Quais Softwares de Análise as Teses Brasileiras Usam em 2026: o Que Mostram 1,1 Milhão de Registros da BDTD

Toda orientação sobre análise de dados chega em algum momento à mesma pergunta prática: qual software os pesquisadores brasileiros realmente usam? As respostas que circulam em fóruns e vídeos são quase sempre impressões pessoais. Este artigo não opina: ele mede. Em 17 de agosto de 2026 consultamos a API pública da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) — 1.139.795 registros naquele momento — e contamos em quantos deles cada software de análise aparece. O resultado tem um vencedor absoluto, um crescimento de trinta vezes em cinco anos e, sobretudo, uma lição sobre por que quase todo ranking desse tipo que você encontra na internet está errado.

O ranking medido na BDTD

A tabela abaixo traz o número de registros da BDTD em que cada termo aparece (busca em todos os campos indexados: título, resumo, palavras-chave e metadados). São apenas os softwares cuja contagem se mostrou estável e verificável — o critério está explicado na seção seguinte.

Menções a softwares de análise na BDTD (medição de 17/08/2026; base de 1.139.795 registros)
Software Registros Uso predominante
SPSS 8.345 Estatística quantitativa
Excel 4.597 Planilha e estatística básica
MATLAB 3.376 Engenharias e computação numérica
NVivo 1.156 Análise qualitativa (codificação)
IRaMuTeQ 437 Análise textual estatística
Minitab 348 Controle de qualidade, engenharia
jamovi 280 Estatística quantitativa (livre)
webQDA 122 Análise qualitativa (lusófono)
Qualtrics 64 Coleta e survey

A leitura mais imediata é a distância: o SPSS aparece em quase o dobro de registros que o segundo colocado e em trinta vezes mais que o jamovi. Se a pergunta for “qual é o software padrão da pós-graduação brasileira”, a resposta medida é inequívoca. Mas essa é a foto acumulada de décadas — e, como veremos, o filme conta outra história.

Quatro curvas de adoção ao longo do tempo: uma praticamente estável e duas em subida acentuada no final da série
O total acumulado esconde a direção do movimento: um líder estável e dois entrantes em curva ascendente.

Como esses números foram medidos

A BDTD, mantida pelo IBICT, expõe uma API de busca pública (VuFind). Cada consulta devolve um resultCount: o número de registros que contêm o termo em qualquer campo indexado. O procedimento foi:

  1. Consultar cada nome de software isoladamente e registrar a contagem.
  2. Repetir a consulta em variações de grafia e caixa (maiúsculas, minúsculas, camelCase).
  3. Inspecionar os títulos dos primeiros resultados de cada termo, procurando falsos positivos.
  4. Descartar do ranking todo termo cuja contagem mudasse conforme a grafia ou cujos primeiros resultados fossem visivelmente de outro assunto.

Os passos 2 a 4 são o que separa uma medição de um chute — e são exatamente os passos que faltam nos rankings que circulam por aí. Vale a pena entender por quê, porque a mesma armadilha vai aparecer quando você fizer o levantamento bibliográfico do seu próprio trabalho.

A armadilha que invalida a maioria dos rankings

Um buscador acadêmico não sabe que você está falando de um software. Ele casa cadeias de caracteres. E vários nomes de programas estatísticos são homônimos de palavras comuns, nomes próprios ou termos técnicos de outras áreas. Estes foram os casos encontrados — todos verificados abrindo os resultados:

Termos descartados do ranking e o motivo
Termo Contagem bruta Por que é inutilizável
Stata 204.450 Casa com State, Nation-State, STAT 3, STAT 6
R — Letra isolada: impossível de isolar em busca textual
Alceste 497 Personagem de Eurípides; teses de Letras dominam o resultado
AMOS 407 O profeta Amós e o escritor Amós Oz
JASP 286 Jasper Johns, Jasper Jumper (aparelho ortodôntico)
ATLAS.ti 986 a 5.544 Quatro grafias, quatro números diferentes
MAXQDA 308 ou 69 MAXQDA devolve 308; MaxQDA devolve 69
SmartPLS 301 ou 245 Mesma divergência entre grafias
Peneira separando resultados verdadeiros de falsos positivos homônimos dentro de uma busca por termo
Sem uma etapa de filtragem, a contagem bruta de um termo homônimo mede o ruído, não o fenômeno.

O caso do Stata é o mais instrutivo: 204.450 registros o colocariam em primeiríssimo lugar, à frente do SPSS por um fator de 24. Bastou abrir os três primeiros resultados — uma tese sobre desenvolvimento político na Nigéria, um estudo sobre dividendos de empresas da bolsa e um trabalho sobre vias de sinalização STAT 3 em bronquiolite — para ver que nenhum deles tem relação com o software. Um ranking construído sem essa conferência publicaria o Stata como líder absoluto da pós-graduação brasileira.

Já a divergência entre MAXQDA (308) e MaxQDA (69) tem uma causa técnica precisa e reproduzível: o indexador quebra palavras nas transições de minúscula para maiúscula. “MaxQDA” é partido em Max + QDA e passa a buscar outra coisa; “MAXQDA”, todo em caixa alta, não tem essa transição e permanece inteiro. O mesmo mecanismo explica SmartPLS (Smart + PLS). E explica por que o NVivo é confiável: N→V é maiúscula para maiúscula, não dispara a quebra, e as três grafias testadas devolveram exatamente 1.156.

A regra prática, válida para qualquer base: nunca aceite uma contagem sem (a) repetir a busca em outra grafia e (b) abrir os primeiros resultados. Se os dois testes não baterem, o número não mede o que você acha que mede. É o mesmo cuidado que separa uma busca bibliográfica sólida de uma lista inflada — assunto que aprofundamos ao comparar as principais bases de pesquisa acadêmica.

O que mudou entre 2014 e 2025

Contagem acumulada premia quem chegou primeiro. Para ver a direção do movimento é preciso quebrar por ano de defesa — e dividir pelo total de trabalhos daquele ano, já que a produção nacional oscila bastante.

Registros por ano de defesa e taxa por 10.000 trabalhos
Ano Total de trabalhos SPSS NVivo IRaMuTeQ jamovi
2014 50.085 444 52 1 0
2018 65.320 668 94 18 0
2019 66.788 659 106 37 3
2020 55.270 515 88 36 8
2021 55.964 512 109 38 13
2022 56.913 478 95 47 23
2023 62.246 578 75 85 63
2024 65.302 587 93 74 90

Normalizando por 10.000 trabalhos defendidos, o quadro fica nítido:

  • SPSS: estagnado. 98,7 por 10.000 em 2019 contra 89,9 em 2024 — uma queda relativa de cerca de 9%. Continua líder folgado, mas parou de crescer.
  • NVivo: estável, levemente em queda. 15,9 em 2019 contra 14,2 em 2024.
  • IRaMuTeQ: dobrou. 5,5 em 2019 contra 11,3 em 2024. Praticamente inexistente antes de 2016.
  • jamovi: trinta vezes maior. 0,45 em 2019 contra 13,8 em 2024. Não há um único registro anterior a 2019.

Em 2024, portanto, o jamovi já praticamente empatou com o NVivo e ultrapassou o IRaMuTeQ. Um software que não existia na literatura brasileira até 2019 alcançou, em cinco anos, o patamar de ferramentas consolidadas há duas décadas.

Os dados parciais de 2025 reforçam a leitura. Aquele ano tinha 40.713 registros depositados na data da medição, contra 65.302 de 2024 — está incompleto, e por isso não entrou na tabela. Ainda assim, como o atraso de depósito afeta numerador e denominador na mesma proporção, a taxa continua informativa: o jamovi marca 17,9 por 10.000 em 2025, acima dos 13,8 de 2024. A curva não deu sinal de desaceleração.

Um alerta necessário: não leia o último ano de nenhuma série da BDTD como queda. As instituições depositam com meses de atraso, e o ano mais recente sempre parece encolher. Essa armadilha e outros cuidados de leitura estão detalhados em A BDTD em Números.

O que isso significa para o seu TCC

Números de adoção não são recomendação. Eles respondem a uma pergunta específica — “o que meus pares usam?” — que importa por três razões concretas.

1. Reprodutibilidade e banca. Usar uma ferramenta corrente significa que o orientador provavelmente sabe operá-la e que a banca reconhece o relato da saída. Isso pesa mais do que qualquer vantagem técnica marginal.

2. Custo real. A licença do SPSS é cara e nem toda instituição a oferece. O crescimento do jamovi tem uma explicação econômica direta: é livre, gratuito e roda sobre o R, produzindo resultados equivalentes para os testes usuais de um TCC. Se você vai começar agora e não tem licença institucional, o passo a passo do jamovi cobre desde a importação da planilha até a leitura da saída.

3. A escolha certa depende do dado, não do ranking. Software não decide análise. Primeiro se define a pergunta e o teste; só depois a ferramenta. Para quantitativo, o caminho é escolher o teste estatístico adequado e então verificar os pressupostos. Para qualitativo, a divisão é outra: NVivo, ATLAS.ti e MAXQDA servem à codificação feita pelo pesquisador, enquanto o IRaMuTeQ faz classificação estatística do corpus — uma diferença de lógica destrinchada na comparação entre os quatro softwares qualitativos. Se a dúvida ainda é entre as famílias, comece pelo comparativo entre SPSS, R, jamovi e Excel.

Note, por fim, o que a tabela diz sobre o Excel: 4.597 registros, segundo lugar absoluto. Planilha não é vergonha. Para estatística descritiva e testes simples, ela aparece em mais trabalhos brasileiros do que todos os softwares qualitativos somados.

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Perguntas frequentes

Qual é o software mais usado em teses e dissertações brasileiras?

O SPSS, com folga. Ele aparece em 8.345 registros da BDTD, contra 4.597 do Excel e 3.376 do MATLAB, numa base de 1.139.795 trabalhos medida em agosto de 2026. Em 2024, isoladamente, foram 587 trabalhos — cerca de 90 a cada 10.000 defendidos.

O jamovi é aceito em trabalhos acadêmicos?

Sim. Ele passou de 3 registros em 2019 para 90 em 2024 na BDTD, e os dados parciais de 2025 indicam crescimento continuado. É software livre construído sobre o R, e produz as mesmas estatísticas dos pacotes pagos para os testes usuais de um TCC. Nenhuma norma acadêmica brasileira exige um software específico.

Preciso citar o software que usei na análise?

Sim. O software é um instrumento de pesquisa e deve ser identificado no capítulo de metodologia, com nome e versão — informação necessária para que outro pesquisador reproduza a análise. Muitos programas, inclusive o jamovi e o IRaMuTeQ, indicam no próprio site a forma preferida de referência.

Por que o R não aparece no ranking?

Porque não é mensurável por busca textual. O nome é uma única letra, que casa com dezenas de milhares de ocorrências não relacionadas. Isso não significa pouco uso — significa que esta metodologia não consegue medi-lo. É uma limitação da medição, não um resultado.

Esses números medem uso real ou apenas menção?

Medem menção em campos indexados: título, resumo, palavras-chave e metadados. Um trabalho que usou o software mas não o citou nesses campos não é contado, e a contagem tende a subestimar o uso real. Como o mesmo viés se aplica a todos os termos, a comparação entre eles e a tendência ao longo do tempo permanecem válidas.

Onde encontro esses dados para conferir?

Na própria BDTD, em bdtd.ibict.br. A interface de busca aceita os mesmos termos, e a API pública devolve as contagens usadas aqui. Todos os números deste artigo foram medidos em 17 de agosto de 2026 e mudam conforme novos trabalhos são depositados.

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