Pesquisa-Ação e Pesquisa Participante em 2026: Como Aplicar no TCC (Thiollent, com Exemplos)
Seu orientador sugeriu pesquisa-ação metodologia para o seu TCC e você não sabe se isso significa apenas “conversar com as pessoas” ou se existe um método formal por trás disso. Existe, e ele tem nome, autor e etapas bem definidas: Michel Thiollent, referência brasileira no tema, define a pesquisa-ação como uma investigação social de base empírica concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo, no qual pesquisadores e participantes representativos da situação estão envolvidos de modo cooperativo.
O problema é que muitos estudantes confundem pesquisa-ação com pesquisa participante, tratam as duas como sinônimos na banca e recebem correção por isso. As diferenças são sutis, mas decisivas para a coerência metodológica do seu capítulo de metodologia. Este artigo separa os dois conceitos, apresenta as fases de Thiollent e mostra como aplicar cada uma em exemplos reais de Educação e Serviço Social.
O que é pesquisa-ação segundo Thiollent
Michel Thiollent formalizou, em Metodologia da Pesquisa-Ação, o conceito que hoje orienta grande parte dos TCCs brasileiros que lidam com intervenção social. Para ele, a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica, concebida e realizada em associação estreita com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo, no qual pesquisadores e participantes representativos da situação estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.
Três elementos definem esse tipo de pesquisa:
- Base empírica: os dados vêm da realidade observada, não apenas da teoria.
- Associação com a ação: a investigação não termina em diagnóstico — ela produz e acompanha uma intervenção.
- Participação cooperativa: pesquisador e participantes constroem juntos o conhecimento sobre o problema, o que muda a estrutura de comunicação entre o universo acadêmico e o universo prático.
Diferente de um estudo de caso puramente descritivo — que você pode aprofundar em estudo de caso e o método de Yin — a pesquisa-ação pressupõe que o pesquisador não é neutro: ele participa ativamente da situação-problema, planeja intervenções e avalia seus efeitos junto ao grupo estudado.
O que é pesquisa participante
A pesquisa participante é um gênero mais amplo. Ela busca o envolvimento da comunidade estudada na análise da própria realidade, desenvolvendo-se a partir da interação entre pesquisador e sujeitos investigados. Historicamente, ela surge vinculada a movimentos sociais e à educação popular, com um compromisso que vai além da produção acadêmica: trata-se de fortalecer a capacidade dos grupos de compreender e transformar sua própria condição.
Enquanto a pesquisa-ação mantém uma preocupação explícita com a objetividade científica e costuma seguir etapas mais estruturadas de planejamento e avaliação, a pesquisa participante tem um caráter mais militante e menos ligado a um desenho metodológico fixo — o foco está na mobilização e na conscientização, não necessariamente numa intervenção planejada e mensurável.
Vídeo: explicação e exemplo prático de como aplicar a pesquisa-ação no seu trabalho acadêmico.
Pesquisa-ação vs. pesquisa participante: a diferença real
A confusão entre os dois termos existe porque eles compartilham a premissa da participação ativa dos sujeitos. Mas a relação entre eles não é de equivalência — é de continência: a pesquisa-ação é uma forma de pesquisa participante, mas nem toda pesquisa participante é pesquisa-ação.
| Critério | Pesquisa-ação | Pesquisa participante |
|---|---|---|
| Orientação principal | Acadêmica, com rigor metodológico e objetividade científica | Mais militante, ligada a movimentos sociais e educação popular |
| Papel do pesquisador | Participação planejada na situação-problema investigada | Envolvimento direto na mobilização e conscientização do grupo |
| Estrutura | Fases reconhecíveis (exploratória, planejamento, ação, avaliação) | Menos formalizada, guiada pela dinâmica da comunidade |
| Objetivo final | Resolver um problema coletivo e gerar conhecimento acadêmico sobre o processo | Fortalecer a capacidade do grupo de compreender e transformar sua realidade |
Na prática, para um TCC de graduação, a diferença mais relevante para a banca é a seguinte: se você planeja fases explícitas de diagnóstico, ação e avaliação, com registro sistemático, você está fazendo pesquisa-ação. Se o seu compromisso é essencialmente com a mobilização de um grupo em torno de uma pauta, sem uma intervenção estruturada e mensurável, você está mais próximo da pesquisa participante em sentido amplo. Para ver essa distinção discutida ao lado de outras abordagens qualitativas avançadas (como grounded theory e etnografia), veja Metodologia Qualitativa Avançada: Grounded Theory, Etnografia e Investigação-Ação.
Quando usar cada uma no TCC
Escolha pesquisa-ação quando:
- Você tem acesso a uma organização, escola, serviço público ou comunidade disposta a colaborar ativamente.
- Existe um problema concreto que pode ser diagnosticado, tratado com uma intervenção e reavaliado dentro do prazo do TCC.
- Seu orientador aceita um desenho de pesquisa não linear, no qual o percurso metodológico se ajusta conforme a intervenção avança.
- Você precisa produzir conhecimento aplicável, não apenas descrever uma realidade.
Escolha pesquisa participante (em sentido mais amplo) quando:
- O foco é dar voz e protagonismo a um grupo em relação à sua própria condição, sem necessariamente estruturar uma intervenção formal.
- O trabalho tem vínculo com extensão universitária, educação popular ou mobilização comunitária.
- Você não tem controle total sobre etapas e cronograma, pois o processo é conduzido em conjunto com a comunidade.
Se o seu tema pede comparação entre grupos ou mensuração de efeito, avalie também se uma abordagem mista não seria mais adequada — o artigo sobre métodos mistos e os desenhos de Creswell mostra como combinar dados qualitativos de intervenção com indicadores quantitativos de resultado.
As quatro fases da pesquisa-ação (Thiollent)
Thiollent estrutura a pesquisa-ação em quatro fases centrais, mas faz uma ressalva importante: o processo não segue uma sequência temporal rígida. O que acontece entre o início e o fim é determinado pelas circunstâncias diagnosticadas ao longo do trabalho, o que torna a pesquisa-ação um sistema aberto.
1. Fase exploratória
É o momento de descoberta do campo de pesquisa, de conhecimento dos interessados e de suas expectativas. Aqui você mapeia os atores envolvidos, identifica o problema percebido pelo grupo e negocia o acesso e a colaboração necessários para a intervenção.
2. Fase de planejamento
Com o problema delimitado, você define os objetivos da ação, os instrumentos de coleta de dados que serão usados durante a intervenção (entrevistas, observação participante, grupos focais) e o cronograma da intervenção propriamente dita.
3. Fase de ação (execução)
A intervenção planejada é implementada junto ao grupo. O pesquisador registra sistematicamente o que ocorre — reuniões, oficinas, mudanças de rotina, reações dos participantes — pois esses registros serão a base da análise posterior.
4. Fase de avaliação e divulgação dos resultados
Os efeitos da ação são avaliados em conjunto com os participantes, e os resultados são sistematizados tanto para a comunidade envolvida quanto para o meio acadêmico (o próprio TCC). Essa etapa costuma revelar novos problemas, que podem gerar um novo ciclo de pesquisa-ação.
Exemplo aplicado: TCC de Educação
Imagine um TCC de Pedagogia sobre indisciplina em turmas do Ensino Fundamental II. Na fase exploratória, a pesquisadora observa as aulas, conversa informalmente com professores e estudantes e identifica que a indisciplina está associada à ausência de espaços de escuta dos alunos. Na fase de planejamento, ela define, junto com a coordenação pedagógica, a implantação de rodas de conversa semanais como intervenção, além de instrumentos de registro (diário de campo e roteiro de observação). Na fase de ação, as rodas são conduzidas ao longo de um bimestre, com registros das falas e das mudanças de comportamento. Na fase de avaliação, professores e estudantes avaliam em conjunto os efeitos percebidos, e a pesquisadora sistematiza os resultados no capítulo de análise do TCC, discutindo tanto os ganhos quanto os limites da intervenção.
Esse desenho evidencia o que diferencia a pesquisa-ação de uma simples pesquisa exploratória: existe uma intervenção deliberada, planejada em cooperação com o grupo, não apenas uma descrição do fenômeno. Se seu TCC ainda está na fase de decidir a natureza da investigação, vale comparar com os tipos descritos em pesquisa exploratória, descritiva e explicativa antes de fechar o desenho metodológico.

Exemplo aplicado: TCC de Serviço Social
Em um TCC de Serviço Social sobre a permanência de famílias em um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), a pesquisa-ação pode começar com a fase exploratória mapeando os motivos de evasão dos atendimentos, a partir de entrevistas com assistentes sociais e famílias usuárias. Na fase de planejamento, a equipe e o pesquisador definem uma ação conjunta — por exemplo, a reorganização do fluxo de agendamento e a criação de um grupo de acolhimento inicial. Na fase de ação, essa reorganização é implementada e acompanhada durante semanas, com registros de frequência e de relatos das famílias. Na fase de avaliação, os dados de permanência e os relatos coletados são discutidos com a equipe do CRAS, gerando recomendações que constam no capítulo final do TCC.
Esse tipo de desenho é frequente em Serviço Social porque a profissão já trabalha com intervenção como parte da prática cotidiana — a pesquisa-ação apenas formaliza essa intervenção como objeto de investigação científica, com coleta e análise sistemáticas.
Como redigir o capítulo de metodologia
Ao descrever pesquisa-ação no capítulo de metodologia do TCC, inclua obrigatoriamente:
- Justificativa da escolha: por que a pesquisa-ação (e não outro delineamento) é adequada ao seu problema de pesquisa.
- Caracterização do campo e dos participantes: quem são os envolvidos, como foi negociado o acesso e qual o papel de cada parte na intervenção.
- Descrição das quatro fases aplicadas ao seu caso específico, com cronograma real (não apenas teórico).
- Instrumentos de coleta usados em cada fase (diário de campo, entrevistas, observação participante, questionários).
- Procedimentos de análise dos dados gerados pela intervenção — muitas pesquisas-ação recorrem à análise de conteúdo para tratar entrevistas e diários de campo, tema aprofundado em análise de conteúdo de Bardin.
- Limitações do desenho, incluindo o fato de que os resultados não são generalizáveis a outros contextos, já que dependem das condições específicas do campo estudado.
Se o problema exige delimitar quem participou da intervenção — turma, unidade, equipe —, vale revisar como descrever critérios de seleção em população e amostra no TCC, adaptando a linguagem para “participantes” em vez de “amostra estatística”, já que a pesquisa-ação normalmente não busca representatividade populacional.
Redigir esse capítulo com precisão metodológica é o ponto em que muitos estudantes travam — organizar fases, instrumentos e cronograma de forma coerente exige tempo que nem sempre sobra perto do prazo de entrega. Ferramentas como o Tesify podem ajudar a estruturar esse capítulo a partir dos dados de campo que você já coletou, sem substituir a análise crítica que só você pode fazer sobre a sua intervenção.
Erros mais comuns na banca
- Chamar de “pesquisa-ação” um trabalho sem intervenção real: se não houve uma ação planejada e executada junto ao grupo, o desenho correto provavelmente é outro (exploratório ou estudo de caso).
- Confundir pesquisa-ação com pesquisa participante sem justificar a escolha do termo mais preciso para o seu desenho.
- Ignorar a ética da intervenção: alterar a rotina de um grupo (escola, serviço, comunidade) exige cuidado ético redobrado e, na maioria dos casos, aprovação de Comitê de Ética em Pesquisa.
- Tratar as fases como um roteiro fixo: a banca valoriza quando o estudante reconhece os ajustes feitos ao longo do processo, já que a própria literatura descreve a pesquisa-ação como um sistema aberto.
- Buscar generalização estatística dos resultados, quando o valor da pesquisa-ação está na transformação do contexto específico estudado, não na representatividade de uma população maior.
Perguntas frequentes
Pesquisa-ação é qualitativa ou quantitativa?
A pesquisa-ação é predominantemente qualitativa, pois prioriza a compreensão da situação-problema e a colaboração entre pesquisador e participantes, mas pode incorporar dados quantitativos como parte do diagnóstico.
Pesquisa-ação é a mesma coisa que pesquisa participante?
Não. A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa participante, mas nem toda pesquisa participante é pesquisa-ação. A pesquisa-ação mantém compromisso com a objetividade acadêmica e a resolução de um problema definido; a pesquisa participante tem caráter mais militante, ligado à mobilização de comunidades e movimentos sociais.
Quando devo escolher pesquisa-ação para o meu TCC?
Escolha pesquisa-ação quando seu TCC envolve intervir em um problema concreto de uma organização, escola, comunidade ou serviço, com participação ativa dos envolvidos, e quando o orientador aceita um desenho não linear de investigação.
Quais são as fases da pesquisa-ação segundo Thiollent?
Thiollent estrutura a pesquisa-ação em quatro fases centrais: fase exploratória, fase de planejamento, fase de ação (execução) e fase de avaliação e divulgação dos resultados, sem uma sequência temporal rígida entre elas.
A pesquisa-ação exige aprovação de comitê de ética?
Na maioria dos casos em que envolve seres humanos, sim. Consulte o Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da sua instituição antes de iniciar a coleta, especialmente em pesquisas na área da Saúde e do Serviço Social.
Posso usar pesquisa-ação em um TCC individual, sem equipe?
Sim, mas é preciso negociar acesso e participação ativa do grupo estudado (escola, empresa, comunidade), já que a pesquisa-ação depende da cooperação dos envolvidos e não apenas da observação do pesquisador.
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