Resposta direta: no TCC, a introdução e o referencial teórico vão predominantemente no presente; a metodologia e os resultados vão no pretérito perfeito, porque descrevem algo que já aconteceu uma única vez; a discussão alterna presente e passado; e as considerações finais voltam ao presente. Não existe um tempo verbal único para o trabalho inteiro — existe um tempo por função.
A dúvida é legítima e quase ninguém a resolve por escrito, porque nenhum manual de normalização brasileiro trata de tempo verbal. O resultado é o problema mais comum da revisão final: um capítulo de metodologia inteiro no futuro, sobrevivente do projeto de pesquisa que virou TCC.
Por que o tempo verbal muda de capítulo para capítulo
Cada seção do trabalho fala de um tipo diferente de coisa, e o tempo verbal marca essa diferença para o leitor.
- Um conceito não aconteceu: ele vale. Por isso “Gil define pesquisa exploratória como…” vai no presente, mesmo que o livro seja de 2008.
- Um procedimento que você executou aconteceu uma vez, num período delimitado. Por isso “os questionários foram aplicados entre março e maio de 2026” vai no passado.
- Um resultado é o que se observou naquela coleta, não uma lei geral. Por isso “58% dos respondentes indicaram…”, no passado.
- Uma interpretação é algo que o texto está fazendo agora, diante do leitor. Por isso a discussão volta ao presente sempre que você argumenta.
Quem entende essa lógica não precisa memorizar tabela nenhuma: basta perguntar se a frase descreve algo permanente, algo ocorrido ou algo que o próprio texto está fazendo.
Qual tempo verbal usar em cada capítulo
| Seção | Tempo predominante | Exemplo | Por quê |
|---|---|---|---|
| Resumo | Passado (com presente no objetivo) | Este estudo analisou… Os resultados indicaram… | Relata um trabalho já concluído |
| Introdução | Presente | Este trabalho investiga… O problema apresenta-se como… | A obra fala de si mesma, agora |
| Referencial teórico | Presente | Bardin propõe três fases… | Conceitos permanecem válidos |
| Referencial — estudos empíricos datados | Passado | Silva (2019) identificou associação entre… | O achado ocorreu naquele estudo |
| Metodologia | Pretérito perfeito | Foram entrevistados 24 participantes… | Procedimento executado e encerrado |
| Resultados | Pretérito perfeito | A média obtida foi de 3,7 pontos… | Observação pontual, não regra |
| Resultados — leitura de tabela | Presente | A Tabela 2 apresenta a distribuição… | A tabela existe agora, diante do leitor |
| Discussão | Alterna | O achado converge com Silva (2019), que identificou… | Interpretação no presente; achados alheios no passado |
| Considerações finais | Presente | Conclui-se que… Recomenda-se que… | O texto conclui agora |
| Limitações | Passado | Não foi possível acessar… | Restrição ocorrida durante a pesquisa |
| Sugestões de pesquisas futuras | Presente ou futuro do subjuntivo | Recomenda-se que estudos futuros examinem… | Projeção, não relato |
O erro número um: o projeto de pesquisa que virou TCC sem trocar de tempo
Quase todo TCC brasileiro nasce de um projeto de pesquisa escrito meses antes. No projeto, tudo estava no futuro: “serão aplicados questionários”, “pretende-se entrevistar”, “espera-se identificar”. Isso estava certo lá — o trabalho ainda não tinha sido feito. Se você reaproveitou o capítulo de método, como quase todo mundo faz e como o roteiro de como fazer um projeto de pesquisa prevê, o texto ainda está anunciando o que vai acontecer.
A banca lê isso como sinal de descuido — e às vezes como sinal de que a coleta não foi concluída. A correção é mecânica, e vale fazer uma busca dirigida antes de entregar. Procure no documento, uma por uma:
- “será” e “serão” → troque por “foi” e “foram”.
- “pretende-se” → “buscou-se” ou “este estudo buscou”.
- “espera-se” → no método, vira “verificou-se”; nas considerações finais, pode permanecer.
- “pretendemos”, “iremos”, “vamos” → passado, e sem primeira pessoa se o curso exigir impessoalidade.
- “o presente estudo tem por objetivo” → aceitável na introdução; no resumo, prefira “teve por objetivo”.
Pretérito perfeito ou imperfeito na metodologia?
Uma sutileza que aparece em bancas atentas. O pretérito perfeito (“aplicou-se”, “foram coletados”) marca um evento concluído e delimitado — é o tempo certo para descrever a sua coleta. O pretérito imperfeito (“aplicava-se”, “eram coletados”) marca hábito ou processo em curso no passado, e no capítulo de método sugere que o procedimento se repetia indefinidamente.
Compare: “As entrevistas foram realizadas na sala de reuniões da instituição” descreve o que aconteceu. “As entrevistas eram realizadas na sala de reuniões” sugere uma rotina anterior ao estudo. Use o imperfeito apenas quando quiser mesmo descrever contexto habitual — por exemplo, o funcionamento do setor antes da intervenção.
O presente que sobrevive nos resultados
Existe uma exceção sistemática que confunde muita gente. Os achados vão no passado, mas os elementos gráficos vão no presente, porque estão ali, na página, diante do leitor:
- “A Tabela 3 apresenta a distribuição por faixa etária.” (presente)
- “Observou-se predominância da faixa de 18 a 24 anos.” (passado)
- “O Gráfico 1 mostra a evolução mensal.” (presente)
- “A frequência caiu a partir de abril.” (passado)
Essa alternância dentro do mesmo parágrafo não é inconsistência: é a distinção entre o objeto exibido e o fato observado. O roteiro completo de análise e discussão dos resultados mostra onde cada movimento se encaixa.
Referencial teórico: presente atemporal, com uma exceção
Conceitos, definições, tipologias e modelos teóricos vão no presente, independentemente da data da obra. “Bardin organiza a análise de conteúdo em três fases”, não “organizou”. A proposta continua valendo hoje; o passado a transformaria em curiosidade histórica.
A exceção são os estudos empíricos citados como evidência. Ali o achado é datado: “Costa (2020) identificou, em amostra de 340 respondentes, que…”. O verbo no passado sinaliza que aquilo foi observado naquele contexto e não é lei geral. Essa distinção anda junto com a escolha do verbo de reporte — o que a fonte fez e quanto você se compromete ao repassar, assunto do guia sobre verbos para introduzir citações no TCC.
A frase do objetivo: onde três tempos brigam
Há um ponto do trabalho em que a mesma informação aparece três vezes, e cada aparição pede um tempo diferente. É a formulação do objetivo geral, que reaparece no resumo, na introdução e nas considerações finais.
- No resumo: “Este estudo teve por objetivo analisar…” — passado, porque o resumo descreve um trabalho encerrado.
- Na introdução: “Este trabalho tem por objetivo analisar…” — presente, porque a introdução abre um texto que o leitor está começando agora.
- Nas considerações finais: “O objetivo de analisar… foi alcançado na medida em que…” — passado, porque agora você está prestando contas do que foi feito.
Copiar a mesma frase nos três lugares é prática comum e produz pelo menos um erro de tempo em dois deles. Vale reescrever cada ocorrência conforme a função da seção, mantendo o conteúdo idêntico e ajustando apenas o verbo. Como o objetivo é a frase mais lida do trabalho — a banca volta a ela na arguição — vale conferir a formulação nos guias de como escrever a introdução do TCC e de objetivo geral e objetivos específicos antes de padronizar os tempos.
Resumo e abstract
O resumo brasileiro vai predominantemente no pretérito perfeito: ele relata um trabalho terminado, em parágrafo único. A estrutura mais aceita é objetivo, método, resultados e conclusão, com o objetivo às vezes no presente e o restante no passado.
No abstract em inglês, a convenção internacional é semelhante: simple past para método e resultados, present para o que a conclusão afirma. Se você traduziu o resumo mantendo todos os verbos no presente, o texto soa como projeto, não como estudo concluído. O passo a passo de como escrever o resumo e o abstract do TCC traz os modelos prontos.
Cinco frases que quase todo TCC precisa corrigir
| Como está | Como deveria estar | Motivo |
|---|---|---|
| Serão entrevistados 20 profissionais. | Foram entrevistados 20 profissionais. | Resíduo do projeto de pesquisa |
| Gil disse que a pesquisa exploratória… | Gil define a pesquisa exploratória como… | Conceito permanece válido |
| Os dados mostram que 42% dos alunos… | Os dados mostraram que 42% dos alunos… | Achado datado da sua coleta |
| A Tabela 4 mostrou a distribuição… | A Tabela 4 apresenta a distribuição… | A tabela existe agora |
| Este trabalho teve por objetivo analisar… (introdução) | Este trabalho analisa… | A introdução fala do texto presente |
Checklist de tempo verbal antes da entrega
- Busquei “será”, “serão”, “pretende-se”, “espera-se” e “iremos” no documento inteiro.
- Nenhum verbo do capítulo de metodologia está no futuro.
- Os conceitos do referencial estão no presente; os achados empíricos citados, no passado.
- Os resultados estão no passado, exceto as chamadas de tabelas e figuras.
- O resumo está no passado, coerente com o corpo.
- Não há alternância entre pretérito perfeito e imperfeito na descrição de um mesmo procedimento.
- As considerações finais voltaram ao presente.
Padronize os tempos sem reler tudo três vezes
Converter um projeto de pesquisa em TCC e uniformizar o tempo verbal de sessenta páginas é o tipo de revisão que consome um dia inteiro e ainda deixa passar frases. O Tesify escreve com você mantendo o tempo verbal coerente com a função de cada capítulo, converte automaticamente o texto de projeto para relato e gera as referências no padrão ABNT enquanto o trabalho avança.
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Perguntas frequentes
Que tempo verbal usar na metodologia do TCC?
Pretérito perfeito. A metodologia descreve procedimentos já executados: “foram aplicados 120 questionários”, “a coleta ocorreu entre março e maio”, “os dados foram analisados no SPSS”. Verbos no futuro nessa seção são resíduo do projeto de pesquisa e devem ser convertidos antes da entrega.
O referencial teórico vai no presente ou no passado?
Conceitos, definições e modelos vão no presente, porque continuam válidos: “Bardin propõe três fases”. Estudos empíricos citados como evidência vão no passado, porque o achado é datado: “Silva (2019) identificou…”. As duas formas convivem no mesmo capítulo sem problema.
Posso escrever os resultados no presente?
Os achados vão no passado, porque descrevem o que foi observado naquela coleta específica. O presente fica reservado às chamadas de elementos gráficos: “a Tabela 2 apresenta…”. Escrever “os dados mostram” em vez de “mostraram” sugere generalização que a sua amostra provavelmente não autoriza.
O resumo do TCC vai no passado?
Sim, predominantemente. O resumo relata um trabalho concluído: “Este estudo analisou… Foram entrevistados… Os resultados indicaram…”. Apenas a formulação do objetivo às vezes aparece no presente. Um resumo inteiro no futuro indica que ele foi copiado do projeto.
A ABNT define o tempo verbal do trabalho acadêmico?
Não. As normas de normalização brasileiras tratam de estrutura, citação e referência, não de escolhas gramaticais no corpo do texto. O tempo verbal segue a convenção da área e a lógica de cada seção. Se o manual do seu curso trouxer orientação explícita, ela prevalece.
Qual a diferença entre “aplicou-se” e “aplicava-se” na metodologia?
“Aplicou-se” é pretérito perfeito e marca um evento concluído — é a forma correta para descrever a sua coleta. “Aplicava-se” é pretérito imperfeito e indica hábito ou processo contínuo no passado, adequado apenas para descrever o contexto anterior ao estudo, não o procedimento que você executou.
