A Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), mantida pelo IBICT, reúne mais de um milhão de registros de teses e dissertações de praticamente todas as instituições brasileiras de pós-graduação — e é a ferramenta mais rápida para responder a uma pergunta que toda banca de Design faz: “esse tema já foi muito explorado, ou ainda há espaço de pesquisa?” Este guia mostra como filtrar a busca por área do conhecimento, ano e instituição, e como transformar o que você encontrar em um parágrafo de justificativa com dado real, não em uma afirmação genérica.
O que é a BDTD e por que ela serve à justificativa
A BDTD (bdtd.ibict.br) integra os repositórios institucionais de universidades brasileiras em um único ponto de busca, indexando o texto completo de teses e dissertações desde os anos 2000. Para o TCC de Design, ela cumpre duas funções que o Google Acadêmico não cumpre tão bem: permite filtrar por área do conhecimento oficial da CAPES (o que separa “Design” de áreas próximas como Arquitetura, Artes ou Engenharia de Produção) e mostra a distribuição por ano, o que revela se o interesse pelo tema está crescendo, estável ou já arrefeceu.
Isso importa porque a seção de justificativa do TCC não pode se apoiar só em “o tema é relevante” — precisa demonstrar, com evidência verificável, que existe uma lacuna real. Um levantamento na BDTD é exatamente o tipo de evidência que a banca consegue conferir com um clique.

Como montar a busca por área e palavra-chave
- Comece pela palavra-chave central do seu tema, não pelo título completo. Se o tema é “sistemas de identidade visual para pequenos negócios”, busque primeiro só “identidade visual” para mapear o volume geral, depois refine.
- Use o campo de busca avançada para combinar termos com operadores booleanos quando a plataforma oferecer essa opção — por exemplo, “identidade visual” AND “pequenas empresas” — em vez de digitar a frase inteira no campo simples, que costuma ser mais restritivo do que parece.
- Teste sinônimos e o termo em inglês. “Design thinking”, “design centrado no usuário” e “user-centered design” podem retornar conjuntos de resultados bem diferentes — rode as três variações antes de concluir que um tema é pouco explorado.
Os três filtros que fazem diferença em Design
- Área do conhecimento (CAPES): filtre por “Desenho Industrial” ou “Design” — a nomenclatura varia conforme a instituição de origem do registro — para não misturar resultados de Arquitetura e Urbanismo ou Artes, que aparecem com frequência nas mesmas buscas por palavra-chave.
- Ano de defesa: observe a distribuição temporal. Um tema com produção concentrada há dez ou quinze anos e nenhum registro recente pode indicar tanto um campo já esgotado quanto uma lacuna atual — o próximo passo ajuda a distinguir os dois casos.
- Instituição e nível (mestrado/doutorado): um tema tratado várias vezes em mestrados profissionais de instituições específicas, mas nunca em pesquisa acadêmica stricto sensu mais ampla, é um sinal diferente de um tema já mapeado por múltiplos programas — vale registrar essa distinção na justificativa.

Como interpretar o resultado
Três leituras possíveis, e o que cada uma sugere para o seu recorte:
- Muitos resultados, concentrados nos últimos três anos: tema quente — ainda pesquisável, mas exige um recorte mais específico (um setor, um método, uma população de usuários) para não competir diretamente com o que já foi publicado.
- Poucos resultados, distribuídos ao longo de vários anos: pode ser um tema de nicho genuíno — vale ler os títulos e resumos dos poucos trabalhos encontrados para confirmar que eles não já respondem exatamente à sua pergunta.
- Muitos resultados antigos, nenhum recente: investigue por quê antes de comemorar a “lacuna” — às vezes o campo mudou de nome (por exemplo, termos que migraram para “design de serviços” ou “design especulativo”), e a lacuna aparente é só um problema de busca, não do tema em si.
Um cuidado importante: a última safra de defesas costuma aparecer subrrepresentada na base por um simples atraso de depósito institucional — o repositório de uma universidade pode levar meses para publicar teses recém-defendidas. Não leia “poucos registros no último ano” automaticamente como “poucas pesquisas no último ano”; pode ser só atraso de indexação.
Um exemplo ilustrativo de leitura de resultado
Os números abaixo são fictícios, criados apenas para mostrar como o raciocínio de leitura funciona na prática — substitua pelos números reais da sua própria busca:
- Busca 1 — “embalagem sustentável” (todos os campos): um número alto de resultados, distribuído de forma constante ao longo de dez anos. Leitura: tema maduro, exige recorte por setor ou material específico para não repetir o que já existe.
- Busca 2 — mesma busca, filtrada por área “Desenho Industrial”: o número cai bastante em relação à busca 1 — a diferença revela quanto do resultado original vinha de Engenharia de Materiais ou Administração, áreas próximas mas distintas.
- Busca 3 — “embalagem sustentável para cosméticos” (recorte de setor): um número baixo de resultados. Leitura: aqui está o espaço de pesquisa — o recorte setorial é o que falta na literatura, não o tema geral.
Esse exercício de refinar a busca em camadas — do termo geral ao recorte específico — é o que transforma uma leitura solta (“acho que não tem muita coisa sobre isso”) em um argumento estruturado, com cada etapa documentável.
Como transformar o resultado em parágrafo de justificativa
O parágrafo de justificativa fica mais forte quando nomeia a base, a data da consulta e o critério de busca usado — isso é o que torna a afirmação verificável, em vez de uma opinião do autor. Modelo, com números fictícios apenas para ilustrar a estrutura da frase (troque pelos números reais da sua própria busca):
“Levantamento realizado na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) em [data da consulta], com o termo ‘design de serviços’ filtrado pela área de Desenho Industrial, retornou um número reduzido de registros, concentrados sobretudo em programas de pós-graduação stricto sensu do Sudeste, sem trabalhos voltados especificamente ao setor de [seu recorte]. Esse resultado indica uma lacuna que justifica a investigação proposta neste trabalho.”
Note a estrutura: nome da base, data da consulta, termo e filtro exatos, o que foi encontrado (ou não), e a conclusão que liga isso ao seu recorte. Essa é a diferença entre “o tema é pouco estudado” (afirmação) e um levantamento que a banca pode refazer e conferir (evidência).
Como registrar o levantamento no capítulo de metodologia
Um levantamento bibliométrico simples como este, quando usado apenas para justificar o tema, normalmente não precisa de um subcapítulo próprio — basta o parágrafo de justificativa citado acima, na introdução. Mas se ele também alimentar o estado da arte ou a revisão de literatura, documente na metodologia: a data da consulta, os termos exatos usados (incluindo sinônimos testados), os filtros aplicados e o critério de inclusão/exclusão dos trabalhos revisados (por exemplo, “foram lidos os resumos de todos os registros retornados; textos completos foram consultados apenas para os cinco trabalhos mais diretamente relacionados ao recorte”). Isso permite que outro pesquisador reproduza exatamente o seu levantamento — um critério básico de rigor metodológico que muitas bancas de Design cobram e que poucos TCCs cumprem.
Os limites da ferramenta
A BDTD não é uma base exaustiva de toda a produção em Design — ela depende de os repositórios institucionais estarem devidamente indexados, e alguns programas mais recentes ou menores podem ter cobertura incompleta. Por isso, um levantamento na BDTD deve ser combinado com uma busca complementar no Portal de Periódicos CAPES, SciELO e Google Acadêmico, especialmente para captar artigos publicados em periódicos e anais de congresso de Design (como os da Associação Brasileira de Pesquisa e Desenvolvimento em Design), que não entram no escopo da BDTD por não serem teses ou dissertações.
Para entender a dimensão geral da base — quantos registros ela reúne no total e como se distribuem por instituição e período —, veja a BDTD em números, que detalha esses dados com fonte e ano. E se o seu recorte metodológico exige comparar métodos de projeto em vez de contagem de produção, veja também Design Science Research no TCC, que trata de como validar um artefato de design como resultado de pesquisa.
Depois de mapear a lacuna, precisa organizar as referências que sustentam o referencial teórico? Monte suas referências ABNT no Tesify enquanto lê os trabalhos que a busca na BDTD trouxe.
Perguntas frequentes
A BDTD serve para o estado da arte inteiro do TCC, ou só para a justificativa?
Serve para as duas coisas, mas com papéis diferentes. Para a justificativa, o número de resultados e a distribuição por ano já bastam. Para o estado da arte, você precisa ir além da contagem e ler os resumos (e, quando relevante, o texto completo) dos trabalhos mais próximos do seu tema, para posicionar sua pesquisa em relação a eles.
Por que a busca por “Design” traz tantos resultados de Arquitetura e Artes?
Porque a busca padrão varre título, resumo e palavras-chave sem filtrar por área do conhecimento. Aplique o filtro de área (Desenho Industrial ou Design, conforme a nomenclatura da instituição) para restringir aos programas de pós-graduação da sua área.
Poucos resultados sempre significam que o tema é original?
Não necessariamente — pode ser atraso de indexação do repositório, mudança de terminologia no campo, ou um recorte de busca bom demais (específico demais) para capturar trabalhos relacionados que usam outros termos. Teste sinônimos e o termo em inglês antes de concluir.
A BDTD indexa trabalhos de todas as universidades brasileiras?
Ela integra os repositórios institucionais que aderem ao sistema, o que cobre a grande maioria dos programas de pós-graduação stricto sensu do país, mas a cobertura não é 100% garantida para todas as instituições e todos os anos — por isso a recomendação de combinar com outras bases.
Preciso citar a BDTD como referência formal na lista de referências?
Não é necessário citar a plataforma como referência bibliográfica — ela é a ferramenta de busca, não uma fonte citada no texto. O que entra na lista de referências são os próprios trabalhos (teses e dissertações) que você efetivamente leu e usou, cada um no modelo de referência de dissertação/tese da NBR 6023.
