Delimitar um TCC de Administração sobre micro e pequenas empresas começa pela definição legal: a Lei Complementar nº 123/2006 classifica como Microempresa (ME) a pessoa jurídica com receita bruta anual igual ou inferior a R$ 360.000,00, e como Empresa de Pequeno Porte (EPP) a que fatura entre esse valor e R$ 4.800.000,00 por ano — o teto de enquadramento no Simples Nacional. Esse critério legal já resolve metade do trabalho de delimitação, mas ainda sobra a parte mais importante: qual problema de gestão, em qual tipo de MPE, você vai estudar.
Por que “MPE” não é, sozinho, um tema de TCC
Assim como acontece com outras populações amplas, tratar “TCC sobre pequenas empresas” como um tema fechado é um erro comum. Micro e pequenas empresas atravessam praticamente todas as áreas da Administração: gestão financeira, marketing, gestão de pessoas, processos, estratégia, sucessão familiar, inovação, sustentabilidade. O recorte de verdade nasce de cruzar essa população com um problema de gestão específico, em um setor e uma região delimitados. Se você ainda não fechou o tema, a lista de temas de TCC de Administração mostra outros recortes que ganham força quando cruzados com o porte da empresa.
Recortes possíveis dentro do universo das MPE
- Setor: comércio varejista, prestação de serviços, indústria de transformação, agronegócio, tecnologia — cada setor tem desafios de gestão diferentes.
- Porte dentro da faixa: microempreendedor individual (MEI), microempresa (ME) e empresa de pequeno porte (EPP) enfrentam problemas de gestão diferentes — um MEI raramente tem departamento financeiro separado, uma EPP com dezenas de funcionários já tem estrutura de gestão mais complexa.
- Fase do ciclo de vida: abertura e formalização, crescimento, sucessão (empresas familiares), reestruturação após dificuldade financeira, ou encerramento.
- Área funcional: gestão financeira e fluxo de caixa, marketing digital de baixo custo, gestão de pessoas em equipes pequenas, precificação, gestão de estoque, planejamento tributário no Simples Nacional.
- Contexto geográfico: um recorte municipal ou regional (por exemplo, MPEs de um município específico ou de um arranjo produtivo local) facilita o acesso ao campo e dá um ângulo de originalidade ao trabalho.

Delimitando o problema de pesquisa
Depois de escolher o setor, o porte e a área funcional, o problema de pesquisa nasce da pergunta: o que essas empresas fazem mal, ou fazem sem saber que existe uma forma melhor? Alguns exemplos de problema de pesquisa viáveis para um TCC de graduação:
- Como microempresas do setor de comércio varejista de um município X controlam o fluxo de caixa, e quais práticas de gestão financeira estão ausentes?
- Quais fatores influenciam a decisão de formalização de microempreendedores individuais em um setor específico?
- Como pequenas empresas familiares de um setor X planejam (ou deixam de planejar) o processo de sucessão?
- Qual o nível de adoção de ferramentas de marketing digital por microempresas de serviços, e quais barreiras limitam essa adoção?
Onde e como coletar dados com micro e pequenas empresas
O acesso a esse tipo de empresa costuma ser mais rápido do que em populações institucionalizadas (como hospitais ou escolas), mas tem armadilhas próprias:
- Associações comerciais e sindicatos patronais: costumam ter uma base de contatos e podem facilitar o acesso a um grupo de empresas do mesmo setor ou região — vale pedir apoio institucional antes de sair procurando empresa por empresa.
- SEBRAE: oferece dados públicos sobre MPEs por setor e região, e em alguns casos programas de capacitação que reúnem empreendedores — pode ser uma porta de entrada para a amostra, mas não substitui o levantamento de dados primários do seu próprio estudo.
- Abordagem direta ao proprietário ou gestor: em empresas muito pequenas, o dono costuma ser também quem responde à pesquisa — planeje a coleta para o horário de menor movimento do negócio, e seja claro sobre o tempo que a participação vai exigir.
- Recusa e taxa de resposta: donos de pequenos negócios têm pouco tempo disponível e costumam desconfiar de pesquisas sobre finanças ou gestão do próprio negócio — reserve mais tempo do que o previsto para atingir a amostra planejada e considere um incentivo simples (como compartilhar os resultados agregados da pesquisa).
- Horário e canal de contato: pequenos comércios costumam ter picos de movimento previsíveis (fim de semana no varejo, início de mês em serviços financeiros); agendar a coleta fora desses picos aumenta a chance de uma resposta completa e sem interrupções.

Formal versus informal: um recorte adicional a considerar
Boa parte das micro e pequenas empresas no Brasil convive com algum grau de informalidade — seja um funcionário sem carteira assinada, seja uma parte da receita não declarada. Um TCC pode optar por não tocar nesse tema, mantendo o foco em práticas de gestão formalmente declaradas, ou pode assumir esse recorte como parte do problema de pesquisa (por exemplo, como a informalidade afeta o acesso a crédito ou a possibilidade de participar de licitações). Se o seu trabalho for tocar nesse ponto, planeje o instrumento e a abordagem com cuidado redobrado: perguntas diretas sobre informalidade tendem a gerar respostas evasivas, e um questionário anônimo costuma captar informação mais honesta do que uma entrevista identificada.
Desenhos de pesquisa mais usados
- Estudo de caso único ou múltiplos casos: aprofunda a análise de uma ou poucas empresas, combinando entrevista com o gestor e análise de documentos internos (quando a empresa autoriza acesso). É o desenho mais comum quando o acesso a um número grande de empresas é limitado.
- Survey (levantamento): questionário estruturado aplicado a uma amostra de MPEs de um setor ou região, útil para descrever práticas de gestão ou testar associação entre variáveis (por exemplo, escolaridade do gestor e uso de planejamento financeiro).
- Pesquisa documental: quando o acesso direto às empresas é limitado, dados secundários (bases do SEBRAE, Receita Federal, juntas comerciais) permitem uma análise de porte, setor e mortalidade de empresas sem depender de coleta primária.
Para o cálculo do tamanho da amostra e a justificativa estatística, veja o guia de população e amostra no TCC de Administração.
Verificando o enquadramento: um cálculo ilustrativo
Antes de aplicar o instrumento, vale confirmar o enquadramento declarado por cada empresa da amostra — é comum encontrar negócios que dizem ser “pequena empresa” no sentido coloquial, mas que juridicamente são MEI, ou vice-versa. O exemplo abaixo é fictício e apenas ilustra o raciocínio: uma empresa com receita bruta anual de R$ 290.000,00 se enquadra como microempresa (ME), porque o valor está abaixo do teto de R$ 360.000,00; uma empresa com R$ 1.200.000,00 de receita anual se enquadra como empresa de pequeno porte (EPP), porque o valor está entre R$ 360.000,00 e R$ 4.800.000,00. Se a sua amostra incluir empresas de portes diferentes, declare esse enquadramento como uma variável de caracterização da amostra — ele ajuda a explicar diferenças de prática de gestão encontradas nos resultados.
Instrumento e variáveis: um exemplo ilustrativo
O exemplo abaixo é fictício e serve apenas para mostrar como as escolhas se encadeiam — não use os números como referência real.
- Recorte: microempresas do comércio varejista de um município X, com até 9 funcionários.
- Problema de pesquisa: como essas empresas realizam o controle de fluxo de caixa, e quais práticas de gestão financeira estão ausentes?
- Objetivo geral (ilustrativo): descrever as práticas de controle de fluxo de caixa adotadas por microempresas do comércio varejista do município X.
- Instrumento sugerido: questionário estruturado com o proprietário ou responsável financeiro, cobrindo frequência de registro, separação entre finanças pessoais e da empresa, e uso de ferramentas (planilha, aplicativo, caderno manual).
- Análise (ilustrativa): estatística descritiva das práticas relatadas, cruzada com porte da empresa e tempo de atuação no mercado.
Como o porte muda o problema de gestão
O mesmo tema geral — por exemplo, gestão financeira — assume uma forma diferente conforme o porte da empresa estudada:
- MEI: geralmente não separa formalmente as finanças pessoais das da empresa; o problema de gestão típico é justamente essa separação, e o instrumento de pesquisa costuma explorar práticas informais de controle (caderno, aplicativo de celular, memória).
- Microempresa (ME): já pode ter um ou mais funcionários e alguma divisão de tarefas, mas raramente tem um setor financeiro dedicado; o gestor costuma acumular funções, e o problema de pesquisa pode envolver a adoção (ou não) de ferramentas simples de controle, como planilhas ou softwares de gestão de baixo custo.
- Empresa de pequeno porte (EPP): tende a ter estrutura organizacional mais definida, podendo justificar um estudo sobre processos, delegação de decisões ou profissionalização da gestão — temas raros em empresas menores por falta de estrutura para sustentá-los.
Declarar essa diferença de porte na justificativa do TCC evita a crítica mais comum da banca nesse tipo de trabalho: tratar realidades de gestão muito diferentes como se fossem a mesma coisa só porque todas se enquadram como “pequenas empresas”.
Erros comuns nesse tipo de TCC
- Confundir microempreendedor individual (MEI) com microempresa (ME) — são categorias jurídicas diferentes, com limites de faturamento e obrigações distintas, e a banca costuma cobrar essa precisão.
- Generalizar conclusões de um estudo de caso único para “as pequenas empresas” de um setor inteiro sem reconhecer essa limitação explicitamente.
- Subestimar o tempo de acesso ao campo — donos de pequenos negócios têm agenda apertada, e marcar e remarcar entrevistas costuma consumir mais tempo do que o previsto.
- Tratar dados financeiros da empresa como informação pública — sempre negocie e formalize com o gestor o que pode ser divulgado no trabalho, mesmo que de forma anonimizada.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre MEI, microempresa e empresa de pequeno porte?
O MEI é uma categoria própria para o empreendedor individual com faturamento anual de até R$ 81.000,00. A microempresa (ME) tem receita bruta anual igual ou inferior a R$ 360.000,00, e a empresa de pequeno porte (EPP) fatura entre esse valor e R$ 4.800.000,00 por ano, conforme a Lei Complementar nº 123/2006.
Preciso de autorização formal da empresa para usar os dados no TCC?
Sim, especialmente se o trabalho envolver dados internos da empresa (financeiros, de processos ou de pessoal) ou entrevista com identificação do negócio. Formalize por escrito o que pode ser publicado, mesmo em estudos anonimizados.
É melhor fazer um estudo de caso ou um survey com várias empresas?
Depende do objetivo: o estudo de caso permite profundidade, mas não generaliza; o survey permite descrever um padrão mais amplo, mas exige mais tempo de coleta e uma amostra maior. Escolha o desenho pela pergunta de pesquisa, não pela facilidade de execução.
Onde encontro dados secundários sobre micro e pequenas empresas no Brasil?
O SEBRAE publica estudos e dados por setor e região, e a Receita Federal e as juntas comerciais mantêm registros públicos sobre abertura, porte e situação cadastral das empresas — úteis quando o acesso direto à coleta primária é limitado.
Posso delimitar o TCC a um único setor, como o varejo?
Sim, e geralmente é recomendável: delimitar a um setor específico facilita comparar práticas entre empresas semelhantes e evita generalizações forçadas entre negócios muito diferentes entre si.
Um TCC sobre uma única pequena empresa é aceito como estudo de caso?
Sim, é um desenho comum e aceito, desde que o trabalho reconheça explicitamente que os achados não podem ser generalizados para outras empresas do mesmo porte ou setor sem estudos adicionais.
Redigindo a introdução e a justificativa
Com o setor, o porte e o problema de pesquisa definidos, a introdução do TCC deve encadear esses elementos em ordem: contexto (o peso das MPEs na economia do setor escolhido, sem inventar percentuais sem fonte), delimitação (o recorte de setor, porte e região), problema de pesquisa formulado como pergunta, objetivos e justificativa. O guia de como fazer um TCC de Administração passo a passo detalha a estrutura completa do trabalho, da introdução às considerações finais.
Checklist final antes de fechar a delimitação
Antes de levar a proposta ao orientador, confira se o seu recorte responde a estas cinco perguntas: qual setor? qual porte (MEI, ME ou EPP, ou um recorte que abranja mais de um)? qual área de gestão? qual região ou contexto geográfico? e qual desenho de pesquisa é viável dentro do prazo do TCC? Um recorte que responde às cinco perguntas de forma específica raramente é rejeitado pela banca por falta de delimitação — o problema mais comum nesse tipo de trabalho não é a falta de tema, é o tema amplo demais.
