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Design Science Research em 2026: Como Usar a DSR no TCC e Validar o Artefato

Design Science Research é a metodologia em que você constrói um artefato — um método, um modelo, uma ferramenta, um protocolo — para resolver uma classe de problemas, e depois avalia se ele funciona. O que a distingue de “fazer um projeto” é essa segunda metade: sem avaliação sistemática, o trabalho é desenvolvimento, não pesquisa.

O que é DSR e de onde vem

A tradição vem de Herbert Simon e da ideia de que existe uma ciência do artificial — do que é projetado — ao lado das ciências que descrevem o que já existe. A formulação que consolidou a abordagem na pesquisa em sistemas de informação é a de Hevner, March, Park e Ram, em 2004, e o modelo de processo mais usado é o de Peffers e colegas, de 2007.

A diferença de propósito em relação aos métodos tradicionais é nítida:

Pesquisa descritiva e Design Science Research
Aspecto Métodos descritivos e explicativos Design Science Research
Pergunta Como é? Por que acontece? Como resolver? O que funciona?
Produto Descrição, explicação, teoria Artefato mais conhecimento sobre ele
Critério Verdade e validade Utilidade demonstrada
Papel do pesquisador Observa o que existe Constrói algo que não existia
Contribuição Novo entendimento Nova solução e o aprendizado do projeto

Note a última linha, porque é onde os TCCs escorregam: a contribuição da DSR não é o artefato sozinho. É o artefato mais o que a construção e a avaliação dele ensinaram sobre o problema. Um trabalho que entrega o sistema e cala sobre as decisões de projeto entrega metade.

Vale separar DSR de “pesquisa aplicada”, com que costuma ser confundida: aplicada é a natureza da pesquisa, uma classificação ampla discutida em pesquisa aplicada e básica. DSR é um método específico dentro dela, com etapas e exigências próprias. Toda DSR é aplicada; nem toda pesquisa aplicada é DSR.

Os tipos de artefato

“Artefato” é mais amplo do que “software”, e essa amplitude é o que torna a DSR viável em cursos que não são de tecnologia:

  • Constructos. O vocabulário conceitual de um domínio — categorias, definições, tipologias.
  • Modelos. Representações do problema e da solução: um modelo de processo, um framework de avaliação, um mapa de decisão.
  • Métodos. Procedimentos: um roteiro de diagnóstico, um protocolo de atendimento, uma sequência de implantação.
  • Instanciações. A coisa funcionando: um protótipo, um sistema, um dispositivo, um material didático aplicado.

Exemplos que cabem em TCC: um protocolo de triagem para uma unidade de saúde, um modelo de avaliação de fornecedores, um roteiro de onboarding, uma sequência didática para um conteúdo específico, um painel de indicadores. Nenhum deles exige programação.

Wireframe em papel afixado em quadro ao lado de fluxo de processo impresso e laptop com interface em rascunho
Artefato é mais amplo que software — um protocolo, um modelo ou um roteiro contam.

As etapas do processo

  1. Identificação do problema e motivação. Qual o problema, para quem, e por que ele importa. Sem isso, o artefato é uma solução à procura de um problema.
  2. Definição dos objetivos da solução. O que o artefato precisa conseguir fazer — de preferência em critérios verificáveis, porque eles se tornarão a base da avaliação.
  3. Projeto e desenvolvimento. A construção, com as decisões de projeto registradas à medida que são tomadas.
  4. Demonstração. O artefato usado em pelo menos um contexto real ou simulado, mostrando que resolve o problema.
  5. Avaliação. A comparação entre o que se pretendia e o que se obteve, com método declarado.
  6. Comunicação. O relato — no seu caso, o TCC ou o produto técnico.

Duas observações práticas. O ciclo não é linear: a avaliação alimenta uma nova rodada de projeto, e relatar as iterações é uma força do trabalho, não uma fraqueza. E o passo 3 tem um dever de registro: anote por que cada decisão foi tomada e quais alternativas foram descartadas, no momento em que ocorre. Reconstruir isso no fim raramente funciona, e é justamente esse registro que vira o capítulo mais original do trabalho.

Ciclo desenhado em papel com caixas numeradas e setas que retornam a etapas anteriores
O ciclo volta: a avaliação alimenta uma nova rodada de projeto, e relatar as iterações fortalece o trabalho.

Avaliar o artefato: a parte que define o trabalho

Se há um ponto em que TCCs com DSR são reprovados ou devolvidos, é este. Construir é a parte visível; avaliar é a parte que transforma o projeto em pesquisa.

A avaliação precisa de três decisões, tomadas antes de avaliar:

Decisões que estruturam a avaliação
Decisão Opções comuns
Critérios Utilidade, completude, facilidade de uso, eficiência, aderência ao problema
Método Avaliação por especialistas, teste com usuários, aplicação piloto, comparação com a situação anterior, análise de casos
Momento Formativa, durante o desenvolvimento; somativa, ao final

Combinações que funcionam bem em TCC, pelo prazo: avaliação por especialistas da área, com critérios explícitos e instrumento próprio — e aqui a técnica Delphi é uma escolha natural, porque foi feita para consolidar julgamento de especialistas; ou aplicação piloto com medição antes e depois, cujo desenho está em pesquisa quase-experimental.

Duas advertências. Satisfação não é utilidade: perguntar se as pessoas gostaram do artefato não demonstra que ele resolve o problema; volte aos objetivos do passo 2 e verifique cada um. E avaliação envolvendo pessoas exige aprovação ética prévia, conforme comitê de ética e Plataforma Brasil — inclusive quando os avaliadores são especialistas, e não usuários finais.

Formulário de avaliação preenchido com critérios e notas ao lado de protótipo impresso com comentários
Critérios, método e momento se decidem antes de avaliar — e satisfação não é o mesmo que utilidade.

O erro mais comum: resolver um caso, não uma classe

Este é o ponto que separa DSR de consultoria, e a pergunta que a banca faz.

Se você desenvolveu um sistema de controle de estoque para a empresa X e o trabalho termina aí, você prestou um serviço. Vira pesquisa quando você mostra que o artefato responde a uma classe de problemas — controle de estoque em pequenas empresas de determinado setor, por exemplo — e explicita o que precisaria mudar para aplicá-lo em outro caso.

Na prática, três movimentos resolvem isso:

  1. Caracterize a classe logo no início: que problemas, em que tipo de organização, sob quais condições.
  2. Separe o específico do generalizável ao descrever o artefato — o que é regra do domínio e o que é particularidade daquele cliente.
  3. Declare o alcance nas considerações finais: onde o artefato se aplica e onde não se aplica.

Isso vale especialmente para o mestrado profissional, em que a DSR é frequente porque o programa exige um produto técnico — cujo formato está em relatório técnico do mestrado profissional, e a distinção entre as modalidades em mestrado profissional ou acadêmico.

Como escrever isso na metodologia

Um parágrafo-modelo para adaptar:

A pesquisa adota a abordagem Design Science Research, orientada à construção e avaliação de um artefato destinado a resolver uma classe de problemas. O percurso seguiu as etapas de identificação do problema, definição dos objetivos da solução, projeto e desenvolvimento, demonstração, avaliação e comunicação. O artefato desenvolvido é um [tipo de artefato] voltado a [classe de problemas], e sua avaliação foi conduzida por [método], segundo os critérios de [critérios], definidos previamente a partir dos objetivos da solução. As decisões de projeto e as alternativas descartadas foram registradas ao longo do desenvolvimento e são relatadas no capítulo de resultados.

Repare no que esse parágrafo faz: nomeia o método, declara o tipo de artefato e a classe de problemas, e amarra os critérios de avaliação aos objetivos definidos antes. É a sequência que a banca procura — e é a mesma disciplina de declarar critérios a priori que sustenta a Delphi e o desenho quase-experimental.

Para situar a DSR entre os demais delineamentos, veja delineamento da pesquisa. Quando o artefato é avaliado num contexto único e profundamente descrito, vale ler também estudo de caso segundo Yin; e quando você intervém junto com os participantes ao longo do desenvolvimento, a fronteira com a pesquisa-ação fica próxima — a diferença é que na DSR o produto central é o artefato, e na pesquisa-ação é a transformação da prática.

Perguntas frequentes

O que é Design Science Research?

É a metodologia em que o pesquisador constrói um artefato — método, modelo, constructo ou instanciação — para resolver uma classe de problemas e avalia sistematicamente se ele cumpre os objetivos definidos. A contribuição é o artefato somado ao conhecimento gerado ao projetá-lo e avaliá-lo.

Preciso programar para usar DSR no TCC?

Não. Artefato inclui constructos, modelos e métodos: um protocolo de atendimento, um modelo de avaliação, um roteiro de diagnóstico ou uma sequência didática são artefatos legítimos, sem nenhuma programação.

Qual a diferença entre DSR e pesquisa aplicada?

Pesquisa aplicada é a natureza da pesquisa, uma classificação ampla. DSR é um método específico dentro dela, com etapas próprias e exigência de construir e avaliar um artefato. Toda DSR é aplicada, mas nem toda pesquisa aplicada é DSR.

Como avaliar o artefato num TCC de graduação?

As opções mais viáveis no prazo são a avaliação por especialistas da área, com critérios explícitos e instrumento próprio, e a aplicação piloto com medição antes e depois. Defina critérios, método e momento antes de avaliar, a partir dos objetivos da solução.

DSR precisa de comitê de ética?

Quando a avaliação envolve pessoas, sim — inclusive quando os avaliadores são especialistas e não usuários finais. A aprovação precisa ser anterior à coleta.

Qual a diferença entre DSR e pesquisa-ação?

Nas duas o pesquisador intervém, mas o produto central difere: na DSR é o artefato, projetado para uma classe de problemas; na pesquisa-ação é a transformação da prática junto com os participantes daquele contexto.

Meu artefato serve só para uma empresa. Isso é problema?

É, se o trabalho parar aí — nesse caso é consultoria. Vira pesquisa quando você caracteriza a classe de problemas a que o artefato responde, separa o que é específico daquele caso do que é generalizável e declara o alcance nas considerações finais.