A metodologia do TCC de Odontologia quase sempre se encaixa em um de três formatos: o estudo in vitro ou laboratorial, que testa materiais ou técnicas sem envolver pacientes; o relato de caso clínico, que descreve o diagnóstico e o tratamento de um paciente real; e o levantamento epidemiológico ou observacional, que mede a prevalência de uma condição numa população. A escolha certa depende menos de preferência pessoal e mais de três fatores concretos: se você tem acesso a um laboratório com os materiais necessários, se você tem acesso a pacientes ou prontuários com autorização, e quanto tempo resta até a entrega — porque o comitê de ética muda o cronograma de forma diferente para cada formato. Para o panorama geral do curso antes de entrar na metodologia, vale a leitura de como fazer TCC de Odontologia.

Os três formatos mais comuns no TCC de Odontologia
Estudo in vitro ou laboratorial testa um material, uma técnica ou uma propriedade física fora de um organismo vivo — resistência de um cimento resinoso, rugosidade de superfície após um tipo de polimento, microinfiltração de uma restauração. Não envolve pacientes, o que simplifica bastante a tramitação ética, mas exige acesso a um laboratório equipado e domínio do protocolo experimental.
Relato de caso clínico descreve, com profundidade, o atendimento de um paciente real: anamnese, exame clínico, diagnóstico, plano de tratamento, execução e acompanhamento, discutido à luz da literatura. É o formato mais acessível para quem já atende em clínica-escola, mas exige termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) do paciente e, quando há fotografia clínica, um termo específico de autorização de uso de imagem.
Levantamento epidemiológico ou observacional mede a prevalência ou a associação entre variáveis numa população — cárie em escolares de uma rede municipal, uso de fio dental entre universitários, acesso a tratamento endodôntico numa unidade básica de saúde. Exige planejamento amostral, um instrumento de coleta (questionário ou ficha de exame clínico padronizado) e, normalmente, aprovação do comitê de ética por envolver seres humanos em maior escala.
Comparação rápida entre os três formatos
| Critério | In vitro | Relato de caso | Levantamento |
|---|---|---|---|
| Envolve paciente | Não | Sim, um | Sim, vários |
| Comitê de ética (CEP) | Normalmente dispensado | Obrigatório (Plataforma Brasil) | Obrigatório (Plataforma Brasil) |
| Maior exigência técnica | Protocolo experimental replicável | Justificativa clínica com literatura | Cálculo amostral e instrumento validado |
| Risco de atraso | Falta de material ou equipamento | Disponibilidade e consentimento do paciente | Tramitação do CEP e carta de anuência da instituição |
Como decidir qual formato usar
- Você tem acesso a um laboratório com o material que quer testar? Se sim e o prazo é curto, o in vitro costuma ser o caminho mais rápido, porque não depende de aprovação de comitê de ética em pesquisa com seres humanos.
- Você já atende (ou atendeu) um paciente com um caso clinicamente relevante? Um caso bem documentado, com exames completos e evolução registrada, sustenta um relato de caso consistente — mas só avance se o paciente concordar em assinar o TCLE e, se houver fotos, o termo de uso de imagem.
- Você quer medir algo numa população, não descrever um caso? Então o levantamento é o formato certo — mas reserve tempo real para a tramitação no comitê de ética, que costuma ser a etapa mais lenta do cronograma desse formato.
- Quanto tempo resta até a entrega? Levantamentos com coleta em instituição de terceiros (escola, posto de saúde) dependem de carta de anuência da instituição além da aprovação do comitê — são os que mais atrasam quando deixados para o fim do curso.
Comitê de ética: o que muda entre os três formatos
A Resolução CNS nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde regula toda pesquisa que envolve seres humanos, direta ou indiretamente — isso inclui o relato de caso clínico e o levantamento epidemiológico, mesmo quando os dados vêm de prontuário e não de um novo procedimento. A submissão é feita pela Plataforma Brasil, e o prazo de análise varia por comitê, o que é exatamente por que deixar essa etapa para o fim do cronograma é o erro mais comum nesses dois formatos.
O estudo in vitro, por não envolver pacientes, normalmente dispensa a aprovação do comitê de ética em pesquisa com seres humanos — mas pode precisar de autorização do laboratório ou de um comitê de biossegurança, dependendo do material manipulado. Confirme a exigência específica da sua instituição antes de assumir que o in vitro dispensa qualquer trâmite.
Em qualquer um dos três formatos que envolva imagem de paciente — fotografia intraoral, radiografia identificável, foto de face — o uso dessa imagem no TCC é regido também pelo Código de Ética Odontológica (Resolução CFO nº 118/2012, com as alterações da Resolução CFO nº 271/2025), que trata do sigilo profissional e da autorização do paciente para uso de registros clínicos, além da exigência específica de consentimento para imagem no TCLE da pesquisa. Anonimizar corretamente os dados do paciente na redação — trocar nome por iniciais fictícias, remover datas identificáveis — evita também um problema de integridade acadêmica, tratado com mais profundidade em como evitar plágio no TCC, já que copiar trechos de prontuário sem paráfrase própria também configura uso inadequado de fonte.

Estudo in vitro: o que a banca espera
Na seção de materiais e métodos, a banca de um estudo in vitro cobra precisão técnica: marca comercial e lote dos materiais, número de espécimes por grupo (e a justificativa desse número, ainda que baseada em estudos anteriores semelhantes), protocolo de preparo padronizado, equipamento e parâmetros de teste, e o teste estatístico usado para comparar os grupos. A reprodutibilidade é o critério central — um leitor deveria conseguir refazer o experimento só com o que está descrito no capítulo de metodologia.
Relato de caso clínico: o que a banca espera
A estrutura esperada segue a lógica clínica: identificação (anonimizada) e queixa principal, anamnese e histórico médico e odontológico relevante, exame clínico e exames complementares (radiografias, fotografias, quando autorizadas), diagnóstico e diagnóstico diferencial, plano de tratamento com a justificativa das escolhas, descrição da execução clínica etapa por etapa, e acompanhamento com os resultados observados no retorno. A discussão precisa comparar a conduta adotada com o que a literatura recomenda para casos semelhantes — não basta narrar o atendimento, é preciso justificá-lo teoricamente.
Levantamento epidemiológico: o que a banca espera
Aqui a banca cobra rigor amostral: como a amostra foi calculada (tamanho da população, margem de erro, nível de confiança), como os participantes foram selecionados, qual instrumento foi usado (questionário validado ou ficha de exame clínico com critérios padronizados, como os índices CPOD ou ceo-d quando o tema é cárie) e como os dados foram analisados — prevalência simples, associação entre variáveis com qui-quadrado, ou regressão quando há múltiplos fatores. A calibração do examinador, quando o levantamento envolve exame clínico direto, também costuma ser cobrada: como você garantiu que classificaria os casos de forma consistente do primeiro ao último participante.
Como a escolha do formato afeta o capítulo de resultados
O formato escolhido na metodologia determina como o capítulo de resultados vai ser estruturado, e vale planejar isso com antecedência. Um estudo in vitro apresenta resultados em tabelas e gráficos comparando grupos, com o valor de p do teste estatístico. Um relato de caso apresenta resultados de forma narrativa e cronológica, com imagens do antes e do depois quando autorizadas, sem estatística inferencial. Um levantamento apresenta resultados em tabelas de frequência e, quando há associação entre variáveis, tabelas cruzadas com o teste de significância correspondente. Descobrir isso só na hora de escrever os resultados é um dos motivos mais comuns de retrabalho — melhor decidir o formato da apresentação junto com o formato da metodologia, ainda no pré-projeto pela estrutura da NBR 14724:2024.
Um parágrafo de metodologia já redigido (relato de caso, ilustrativo)
“O presente estudo caracteriza-se como um relato de caso clínico, de abordagem descritiva e qualitativa. O paciente, identificado neste trabalho por iniciais fictícias para preservar o sigilo, foi atendido na clínica-escola da instituição, tendo assinado o termo de consentimento livre e esclarecido e o termo de autorização de uso de imagem, em conformidade com a Resolução CNS nº 466/2012 e com o Código de Ética Odontológica. Os dados foram coletados por meio de anamnese, exame clínico e exames radiográficos complementares, e a discussão foi fundamentada em literatura nacional e internacional publicada nos últimos dez anos.” Esse parágrafo é um modelo estrutural com dados fictícios — adapte cada elemento ao seu caso real e ao que o seu orientador exige. Para a formatação final das referências citadas na discussão, o guia completo das normas ABNT vigentes em 2026 cobre estrutura, citação e referências pela NBR 6023:2025 e pela NBR 10520:2023.
Perguntas frequentes
Posso trocar de formato no meio do TCC se o comitê de ética demorar demais?
Em teoria sim, mas é uma decisão que custa tempo e deve ser conversada com o orientador antes de qualquer mudança — migrar de um levantamento para um in vitro, por exemplo, significa recomeçar boa parte do referencial teórico e da metodologia. É mais seguro submeter ao comitê de ética assim que o pré-projeto for aprovado do que tentar antecipar um atraso.
O relato de caso precisa de aprovação do comitê de ética mesmo sendo um único paciente?
Sim, na maioria das instituições. A Resolução CNS nº 466/2012 não isenta a pesquisa pelo tamanho da amostra — um único paciente já caracteriza pesquisa envolvendo seres humanos quando os dados serão publicados ou defendidos publicamente, e por isso passa pela Plataforma Brasil como qualquer outro formato.
Preciso de comitê de ética para um estudo in vitro que usa apenas dentes extraídos?
Depende da instituição e da origem dos dentes. Quando os dentes vêm de um banco de dentes humanos da própria faculdade, muitas instituições exigem ao menos uma declaração do responsável pelo banco e, em alguns casos, submissão simplificada ao comitê de ética, já que dentes extraídos de humanos ainda são material biológico humano. Confirme a exigência específica com o seu orientador e com a secretaria do comitê antes de assumir que o in vitro está isento.
Qual formato é mais rápido de concluir?
Em geral, o estudo in vitro tende a ter o cronograma mais curto, por não depender da tramitação de comitê de ética em pesquisa com seres humanos — mas isso só vale se você já tiver acesso garantido ao laboratório e aos materiais. Um levantamento ou relato de caso com acesso fácil a pacientes ou dados pode, na prática, ser mais rápido do que um in vitro que depende de reagentes ou equipamento em falta.
O levantamento epidemiológico precisa de carta de anuência além da aprovação do comitê de ética?
Sim, quando a coleta acontece dentro de uma instituição de terceiros — uma escola, uma unidade básica de saúde, um posto de atendimento. A carta de anuência do responsável pela instituição normalmente entra como anexo do próprio processo na Plataforma Brasil, e sem ela o comitê nem chega a analisar o restante do projeto.
