TCC em Primeira ou Terceira Pessoa em 2026: O Que a Banca Aceita (e o Erro Que Realmente Reprova)

A pergunta chega sempre no mesmo momento: você escreveu três páginas da introdução, releu e percebeu que começou com “eu escolhi este tema porque…”, mudou para “o presente trabalho pretende…” e terminou com “analisamos os dados…”. Três pessoas do discurso em três parágrafos. Antes de continuar, você precisa decidir de uma vez qual delas vai carregar o trabalho inteiro.

A resposta curta: não existe regra da ABNT que obrigue primeira ou terceira pessoa no corpo do TCC. Quem decide é, nesta ordem, o manual do seu curso, a convenção da sua área e a coerência interna do texto. E o erro que realmente custa nota na banca não é escolher “errado” — é misturar.

Por que essa dúvida não tem resposta na ABNT

As normas brasileiras que regem o trabalho acadêmico tratam de forma, não de estilo. A NBR 14724 organiza a estrutura do trabalho (o que vem antes do texto, o que vem depois), a NBR 10520 rege as citações e a NBR 6023 rege as referências. Nenhuma delas prescreve a pessoa gramatical em que você deve redigir os capítulos. Se você procurou por “pessoa do discurso” nesses documentos e não achou nada, não foi falta de atenção: não está lá.

A única frente em que a normalização brasileira historicamente se pronunciou sobre pessoa do discurso é o resumo. Os guias de normalização das bibliotecas universitárias repetem, com poucas variações, a mesma orientação: resumo em parágrafo único, voz ativa e terceira pessoa do singular. É por isso que praticamente todo resumo de TCC brasileiro começa com “Este estudo analisou…” e não com “Eu analisei…”. Vale conferir o guia da sua biblioteca antes de assumir qualquer coisa — como explicamos em o guia sobre o que fazer quando o manual da faculdade contradiz a ABNT, o documento local vence a norma geral sempre que houver conflito.

Fora do resumo, o terreno é da convenção. E convenção varia por área, por programa e às vezes por orientador.

As quatro vozes possíveis (e o que cada uma comunica)

Antes de escolher, entenda que você não tem duas opções, tem quatro. Cada uma produz um efeito diferente na leitura da banca.

1. Primeira pessoa do singular — “eu analisei”

Marca autoria e responsabilidade explícitas. É a forma mais honesta quando a presença do pesquisador é parte do dado: pesquisa etnográfica, observação participante, pesquisa-ação, relatos de prática, memoriais de formação. Fora desses contextos, tende a soar como diário de campo em um texto que deveria ser argumentativo.

2. Primeira pessoa do plural — “analisamos”

É o chamado plural de modéstia. Foi a forma dominante na tradição acadêmica brasileira por décadas e ainda é aceita em quase todo lugar. O problema prático: em um TCC individual, “nós” não tem referente. Bancas mais rigorosas perguntam, com um sorriso, quem é o “nós” da página 34. Se o trabalho tem coautoria — TCC em dupla, artigo com o orientador — o plural deixa de ser modéstia e passa a ser literal, e aí funciona bem.

3. Terceira pessoa com sujeito não humano — “este estudo analisou”

A escolha mais segura para quem não quer arriscar. O sujeito da frase passa a ser o trabalho, a pesquisa, o estudo, a investigação. Mantém a impessoalidade sem cair na passiva infinita. É legível, é aceita em todas as áreas e não obriga você a torcer a sintaxe.

4. Voz passiva e partícula apassivadora — “foram analisados” / “analisou-se”

A forma clássica das ciências exatas, da saúde e das engenharias. Apaga o agente e coloca o procedimento no centro, que é exatamente o efeito desejado em um capítulo de método. Usada em excesso, porém, produz um texto em que nada nunca é feito por ninguém — e, pior, cria ambiguidade metodológica real: “os dados foram coletados” não diz se foi você, um auxiliar ou uma base secundária.

Forma Exemplo Onde funciona bem Risco principal
1ª pessoa singular Entrevistei doze professores. Qualitativa, etnografia, pesquisa-ação, memorial Soar informal fora desses gêneros
1ª pessoa plural Entrevistamos doze professores. Humanas, coautoria real, artigos “Nós” sem referente em trabalho individual
3ª pessoa (sujeito-obra) Este estudo entrevistou doze professores. Todas as áreas; escolha padrão segura Repetição de “este trabalho” a cada parágrafo
Passiva / partícula se Foram entrevistados doze professores. Exatas, saúde, engenharias, método Agente apagado; leitura pesada em série
As quatro vozes disponíveis no texto acadêmico em português e o efeito de cada uma.

O que a sua área provavelmente espera

Não é uma lei, é um padrão observável. Abra três TCCs recentes do seu curso no repositório institucional e você vai reconhecer o padrão da sua área em dez minutos. Como referência inicial:

  • Engenharias, exatas, computação: impessoalidade quase total. Passiva no método, sujeito-obra no restante. Primeira pessoa é rara e chama atenção negativa.
  • Saúde (enfermagem, medicina, odontologia, farmácia): terceira pessoa e passiva, seguindo o padrão dos periódicos da área. O relato segue a lógica do artigo científico, não a do ensaio.
  • Direito: impessoal e formal por tradição. O trabalho jurídico brasileiro raramente admite “eu” fora da apresentação.
  • Administração, contábeis, economia: majoritariamente terceira pessoa; primeira do plural aparece em estudos de caso.
  • Educação, letras, ciências sociais, psicologia: área em que a primeira pessoa mais avançou. Em pesquisa qualitativa, declarar a própria posição não é vaidade — é informação metodológica que o leitor precisa para avaliar o dado.

Se o seu trabalho é qualitativo e a sua inserção no campo influencia o que você observou, esconder-se atrás da passiva não é neutralidade: é omissão de uma variável. Esse ponto costuma aparecer no capítulo de análise e discussão dos resultados, onde a voz do autor precisa aparecer para separar o que o dado mostra do que você interpreta a partir dele.

A regra que importa mais que a escolha: consistência por capítulo

Bancas não reprovam por primeira pessoa. Reprovam por texto que troca de voz sem motivo. E a troca quase sempre acontece nos mesmos lugares, porque cada capítulo foi escrito em uma semana diferente, com uma cabeça diferente.

Um padrão que funciona e que você pode adotar como regra do seu trabalho:

  1. Introdução: sujeito-obra. “Este trabalho investiga…”, “A pesquisa tem por objetivo…”. Aqui a obra fala de si mesma, o que é natural. Veja como isso se encaixa na estrutura completa do TCC na ordem ABNT.
  2. Referencial teórico: terceira pessoa, com os autores como sujeitos das frases. Quem age no capítulo teórico não é você, são as fontes.
  3. Metodologia: passiva ou sujeito-obra em quantitativa; primeira pessoa é defensável em qualitativa, se o curso aceitar. Escolha uma e não volte atrás.
  4. Resultados: impessoal, sempre. Aqui o texto reporta, não opina.
  5. Discussão e considerações finais: onde a voz autoral tem mais espaço legítimo, porque é o único lugar em que você está autorizado a interpretar.

Repare que a variação acima não é inconsistência: é uma escolha declarada, estável dentro de cada capítulo e justificada pela função do capítulo. Inconsistência é alternar dentro do mesmo parágrafo.

Doze conversões prontas: de “eu” para impessoal

Se o seu manual exige impessoalidade e o seu rascunho está em primeira pessoa, a conversão é mecânica. Estes doze pares cobrem quase tudo o que aparece em um TCC:

Primeira pessoa Versão impessoal
Eu escolhi este tema porque… A escolha do tema justifica-se por…
Nós aplicamos um questionário… Foi aplicado um questionário…
Eu percebi que… Observou-se que…
Acredito que os dados mostram… Os dados sugerem que…
Vou apresentar, neste capítulo… Este capítulo apresenta…
Nós entrevistamos 20 participantes. Participaram do estudo 20 entrevistados.
Eu usei o SPSS para analisar… A análise foi conduzida no SPSS…
Achei difícil encontrar fontes… O levantamento encontrou limitações de fontes…
Como eu disse antes… Conforme exposto na seção 2.1…
Eu concluo que… Conclui-se que… / Este estudo conclui que…
Nós não conseguimos medir… Não foi possível mensurar…
Eu recomendo que futuras pesquisas… Recomenda-se que pesquisas futuras…
Conversões diretas de primeira pessoa para registro impessoal, mantendo o mesmo conteúdo.

Uma advertência sobre a conversão automática: substituir todo “eu” por “foi” produz um texto correto e ilegível. Alterne entre passiva, partícula se e sujeito-obra. Três frases passivas seguidas já pesam; cinco, e o leitor perde o fio.

Quatro armadilhas específicas do português acadêmico

O “nós” que ninguém sabe quem é

Em trabalho individual, o plural de modéstia é aceito, mas exige disciplina: ele não pode alternar com “eu” na mesma seção. E cuidado com frases em que o “nós” pode ser lido como “nós, brasileiros” ou “nós, pesquisadores da área”. Se a frase admite duas leituras, reescreva.

A passiva que apaga a responsabilidade metodológica

“Os questionários foram distribuídos” esconde uma informação que a banca quer: distribuídos por quem, presencialmente ou por formulário, com que intervalo? Impessoalidade não autoriza vagueza. Se a passiva estiver escondendo um procedimento, troque por sujeito-obra e nomeie o procedimento.

A concordância que quebra na partícula se

“Analisou-se os dados” é o deslize mais comum do TCC brasileiro. Com a partícula apassivadora, o verbo concorda com o sujeito paciente: analisaram-se os dados, aplicaram-se os questionários, observaram-se diferenças. Se você não quiser lidar com isso, use a passiva analítica (“os dados foram analisados”), que é imune ao problema.

O gerúndio que promete e não entrega

“Estaremos apresentando os resultados no capítulo seguinte” não é impessoalidade, é gerundismo — construção de atendimento telefônico que migrou para o texto acadêmico. A forma é simples: o capítulo seguinte apresenta os resultados. Esse e outros deslizes de registro estão entre os erros mais comuns no TCC que a banca marca em vermelho antes mesmo de discutir o conteúdo.

Como descobrir a regra do seu curso em dez minutos

Você não precisa adivinhar. A informação existe e está em quatro lugares, nesta ordem de autoridade:

  1. Manual ou regulamento de TCC do seu curso. Procure por “impessoal”, “pessoa”, “redação” ou “linguagem”. Muitos manuais têm uma linha explícita sobre isso e ninguém a lê.
  2. Guia de normalização da biblioteca da sua instituição. Costuma ser mais detalhado que o manual do curso e frequentemente traz um item sobre linguagem científica.
  3. Três TCCs recentes do seu curso no repositório institucional. Prefira trabalhos aprovados nos últimos dois anos e, se possível, orientados pelo seu orientador. Isso revela a convenção real, não a declarada.
  4. Seu orientador. Uma pergunta objetiva resolve: “Prefere o trabalho em terceira pessoa ou aceita primeira pessoa do plural? Pergunto para padronizar tudo de uma vez.” Pedir a regra antes de escrever custa um e-mail; pedir depois custa uma revisão completa.

O caso do resumo e do abstract

Mesmo que o corpo do trabalho esteja em primeira pessoa do plural, o resumo em geral permanece impessoal e em parágrafo único, seguindo a orientação que os guias de normalização repetem. Isso não é incoerência: o resumo é um gênero autônomo, escrito para ser lido fora do trabalho, em bases de dados. O mesmo vale para a versão em inglês, onde a convenção internacional varia por área e alguns periódicos hoje preferem we explícito. Se você está montando essa parte agora, vale conferir o passo a passo de como escrever o abstract do TCC antes de traduzir o resumo frase a frase.

Checklist antes da entrega

  • Escolhi uma voz padrão e a declarei para mim mesmo por escrito, no topo do arquivo de rascunho.
  • Busquei “eu ”, “meu”, “minha”, “nós” e “nosso” no documento e conferi cada ocorrência.
  • Nenhum parágrafo alterna entre duas vozes.
  • Toda partícula se apassivadora está com o verbo concordando no plural quando o sujeito é plural.
  • Nenhuma passiva está escondendo quem executou um procedimento do método.
  • Zero gerundismo (“vamos estar apresentando”, “estaremos analisando”).
  • O resumo está impessoal, em parágrafo único, mesmo que o corpo não esteja.

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Perguntas frequentes

A ABNT proíbe o uso de primeira pessoa no TCC?

Não. As normas da ABNT que regem o trabalho acadêmico tratam de estrutura, citações e referências, não de pessoa gramatical no corpo do texto. Quem define a exigência de impessoalidade é o manual de TCC do seu curso, o guia de normalização da sua biblioteca ou a convenção da sua área.

Posso escrever o TCC em primeira pessoa do plural se o trabalho é individual?

Sim, é o chamado plural de modéstia e continua aceito na maior parte dos cursos brasileiros. A condição é consistência: se adotar “nós”, mantenha em todo o trabalho e nunca alterne com “eu”. Se o seu manual exigir impessoalidade explícita, troque por sujeito-obra (“este estudo”) ou por voz passiva.

Qual é a forma mais segura para quem não quer arriscar?

Terceira pessoa com sujeito não humano: “este trabalho analisa”, “a pesquisa investigou”, “o estudo identificou”. É aceita em todas as áreas, mantém a impessoalidade sem exigir voz passiva o tempo todo e produz um texto mais legível que a passiva contínua.

“Analisou-se os dados” está certo?

Não. Com a partícula apassivadora, o verbo concorda com o sujeito paciente, então a forma correta é “analisaram-se os dados”. Se preferir evitar a questão, use a passiva analítica: “os dados foram analisados”, que não exige esse ajuste de concordância.

Posso usar primeira pessoa na metodologia e impessoal no resto?

Pode, desde que seja uma escolha declarada e estável dentro de cada capítulo, e desde que o seu curso não exija impessoalidade integral. Em pesquisa qualitativa, marcar a presença do pesquisador na metodologia é informação metodológica legítima. O que a banca penaliza é a troca de voz sem critério dentro do mesmo parágrafo.

E o resumo, também segue a pessoa do corpo do trabalho?

Normalmente não. Os guias de normalização das bibliotecas universitárias orientam resumo em parágrafo único, voz ativa e terceira pessoa do singular, independentemente da voz adotada no corpo. O resumo é um gênero autônomo, indexado em bases de dados e lido fora do trabalho.

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