O TCC de História frequentemente usa fontes que os guias genéricos de ABNT não cobrem: jornal de época, documento de arquivo não publicado, depoimento de história oral, fotografia e mapa antigo. A NBR 6023 (referências) e a NBR 10520 (citações) dão a base, mas exigem adaptação para esses formatos — e é justamente nessa adaptação que a maioria dos TCCs de História erra ou improvisa. Este guia traz o modelo de referência para cada um desses casos, com o que cada elemento representa.
Como citar jornal e periódico de época
A NBR 6023 trata matéria de jornal como uma parte de publicação periódica. O modelo, adaptado para uma matéria sem autoria identificada — o caso mais comum em jornais do século XIX e início do XX — é:
TÍTULO DA MATÉRIA. Nome do Jornal, Cidade, dia mês. ano. Caderno/Seção, página.
Exemplo ilustrativo, com dados fictícios para fins de formatação: A CHEGADA DO TREM À CAPITAL. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 mar. 1901. Seção Geral, p. 3.
Quando a matéria tem autor identificado (comum em colunas assinadas), a entrada muda para o padrão SOBRENOME, Nome, com o título da matéria em seguida — o mesmo padrão de um artigo de revista. Dois cuidados específicos de jornal de época:
- Registre a fonte de acesso ao exemplar — hemeroteca digital (a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional é a mais usada no Brasil), microfilme, ou acervo físico consultado presencialmente. Se digital, inclua o link e a data de acesso, conforme a atualização da NBR 6023:2025 para fontes digitais.
- Não modernize o nome do jornal se ele mudou ao longo do tempo — cite pelo nome que o periódico tinha na data da edição consultada, e informe no corpo do texto se necessário para orientar o leitor.

Como citar documento de arquivo não publicado
Este é o caso mais variável, porque a ABNT trata como referência de “documento não publicado” um guarda-chuva amplo — carta, ofício, relatório interno, manuscrito, processo administrativo. O núcleo da entrada é sempre: autor (quando houver e for identificável), título ou descrição do documento, indicação entre colchetes do tipo de documento quando não houver título formal, data, e a instituição que custodia o acervo, com a localização específica dentro dele.
SOBRENOME, Nome (do remetente, quando carta ou ofício). Título ou descrição [tipo de documento: carta, ofício, manuscrito]. Local, data. Nome do arquivo/acervo, fundo, série, caixa, código de referência.
Exemplo ilustrativo: SILVA, João de. Carta ao Presidente da Província sobre a situação das obras do porto [manuscrito]. Recife, 4 jun. 1887. Arquivo Público Estadual de Pernambuco, Fundo Governo da Província, Caixa 112, doc. 34.
Como o detalhamento exato de fundo, série e código varia por instituição arquivística — cada arquivo público brasileiro organiza seu acervo de forma diferente —, o procedimento seguro é seguir a norma de citação do próprio arquivo consultado quando ela existir (muitos arquivos públicos e universitários publicam um guia de como citar seu acervo) e, na ausência dela, aplicar o modelo genérico acima, mantendo consistência em todo o TCC. Consulte também o manual de normalização da sua universidade, porque alguns adaptam a ABNT para esse tipo de fonte de formas ligeiramente diferentes entre si — não existe uma única cláusula da NBR 6023 que resolva todos os casos de arquivo, e forçar um formato universal costuma gerar mais inconsistência do que seguir a convenção do próprio acervo.
Como citar entrevista de história oral
Entrevistas de história oral seguem o modelo de entrevista da NBR 6023, mas com uma camada extra: quem é o entrevistado (fonte primária) e quem conduziu e registrou a entrevista (responsabilidade pela produção do documento).
SOBRENOME, Nome do entrevistado. Título ou tema da entrevista [Entrevista cedida a] Nome do entrevistador. Local, data.
Exemplo ilustrativo: OLIVEIRA, Maria de. Depoimento sobre a vida operária no bairro industrial [Entrevista cedida a] Ana Paula Ferreira. Belo Horizonte, 15 out. 2024.
Dois pontos que a banca de História verifica sempre: se a entrevista foi conduzida como parte de pesquisa com seres humanos, normalmente exige aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa via Plataforma Brasil, conforme as Resoluções CNS nº 466/2012 e nº 510/2016 — mesmo em Ciências Humanas, cada vez mais programas exigem essa submissão; verifique com o colegiado do seu curso. E o Termo de Cessão de Direitos sobre o Depoimento, assinado pelo entrevistado, autorizando o uso do relato na pesquisa e, se for o caso, o depósito em um acervo de história oral — sem ele, o depoimento não pode ser citado nominalmente.

Como citar fotografia, mapa e cartaz de época
Fontes iconográficas — fotografia, mapa, cartaz, gravura, planta arquitetônica — seguem o modelo de imagem/documento cartográfico da NBR 6023, com a autoria do fotógrafo ou cartógrafo (quando identificável), título ou descrição, data, suporte e a instituição custodiante.
SOBRENOME, Nome (do fotógrafo/autor, quando houver). Título ou descrição da imagem [fotografia/mapa/cartaz]. Local, data. Suporte (dimensões, se relevante). Nome do arquivo/acervo, código de referência.
Exemplo ilustrativo: FERREIRA, Antônio. Vista da Praça Central [fotografia]. São Paulo, 1923. Papel fotográfico, 18 x 24 cm. Arquivo Público do Estado de São Paulo, código FR-0091.
Quando a fotografia não tem autor identificado — comum em acervos de família ou fotografias de imprensa sem crédito —, substitua a entrada de autor por uma descrição objetiva do conteúdo como título, seguida do mesmo padrão de data, suporte e acervo. E, se a imagem for reproduzida no corpo do TCC (o que costuma agregar muito valor visual e analítico a um trabalho de História), verifique com o acervo se há restrição de uso e crédito obrigatório — a maioria dos arquivos públicos brasileiros permite uso acadêmico com crédito, mas as condições variam por instituição, e assumir permissão sem checar é um risco evitável.
Como citar legislação e documentos oficiais antigos
Leis, decretos e outros atos normativos seguem o modelo de legislação da NBR 6023, que não muda por serem antigos: nome da jurisdição, título do ato com número e data, ementa (opcional), e a fonte de publicação oficial (Diário Oficial, coleção de leis).
NOME DA JURISDIÇÃO. Tipo e número do ato, data. Ementa. Fonte de publicação, local, data de publicação.
Para atos anteriores à existência do Diário Oficial atual ou publicados em coletâneas históricas de legislação, cite a coletânea consultada (por exemplo, uma coleção de leis do período imperial organizada e publicada posteriormente) como a fonte, informando também a data original do ato no corpo do texto.
Grafia de época, [sic] e citação direta longa
Ao transcrever trechos de fontes primárias com grafia antiga (português arcaico, ortografia pré-reforma), duas convenções evitam mal-entendidos:
- Preserve a grafia original na citação direta — não modernize. Se um erro ou grafia estranha ao leitor atual puder ser confundido com erro de digitação seu, use [sic] logo após o trecho, indicando que a forma é fiel ao original.
- Citação direta com mais de três linhas segue a formatação da NBR 10520: recuo de 4 cm da margem esquerda, fonte menor, espaçamento simples, sem aspas. Isso vale para transcrições de documentos de arquivo tanto quanto para citação de livros.
Exemplo: “a estrada de ferro trará infalivelmente prosperidade a esta provincia [sic]” — a grafia “provincia” sem acento é preservada por ser fiel ao documento de 1887, e o [sic] avisa o leitor de que não é erro de digitação do TCC.
Erros que a banca de História cobra
- Citar o arquivo sem a localização exata (fundo, série, caixa) — sem isso, a fonte não é verificável por outro pesquisador, o que compromete a credibilidade da pesquisa histórica.
- Modernizar a grafia sem avisar. Se você optar por modernizar por clareza (aceitável em alguns cursos), declare isso explicitamente na metodologia — nunca silenciosamente.
- Citar depoimento oral sem termo de cessão. Mesmo com consentimento verbal, a ausência do termo assinado é uma falha ética que a banca de História, cada vez mais atenta a diretrizes de ética em pesquisa, cobra especificamente.
- Reproduzir imagem de acervo sem checar restrição de uso. Assumir que uma fotografia de arquivo público pode ser reproduzida livremente, sem confirmar crédito e condições, é um erro comum que gera correção de última hora.
- Tratar fonte primária e fonte secundária com o mesmo peso analítico. A referência bibliográfica de um livro sobre o tema (fonte secundária) e a referência de um documento de arquivo (fonte primária) usam modelos diferentes e cumprem funções diferentes no texto — misturá-las na lista de referências sem essa distinção enfraquece a crítica documental.
Para a formatação geral do trabalho — margens, espaçamento, ordem dos elementos pré-textuais — use a estrutura completa do TCC pela ABNT como referência, e para o restante dos tipos de fonte (livro, artigo, site, lei recente), consulte o guia geral de como fazer referências ABNT por tipo de fonte. Se o seu recorte metodológico ainda está em definição, o guia de como fazer TCC de História cobre a escolha do recorte, os acervos brasileiros mais usados e a crítica documental interna e externa.
Perguntas frequentes
Como cito um jornal antigo sem autor identificado?
Use o título da matéria em maiúsculas como entrada, seguido do nome do jornal, cidade, data completa, caderno ou seção e página, no padrão da NBR 6023 para parte de publicação periódica sem autoria. Registre também a fonte de acesso ao exemplar (hemeroteca digital, microfilme ou acervo físico).
É obrigatório citar o código do documento no arquivo (fundo, caixa)?
Sim, sempre que o acervo fornecer essa informação — é o que permite que outro pesquisador localize o mesmo documento. Se o acervo não usa esse sistema de organização, registre a forma de localização que ele efetivamente disponibiliza (protocolo, número de processo, código de catalogação).
Preciso de aprovação de comitê de ética para entrevistas de história oral?
Na maioria dos programas brasileiros, sim — a pesquisa com seres humanos, incluindo depoimentos orais, está sujeita à submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa via Plataforma Brasil, conforme as Resoluções CNS nº 466/2012 e nº 510/2016. Confirme o procedimento específico com o colegiado do seu curso antes de iniciar as entrevistas.
Posso modernizar a ortografia de um documento de época ao transcrever?
Pode, se a metodologia do trabalho declarar essa opção explicitamente e de forma consistente. O padrão mais aceito em pesquisa histórica, porém, é preservar a grafia original e usar [sic] quando houver risco de confusão com erro de digitação.
Existe uma norma ABNT específica só para documentos de arquivo?
Não existe uma norma exclusiva; a NBR 6023 trata documentos não publicados dentro do modelo geral de referência, com os elementos essenciais (autor, título/descrição, data, instituição custodiante, localização). O detalhamento fino da localização varia por acervo — siga a convenção do arquivo consultado sempre que ele publicar uma.
