafo situa a teoria de referência (SERVQUAL), reconhece a produção nacional já existente e nomeia com precisão a lacuna — sem afirmar ineditismo absoluto, apenas onde a literatura brasileira ainda é rasa.
Um checklist antes de considerar o estado da arte pronto
Antes de fechar a seção, confira se o texto passa neste checklist:
- A subárea central do tema está declarada explicitamente logo no início da seção, não deduzida pelo leitor.
- Pelo menos um autor seminal da subárea está citado, ancorando os conceitos usados.
- Há produção brasileira citada (via SPELL ou periódicos nacionais), não apenas literatura internacional.
- O parágrafo final nomeia uma lacuna específica, não uma afirmação genérica de que “mais pesquisas são necessárias”.
- O critério de busca (bases, período, palavras-chave) está declarado, ainda que brevemente.
Como o estado da arte muda conforme a subárea escolhida
Vale notar que o “estado da arte” de fato muda de formato dependendo da subárea, porque cada uma tem uma tradição de pesquisa diferente:
| Subárea | O que costuma dominar a literatura recente |
|---|---|
| Estratégia | Estudos de caso e análises setoriais aplicando modelos consolidados (cinco forças, VRIO) a contextos específicos |
| Marketing | Estudos quantitativos com escalas validadas (como a SERVQUAL) testadas em amostras brasileiras |
| Gestão de pessoas | Pesquisas sobre práticas de RH e seus efeitos em variáveis como engajamento, retenção e clima organizacional |
| Finanças corporativas | Estudos com dados secundários de empresas listadas na B3, testando modelos de precificação ou estrutura de capital |
Reconhecer esse padrão ajuda a calibrar a expectativa: um estado da arte de finanças corporativas provavelmente vai citar mais estudos com dados quantitativos de mercado, enquanto um de gestão de pessoas tende a citar mais estudos com survey aplicado a colaboradores — nenhum dos dois formatos é mais “certo” que o outro, mas confundir as duas tradições produz uma revisão que soa deslocada da subárea.
Uma busca no SPELL passo a passo
Para quem nunca usou a base, o fluxo de busca no SPELL segue uma lógica simples que evita o erro mais comum — buscar um termo amplo demais e receber centenas de resultados irrelevantes:
- Combine o constructo com a subárea na busca (por exemplo, “qualidade de serviço” + “varejo”, em vez de só “qualidade de serviço”), o que já filtra boa parte do ruído.
- Use o filtro de periódico avaliado quando disponível, priorizando os títulos indexados pela área de Administração na avaliação da CAPES, o que ajuda a identificar rapidamente os periódicos de maior peso.
- Ordene por ano de publicação para separar rapidamente os estudos-marco (mais citados, geralmente mais antigos) dos mais recentes, que devem dominar numericamente o estado da arte.
- Exporte as referências no formato ABNT diretamente da própria base, o que economiza tempo de formatação depois — o SPELL gera a referência já no padrão exigido pela maioria dos cursos de Administração no Brasil.
Erros que comprometem o estado da arte em Administração
| Erro | Por que compromete |
|---|---|
| Misturar subáreas sem critério (estratégia, marketing, RH no mesmo parágrafo) | Produz uma colcha de retalhos sem linha condutora — a banca espera um recorte temático claro |
| Citar só autores clássicos, sem literatura empírica recente | Um estado da arte precisa mostrar o que a área sabe agora, não apenas os fundamentos teóricos de décadas atrás |
| Ignorar a produção nacional (RAE, RAC, RAUSP, SPELL) | Perde o elo entre a teoria internacional e a realidade brasileira, que costuma ser exatamente onde está a lacuna do seu TCC |
| Não declarar o critério de seleção dos estudos | Sem critério explícito (bases consultadas, período, palavras-chave), a revisão parece arbitrária mesmo quando não é |
Quando o estado da arte já está pronto para o próximo capítulo
Um sinal prático de maturidade do levantamento é a saturação de citações: quando novas buscas trazem majoritariamente os mesmos nomes e os mesmos achados já mapeados, o estado da arte atingiu um ponto de cobertura razoável para o escopo de um TCC de Administração. Continuar expandindo a busca além desse ponto costuma agregar volume, não necessariamente clareza sobre a lacuna que o próprio TCC pretende preencher.
Perguntas frequentes
Estado da arte e referencial teórico são a mesma coisa em Administração?
Não — o estado da arte mapeia o que a produção acadêmica recente encontrou sobre o tema; o referencial teórico apresenta os conceitos e modelos (como as cinco forças de Porter) que sustentam a análise. Os dois costumam se complementar, mas respondem perguntas diferentes — o guia de fundamentação teórica e referencial teórico detalha essa distinção com mais profundidade.
Preciso citar autores internacionais ou a produção brasileira já basta?
Depende da subárea e do tema, mas a combinação costuma ser mais forte: os autores seminais internacionais ancoram os conceitos, e a produção nacional (via SPELL) mostra como esses conceitos foram aplicados e testados no contexto brasileiro, que é geralmente o que o seu TCC precisa discutir na conclusão.
O SPELL cobre toda a produção brasileira de Administração?
Cobre a maior parte dos periódicos nacionais avaliados pela área, mas vale complementar com o Portal de Periódicos CAPES para garantir acesso a periódicos internacionais e a alguns títulos nacionais que não estão indexados no SPELL.
Posso citar dissertações e teses de mestrado profissional em Administração?
Pode, com atenção: dissertações de mestrado profissional costumam ter foco mais aplicado (um caso, uma empresa específica), o que é útil como evidência de aplicação prática, mas geralmente não substitui artigos revisados por pares como base teórica principal do estado da arte.
O que fazer se a subárea do meu tema cruza duas áreas, como marketing e tecnologia?
Declare explicitamente que o tema é interdisciplinar e organize a revisão em dois blocos — um para cada subárea —, fechando com uma seção que conecta as duas literaturas. Tentar fundir os dois blocos artificialmente costuma produzir uma revisão confusa, sem uma linha teórica clara em nenhuma das duas frentes.
Depois de fechar o estado da arte, o próximo passo costuma ser formular o problema, as hipóteses e as variáveis do TCC de Administração — a lacuna identificada aqui vira, quase diretamente, a pergunta de pesquisa.
Recortar por subárea, nomear os autores seminais certos e fechar com a lacuna nacional específica é o que separa um estado da arte que a banca reconhece como maduro de uma lista genérica de citações. Revisar esse recorte um último tempo antes da entrega, verificando se a lacuna apontada realmente decorre do levantamento apresentado, fecha o capítulo com a coerência que a arguição costuma testar primeiro.
