Pesquisando Atletas no TCC de Educação Física: Delineamento, Acesso e Instrumentos (2026)

Pesquisar atletas no TCC de Educação Física exige um cuidado que um TCC com a população geral não tem: o acesso depende de terceiros (clube, federação, comissão técnica), o calendário de competições limita quando a coleta pode acontecer, e uma parte relevante dos atletas de base é menor de idade. Este guia trata do delineamento, do acesso institucional e dos instrumentos usados para pesquisar essa população específica.

Por que atletas exigem um delineamento diferente da população geral

Um TCC que pesquisa “praticantes de atividade física” em geral pode recrutar participantes em academias, praças ou pela internet, com pouca dependência de uma instituição intermediária. Já um TCC sobre atletas — de uma modalidade, categoria e nível específicos — depende de autorização de quem administra o treino e a competição: um clube, uma federação estadual, uma comissão técnica ou a coordenação de um centro de treinamento. Sem esse aval, não há acesso à amostra, por mais bem desenhado que seja o instrumento de coleta.

Delimitando a população: modalidade, nível e faixa etária

Antes de procurar a instituição, delimite com precisão quem são os “atletas” do seu estudo. Isso muda o processo de acesso e o instrumento de coleta:

  • Modalidade: esportes coletivos (futebol, vôlei, basquete) costumam ter estrutura de clube; esportes individuais (atletismo, natação, judô) costumam depender mais de federações e treinadores autônomos.
  • Nível competitivo: atletas de base, amadores federados ou profissionais têm processos de autorização bem diferentes — um clube profissional tende a ter um departamento de comunicação ou científico que centraliza pedidos de pesquisa.
  • Faixa etária: categorias de base (sub-15, sub-17, sub-20) envolvem menores de idade, o que acrescenta a exigência de TCLE dos responsáveis e TALE do próprio atleta, além da autorização do clube.

Acesso 1: negociando com clube, federação ou comissão técnica

O primeiro contato deve ser formal e específico: uma carta de apresentação da pesquisa, o objetivo, o instrumento que será aplicado e o tempo que ele consome dos atletas — treinadores costumam recusar pesquisas que competem com o tempo de treino. Negociar a coleta para depois do treino, ou em um dia de reavaliação física já programado pela comissão técnica, aumenta muito a chance de aprovação. Uma carta de anuência assinada pelo responsável técnico ou pela diretoria formaliza esse acesso perante o Comitê de Ética.

Carta de anuência do clube e termo de consentimento prontos para assinatura
A carta de anuência formaliza o acesso perante o clube e o Comitê de Ética.

Acesso 2: atletas menores de idade nas categorias de base

Quando a população inclui atletas menores de 18 anos, o TCC segue a mesma lógica de consentimento em duas camadas de qualquer pesquisa com menores: o TCLE assinado pelo responsável legal e o TALE assinado pelo próprio atleta, em linguagem adequada à idade. Nas categorias de base, isso costuma ser mais fácil de operacionalizar do que em outros contextos, porque o clube já tem contato direto com os responsáveis — mas a autorização do clube não substitui o consentimento da família nem o assentimento do próprio atleta.

Ética: CEP, Plataforma Brasil e o calendário esportivo

Toda pesquisa com atletas como seres humanos precisa de aprovação de um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) via Plataforma Brasil, seguindo a Resolução CNS nº 466/2012 e, quando o estudo se enquadrar nas Ciências Humanas e Sociais, a Resolução CNS nº 510/2016. Uma particularidade desse campo: o protocolo deve prever explicitamente o que acontece se um atleta se lesionar ou for cortado do elenco durante o período de coleta — o CEP costuma pedir essa previsão para desenhos longitudinais que acompanham atletas ao longo de uma temporada. Veja o passo a passo completo em Comitê de Ética em Pesquisa e Plataforma Brasil no TCC.

Instrumentos validados usados com atletas

A escolha do instrumento depende do que o TCC investiga: percepção de esforço, nível de atividade física, prontidão para o exercício ou variáveis antropométricas. A Escala de Borg de Percepção de Esforço, introduzida pelo pesquisador sueco Gunnar Borg na década de 1960 com uma graduação de 6 a 20, é muito usada em estudos de carga de treino justamente por ser rápida de aplicar entre uma série e outra; existe também uma versão posterior de razão de categorias, a escala CR-10. Questionários de nível de atividade física e triagem de prontidão para o exercício também aparecem com frequência nesse tipo de TCC, mas cada um tem finalidade e faixa de aplicação diferentes — o guia de instrumentos para o TCC de Educação Física detalha IPAQ, PAR-Q+ e a própria escala de Borg com o passo a passo de aplicação.

Atleta de categoria de base preenchendo um questionário de percepção de esforço após o treino
A Escala de Borg costuma ser aplicada logo após a sessão de treino, sem interferir na rotina esportiva.

Delineamentos mais usados com população de atletas

  • Transversal: aplica o instrumento uma única vez em um grupo de atletas, útil para descrever um perfil (ex.: nível de esforço percebido em uma categoria específica) sem acompanhar mudança ao longo do tempo.
  • Longitudinal (pré e pós-temporada): aplica o mesmo instrumento em dois ou mais momentos da temporada, exige prever no protocolo do CEP o que fazer com atletas que saem do elenco no meio da coleta.
  • Estudo de caso com uma equipe: aprofunda a análise em uma única equipe ou categoria, trocando abrangência por profundidade — mais fácil de negociar o acesso, porque envolve apenas uma instituição.

Diferença entre pesquisar atletas e pesquisar praticantes recreativos

Vale separar dois públicos que costumam ser confundidos na hora de delimitar o TCC: o praticante recreativo de atividade física (frequentador de academia, corredor amador sem vínculo competitivo) e o atleta federado ou de categoria de base, vinculado a um clube ou federação. O primeiro público é mais fácil de acessar — recrutamento direto, sem intermediário institucional — mas tende a ser mais heterogêneo em volume e intensidade de treino, o que exige instrumentos que capturem essa variação. O segundo público tem uma rotina de treino mais padronizada dentro da mesma categoria, o que facilita a comparação entre atletas, mas exige todo o processo de autorização institucional descrito neste guia. Definir logo no título e no problema de pesquisa qual dos dois públicos está sendo estudado evita ambiguidade na banca sobre a quem os resultados se aplicam.

Gerenciando o relacionamento com o clube durante a coleta

Mesmo com a carta de anuência assinada, manter a coleta andando dentro da rotina de um clube exige atenção contínua. Combine com a comissão técnica um canal único de contato (evitando pedir informação a diferentes pessoas da comissão), avise com antecedência qualquer mudança no cronograma da coleta e evite insistir em datas que coincidam com jogos importantes ou períodos de reavaliação física já sobrecarregados. Ao final da coleta, um retorno simples dos resultados agregados para a comissão técnica — sem identificar atletas individualmente — costuma ser bem recebido e ajuda a manter esse tipo de parceria disponível para outros estudantes do curso no futuro.

Exemplo ilustrativo: do contato com o clube ao TCC concluído

O exemplo abaixo é fictício, criado para mostrar a sequência de decisões — não use como modelo de texto a copiar.

  • Tema: percepção de esforço em atletas de uma categoria sub-17 de futebol ao longo de um mês de pré-temporada.
  • Acesso: carta de apresentação enviada à comissão técnica, aplicação negociada para o fim de cada treino, sem interferir na rotina esportiva.
  • Autorização: carta de anuência do clube, TCLE enviado aos responsáveis e TALE explicado aos atletas.
  • Submissão ao CEP: protocolo prevendo o procedimento caso algum atleta fosse cortado do elenco durante o mês de coleta.
  • Instrumento: Escala de Borg aplicada ao final de cada sessão de treino, registrada em planilha própria.
  • Resultado: perfil de esforço percebido comparado entre as semanas da pré-temporada, sem identificar atletas individualmente no texto final.

Erros comuns nesse tipo de TCC

  • Procurar a comissão técnica sem uma proposta concreta de horário e instrumento, forçando o clube a “adivinhar” o que será pedido.
  • Não prever, no protocolo do CEP, o que fazer com atletas que saem do elenco durante uma coleta longitudinal.
  • Tratar a autorização do clube como suficiente para atletas menores de idade, sem o TCLE dos responsáveis e o TALE do atleta.
  • Escolher um instrumento validado para outra população (ex.: idosos sedentários) sem checar se ele foi validado também para atletas.
  • Agendar a coleta em cima de jogos ou períodos de maior carga de treino, o que reduz a adesão e pode enviesar as respostas.
  • Identificar atletas individualmente no texto final sem necessidade, mesmo quando o clube autorizou a pesquisa como um todo.

Checklist antes de procurar o clube ou a federação

  • A modalidade, o nível competitivo e a faixa etária da população já estão delimitados com precisão?
  • Existe uma proposta concreta de horário e formato de aplicação que não compete com o tempo de treino?
  • O instrumento escolhido foi validado para a população de atletas, e não apenas para a população geral?
  • O protocolo do CEP prevê o que fazer com atletas que saem do elenco durante a coleta?
  • Se houver menores de idade, o TCLE dos responsáveis e o TALE dos atletas já estão redigidos?
  • A carta de anuência do clube ou federação cobre exatamente o que foi negociado, sem exceder o combinado?

Perguntas frequentes

Preciso da autorização da federação, ou basta a do clube?

Depende do nível competitivo — para uma coleta dentro de um único clube, a anuência do clube costuma bastar; para uma amostra que envolve várias equipes de uma competição, a federação pode exigir ser informada ou aprovar o acesso.

Posso pesquisar atletas menores de idade sem autorização dos responsáveis?

Não. A autorização do clube nunca substitui o TCLE assinado pelo responsável legal nem o TALE assinado pelo próprio atleta menor de idade.

A Escala de Borg serve para qualquer modalidade esportiva?

Ela mede esforço percebido de forma geral e é usada em diferentes modalidades, mas a escolha final do instrumento deve considerar o que exatamente o TCC investiga além do esforço percebido.

O que fazer se um atleta sair do time durante a coleta longitudinal?

O protocolo submetido ao CEP deve prever esse cenário com antecedência — geralmente a exclusão dos dados desse atleta das análises que comparam antes e depois, mantendo os dados já coletados até a saída.

Um TCC sobre atletas amadores segue as mesmas regras de um TCC sobre atletas profissionais?

Os requisitos éticos (CEP, TCLE, TALE) são os mesmos, mas o processo de acesso institucional costuma ser mais informal com equipes amadoras e mais burocrático com clubes profissionais, que geralmente têm departamento próprio para aprovar pesquisas.

Posso usar o nome do clube no TCC?

Depende do que for negociado na carta de anuência — alguns clubes preferem ser identificados, outros preferem ser descritos de forma genérica (categoria, modalidade, nível competitivo). Alinhe isso antes da redação final.

Quanto tempo antes da temporada devo procurar o clube?

O quanto antes — negociar o acesso, obter a carta de anuência, submeter ao CEP e aguardar aprovação costuma levar mais tempo do que um cronograma otimista prevê, e a pré-temporada é justamente quando a comissão técnica tem menos disponibilidade.

Revisando o protocolo antes da submissão ao CEP

Antes de submeter, releia o protocolo perguntando: a população (modalidade, nível, faixa etária) está delimitada com a mesma precisão em todos os documentos, ou existe alguma divergência entre a carta de anuência e o instrumento aplicado? o plano para atletas que saem do elenco durante a coleta está descrito, ou foi deixado para decidir depois? o instrumento escolhido tem evidência de validação para essa população específica de atletas? Revisar esses três pontos reduz a chance de o CEP devolver o protocolo com pendências.

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