O TCC de Design tem uma particularidade que gera dúvida em quase todo aluno: ele pode ser um trabalho teórico convencional ou um projeto com artefato de design, documentado por um memorial descritivo — e a escolha certa depende do que o seu curso aceita e do que a sua trajetória de pesquisa pede. Este guia cobre os dois formatos, como estruturar o memorial quando o trabalho é um projeto, como documentar o processo projetual etapa por etapa, o cronograma típico e o que compõe o portfólio de defesa.
Os dois formatos de TCC de Design
A maioria dos cursos de Design no Brasil aceita dois formatos de TCC, e a escolha entre eles muda toda a estrutura do trabalho:
- Projeto com artefato de design — o mais comum na área. O aluno desenvolve um produto, sistema, identidade visual, interface, embalagem ou serviço, documentado por um memorial descritivo que registra o processo do briefing à solução final. Aqui, “pesquisar através do projetar” é o próprio método.
- Pesquisa teórica — um trabalho de investigação sem artefato como entrega central: análise de tendências, história do design, comportamento do usuário, crítica de design, entre outros. Segue mais de perto a estrutura de um TCC de Ciências Humanas, com revisão de literatura, metodologia de análise e discussão.
Confirme com o colegiado qual formato o seu curso aceita e se há um regulamento específico do TCC de Design — muitos cursos publicam um manual próprio, além da ABNT NBR 14724:2024, justamente porque o formato de projeto exige adaptações que a norma genérica não cobre completamente.

Como estruturar o memorial descritivo
O memorial descritivo é o documento textual que acompanha o artefato e explica, com rigor acadêmico, as decisões de projeto — sem ele, o artefato sozinho não é um TCC, é só um trabalho de conclusão de curso sem fundamentação. A estrutura mais usada segue esta lógica:
- Briefing e problema de design. Qual problema o projeto resolve, para quem, e por que ele importa — com base em pesquisa, não em intuição pessoal.
- Pesquisa e referencial teórico. Os conceitos, autores e projetos referenciais (benchmarking) que embasam as decisões — sim, o TCC de Design tem referencial teórico, mesmo sendo um projeto.
- Metodologia projetual. Qual método guiou o processo (Design Thinking, Double Diamond, metodologia de Bruno Munari, UCD — Design Centrado no Usuário, entre outros) e por que ele foi escolhido para este problema específico.
- Desenvolvimento do processo — do conceito às alternativas, com justificativa de cada decisão, não apenas a exibição do resultado (a seção seguinte detalha isso).
- Solução final — apresentação do artefato acabado, com especificações técnicas (materiais, dimensões, paleta, tipografia, tecnologia envolvida, conforme o tipo de projeto).
- Validação — como a solução foi testada: teste de usabilidade, feedback de usuários-alvo, avaliação por pares, protótipo funcional testado em contexto real, entre outros métodos, proporcional ao tempo e recursos disponíveis.
- Considerações finais — limitações do projeto, o que ficaria diferente com mais tempo ou recursos, e desdobramentos possíveis.
Como documentar o processo projetual
O erro mais comum do memorial descritivo é mostrar só o resultado final, como se a solução tivesse surgido pronta. A banca de Design avalia justamente o raciocínio — por isso, documentar o processo importa tanto quanto documentar a solução:
- Registre alternativas descartadas, não só a escolhida. Duas ou três alternativas de conceito, com uma justificativa objetiva de por que a solução final venceu, mostram maturidade de decisão — que é exatamente o que separa um “achismo” de uma escolha projetual fundamentada.
- Fotografe ou capture cada etapa — esboços, wireframes, protótipos de baixa e alta fidelidade, testes de material. Uma linha do tempo visual do processo é mais convincente do que qualquer parágrafo descrevendo “o processo foi iterativo”.
- Conecte cada decisão à pesquisa ou ao briefing. “Optei pela cor azul” é insuficiente; “a cor azul foi escolhida por associação a confiança e tecnologia, conforme referência de psicologia das cores ou benchmarking do setor, e por diferenciação da concorrência direta identificada no levantamento” é o nível de justificativa que a banca busca.
- Não esconda os problemas encontrados no meio do caminho. Um protótipo que falhou no teste de usabilidade e foi redesenhado é, na verdade, um ponto forte do memorial — mostra método, não fraqueza.

Quando o TCC é pesquisa teórica, não projeto
Se o seu curso aceita — ou se você opta por — um TCC de pesquisa teórica em Design, a estrutura se aproxima mais da lógica de humanas: introdução com problema e objetivos, referencial teórico consistente, metodologia de análise (análise de discurso, análise de conteúdo, estudo de caso, análise comparativa de peças ou sistemas de design), apresentação e discussão dos resultados, considerações finais. A diferença central para o formato de projeto é que aqui não há artefato a validar — o “resultado” é a interpretação construída a partir do corpus analisado (peças gráficas, produtos, entrevistas, dados de uso).
Um erro comum nesse formato é tratar a análise de peças de design de forma puramente descritiva (“o cartaz usa a cor vermelha e tipografia sem serifa”) sem conectar essas escolhas a um referencial teórico que explique o porquê e o efeito pretendido — a mesma armadilha descritiva do formato de projeto, só que aplicada à análise em vez do processo.
Cronograma típico e quando começar
O TCC de projeto costuma exigir mais tempo de execução do que o TCC teórico equivalente, porque envolve ciclos de prototipagem e teste que não podem ser comprimidos sem perder qualidade. Uma distribuição típica ao longo de um semestre:
- Primeiras semanas: definição do problema, briefing e pesquisa inicial (benchmarking, público-alvo, referencial teórico preliminar).
- Fase intermediária: geração de alternativas, prototipagem de baixa fidelidade, primeira rodada de validação com o público-alvo ou orientador.
- Fase de refinamento: prototipagem de alta fidelidade, ajustes a partir do feedback, segunda rodada de validação se o cronograma permitir.
- Últimas semanas: redação final do memorial, revisão de formatação ABNT, preparo do portfólio de defesa e ensaio da apresentação.
O erro de cronograma mais comum é dedicar tempo demais à fase de exploração de alternativas e pouco à redação do memorial — o resultado costuma ser um projeto visualmente forte, mas com um documento escrito às pressas, que não reflete a qualidade do processo real.
O que entra no portfólio de defesa
Além do documento textual entregue (memorial ou monografia), a defesa de TCC de Design costuma exigir uma apresentação visual complementar — não uma repetição em slides do memorial, mas uma síntese visual pensada para os poucos minutos da banca:
- Peça física ou protótipo, quando aplicável — muitas bancas de Design esperam ver e manusear o objeto, não só slides dele.
- Board de processo — um resumo visual do briefing à solução, pensado para ser compreendido rapidamente, sem depender da leitura do memorial completo.
- Peças finais em alta qualidade — mockups realistas, fotografias do protótipo em contexto de uso, ou renderizações, conforme o tipo de projeto.
- Registro do processo de validação — capturas de tela ou fotos do teste de usabilidade, gráfico simples de feedback, se houver.
Confirme com antecedência o formato de apresentação exigido pela sua instituição (slides, banner impresso, peça física na sala) — isso muda o que vale a pena preparar com mais cuidado.
Os erros que a banca de Design mais cobra
- Memorial sem referencial teórico. Um projeto de design ainda é um trabalho acadêmico — decisões precisam de fundamentação, não só de intuição estética.
- Mostrar só o resultado, sem o processo. É o erro mais citado por bancas de Design em todo o país — a ausência de alternativas descartadas e da justificativa de escolha.
- Validação inexistente ou informal demais. “Mostrei para alguns amigos e gostaram” não é validação documentada — mesmo um teste simples, com metodologia declarada, vale mais.
- Especificações técnicas incompletas na solução final. Medidas, materiais, paleta com códigos de cor, tipografia com nome da fonte — a ausência desses detalhes sugere um trabalho inacabado, mesmo quando o resultado visual está pronto.
- Confundir portfólio profissional com portfólio acadêmico de defesa. O portfólio de defesa precisa demonstrar rigor de processo e fundamentação, não apenas potência estética — os dois objetivos não são incompatíveis, mas exigem ênfases diferentes.
Para a formatação do documento textual — margens, espaçamento, elementos pré-textuais obrigatórios —, siga a estrutura completa do TCC pela ABNT NBR 14724. Se o seu projeto pede validação do artefato como resultado de pesquisa formal, o método de Design Science Research detalha como avaliar um artefato com critérios definidos a priori. E, para medir se o seu tema ainda tem espaço de pesquisa antes de fechar o recorte, veja como usar a BDTD para justificar o tema do TCC de Design.
Perguntas frequentes
Todo TCC de Design precisa ter um artefato físico ou digital?
Não. Muitos cursos aceitam também o formato de pesquisa teórica, sem artefato central. Confirme com o colegiado do seu curso qual formato é aceito e se há preferência ou exigência para o seu caso.
O memorial descritivo substitui a introdução e a metodologia de um TCC comum?
Ele incorpora essas partes de forma adaptada: o memorial normalmente tem uma seção de briefing/problema (equivalente à introdução), uma seção de metodologia projetual (equivalente ao capítulo de método) e o desenvolvimento do processo até a solução final (equivalente aos resultados). A estrutura textual pré e pós-textual (capa, folha de rosto, sumário, referências) segue a ABNT normalmente.
Preciso apresentar o protótipo físico na defesa?
Depende da instituição e do tipo de projeto. Quando o protótipo é viável de transportar, a maioria das bancas de Design prefere vê-lo e manuseá-lo. Quando não é viável (um sistema digital, uma identidade visual aplicada a múltiplos pontos de contato), fotografias, mockups e registros de uso substituem a peça física.
Como escolho entre Design Thinking, Double Diamond e outras metodologias projetuais?
Escolha pela adequação ao tipo de problema, não pela popularidade do método. Double Diamond funciona bem para projetos que exigem alternância clara entre divergência e convergência (identidade visual, produto); metodologias centradas no usuário (UCD) se encaixam melhor quando o problema é essencialmente de experiência de uso. Justifique a escolha no memorial, com base no que o método oferece para o seu problema específico.
Um TCC de Design pode ser reprovado só pela estética do resultado?
Raramente apenas por isso — a maioria das bancas avalia processo, fundamentação e validação com peso pelo menos igual ao resultado visual. Um projeto esteticamente forte mas sem processo documentado tende a ser mais penalizado do que um projeto mais simples, mas com processo bem justificado.
Quanto tempo antes da entrega devo começar a prototipagem de alta fidelidade?
Como referência geral, reserve a segunda metade do cronograma disponível para prototipagem de alta fidelidade e validação, deixando as últimas semanas livres para a redação final do memorial e o preparo do portfólio de defesa — começar a prototipagem de alta fidelidade tarde demais é a causa mais comum de memoriais escritos às pressas.
