A Teoria do Déficit de Autocuidado, desenvolvida pela enfermeira norte-americana Dorothea Orem entre 1959 e 2001, é uma teoria de Enfermagem muito citada em TCCs brasileiros porque oferece uma estrutura pronta para justificar por que a intervenção de enfermagem é necessária: quando a pessoa não consegue mais suprir sozinha suas próprias necessidades de cuidado, entra em cena o papel do enfermeiro. Este guia mostra como aplicar a teoria de Orem no marco teórico do seu trabalho, sem repetir um erro frequente — citar o nome da teoria sem realmente usá-la para sustentar os objetivos e a metodologia. Se você ainda não decidiu a estrutura geral dessa seção, veja primeiro como escrever e estruturar o referencial teórico do TCC.
As três teorias inter-relacionadas que compõem o modelo de Orem
O que muitos chamam de “teoria de Orem” é, na verdade, um conjunto de três teorias que se encaixam:
- Teoria do autocuidado: descreve por que e como as pessoas cuidam de si mesmas. Orem organiza as necessidades de autocuidado em três grupos — os requisitos universais (comuns a todas as pessoas: ar, água, alimentação, eliminação, atividade e repouso, equilíbrio entre solidão e interação social, prevenção de riscos e promoção da normalidade), os requisitos de desenvolvimento (ligados às fases da vida) e os requisitos de desvio de saúde (que surgem com a doença ou o tratamento).
- Teoria do déficit de autocuidado: explica quando e por que a enfermagem se torna necessária — especificamente quando a demanda de autocuidado terapêutico da pessoa supera sua capacidade de autocuidado (sua “agência de autocuidado”). Esse desequilíbrio é o déficit.
- Teoria dos sistemas de enfermagem: descreve como o enfermeiro responde ao déficit, por meio de três modalidades de apoio — o sistema totalmente compensatório (o enfermeiro assume o cuidado porque o paciente não consegue realizá-lo), o parcialmente compensatório (enfermeiro e paciente dividem tarefas) e o de apoio-educação (o paciente consegue realizar o autocuidado, mas precisa de orientação, supervisão ou apoio emocional).

Como encaixar Orem no seu marco teórico, passo a passo
- Mostre por que a teoria se aplica ao seu tema. Não basta dizer que vai usar “a teoria de Orem” — explique por que o seu problema de pesquisa é, no fundo, um problema de autocuidado. Um TCC sobre adesão ao tratamento em idosos hipertensos, por exemplo, se encaixa nos requisitos de desvio de saúde; um TCC sobre cuidados com estomia se encaixa nos mesmos requisitos, mas evoluindo de um sistema totalmente compensatório logo após a cirurgia para um sistema de apoio-educação à medida que o paciente aprende a se cuidar.
- Classifique o sujeito da sua pesquisa dentro dos três grupos de requisitos. Diga explicitamente quais requisitos universais, de desenvolvimento e de desvio de saúde estão em jogo no seu recorte — isso vira, quase pronto, parte da justificativa teórica do trabalho.
- Identifique o déficit. Descreva, com base na literatura ou nos dados que você vai coletar, onde está o desequilíbrio entre demanda e capacidade de autocuidado do seu sujeito de pesquisa.
- Relacione o déficit ao sistema de enfermagem esperado. Diga qual dos três sistemas (totalmente compensatório, parcialmente compensatório, apoio-educação) mais se aplica ao cenário do seu estudo — isso ajuda a justificar o tipo de intervenção ou de instrumento que você vai propor ou avaliar.
- Use a teoria para formular hipóteses ou categorias de análise. Em um estudo quantitativo, os requisitos de autocuidado podem virar as dimensões do seu instrumento; em um estudo qualitativo, podem virar categorias prévias de análise de conteúdo.
Exemplo ilustrativo de aplicação
O exemplo abaixo é fictício e serve apenas para mostrar a lógica de aplicação — adapte a estrutura ao seu próprio tema, nunca copie o conteúdo.
- Tema: autocuidado de pessoas com diabetes tipo 2 em acompanhamento na Atenção Primária.
- Requisitos em jogo: requisito de desvio de saúde (controle glicêmico, uso correto da insulina) e requisito universal (alimentação, atividade e repouso).
- Déficit identificado (ilustrativo): parte dos participantes relata dificuldade em ajustar a dose de insulina de forma autônoma, indicando uma lacuna entre a demanda terapêutica e a capacidade atual de autocuidado.
- Sistema de enfermagem correspondente: apoio-educação — o paciente tem capacidade de realizar o autocuidado, mas precisa de orientação estruturada e acompanhamento.
- Objetivo derivado (ilustrativo): avaliar o efeito de um programa educativo de enfermagem baseado na teoria do déficit de autocuidado sobre a capacidade de autocuidado de pessoas com diabetes tipo 2.

Erros comuns ao citar Orem no TCC
- Citar a teoria só na introdução e nunca mais. Se os requisitos de autocuidado não aparecem na metodologia (como categorias, variáveis ou dimensões do instrumento), a teoria não está realmente sustentando o trabalho — está apenas decorando a introdução.
- Confundir “autocuidado” genérico com a teoria de Orem. Falar em autocuidado sem usar a estrutura de requisitos, déficit e sistemas de enfermagem não é aplicar a teoria — é usar a palavra.
- Misturar Orem com outra teoria sem justificar. É possível usar mais de um referencial (por exemplo, Orem para autocuidado e um modelo de adesão ao tratamento para outra dimensão), mas a banca espera ver por que as duas se complementam, não apenas uma lista de nomes. O guia de como escrever a discussão de um trabalho de Enfermagem mostra como retomar a teoria escolhida também na análise dos resultados, não só no referencial.
- Tratar os três sistemas de enfermagem como sinônimos. Totalmente compensatório, parcialmente compensatório e apoio-educação descrevem situações clínicas diferentes — escolher o errado enfraquece a justificativa da intervenção proposta.
Onde a teoria de Orem funciona melhor em um TCC
A teoria rende mais em temas ligados a doenças crônicas, reabilitação, cuidados pós-cirúrgicos, cuidados com estomias e feridas, educação em saúde e cuidado domiciliar — qualquer cenário em que o objetivo final seja devolver ao paciente (ou ao cuidador) a capacidade de se cuidar sozinho. Ela rende menos em temas de urgência/emergência ou terapia intensiva, em que o foco imediato não é a autonomia do paciente, e nesses casos outra teoria de enfermagem costuma se encaixar melhor. Se você ainda está escolhendo o tema, a lista de temas de TCC de Enfermagem mostra vários recortes em que o autocuidado é central.
Adaptando a teoria a diferentes desenhos de pesquisa
A forma de usar Orem muda conforme o desenho escolhido para o TCC:
- Estudo transversal (survey): os requisitos de autocuidado (universais, de desenvolvimento, de desvio de saúde) viram dimensões de um instrumento de coleta, cada uma com itens específicos ao tema. O resultado costuma ser apresentado como o nível de autocuidado da amostra em cada dimensão.
- Estudo de intervenção (quase-experimental): a teoria orienta o desenho de um programa educativo ou de apoio, classificado como sistema totalmente compensatório, parcialmente compensatório ou de apoio-educação, e a variável de desfecho mede a mudança na capacidade de autocuidado antes e depois da intervenção.
- Estudo qualitativo: os três grupos de requisitos funcionam como categorias prévias de análise de conteúdo, e o déficit de autocuidado é identificado a partir dos discursos dos participantes sobre suas dificuldades no dia a dia.
- Revisão de literatura: a teoria serve como lente para organizar os achados de outros estudos — por exemplo, agrupando as intervenções de enfermagem encontradas na literatura segundo o sistema de enfermagem (totalmente compensatório, parcialmente compensatório, apoio-educação) que cada uma representa.
Independentemente do desenho, o teste mais simples para saber se a teoria está bem aplicada é perguntar: se eu removesse o nome de Orem do texto, a lógica da metodologia ainda faria sentido, ou ela desabaria? Se a resposta for que nada muda, a teoria está sendo citada, não aplicada.
Orem versus outras teorias de enfermagem citadas em TCC
Vale diferenciar Orem de outras teorias de enfermagem frequentemente citadas, para não escolher a que “soa bem” em vez da que responde ao seu problema de pesquisa:
- Teoria do Déficit de Autocuidado (Orem): foco na capacidade da pessoa de cuidar de si mesma e no papel da enfermagem quando essa capacidade não é suficiente. Melhor encaixe: doenças crônicas, reabilitação, educação em saúde, cuidado domiciliar.
- Teoria do Conforto (Katharine Kolcaba): foco no conforto físico, psicoespiritual, ambiental e sociocultural do paciente. Melhor encaixe: cuidados paliativos, dor, terminalidade.
- Teoria das Relações Interpessoais (Hildegard Peplau): foco na relação terapêutica entre enfermeiro e paciente ao longo de fases (orientação, identificação, exploração, resolução). Melhor encaixe: saúde mental, comunicação em enfermagem.
- Teoria da Adaptação (Callista Roy): foco em como a pessoa se adapta a estímulos internos e externos por meio de quatro modos adaptativos (fisiológico, autoconceito, função de papel, interdependência). Melhor encaixe: enfrentamento de doença crônica, mudanças de papel social pela doença.
Se o seu problema de pesquisa gira em torno de “a pessoa consegue ou não cuidar de si mesma”, Orem tende a ser o encaixe mais direto; se gira em torno de conforto, vínculo terapêutico ou adaptação a um novo papel, outra teoria pode sustentar melhor o trabalho — e trocar de teoria na fase de projeto é normal e esperado, não é um erro.
Onde a citação de Orem costuma aparecer no texto
Além do referencial teórico, a teoria de Orem tende a reaparecer em pelo menos mais dois pontos do trabalho: na justificativa (explicando por que um problema de autocuidado merece atenção da enfermagem) e na discussão dos resultados (relendo os achados à luz dos três blocos da teoria). Um trabalho que cita Orem só uma vez, na introdução, e nunca mais a retoma, tende a receber a crítica de que o referencial teórico “não conversa” com o restante do texto — uma objeção frequente em bancas de Enfermagem.
Como declarar a escolha teórica na metodologia
Um parágrafo de metodologia que declara bem o referencial teórico costuma seguir esta ordem: (1) nomear a teoria e a autora; (2) justificar por que ela se aplica ao problema de pesquisa, com uma frase que conecta um conceito da teoria a um elemento do seu tema; (3) dizer como a teoria vai orientar a coleta ou a análise — por exemplo, se os requisitos de autocuidado vão virar dimensões de um questionário ou categorias de análise de conteúdo. Bancas de Enfermagem costumam perguntar, na defesa, “onde a teoria aparece nos seus resultados?” — ter essa resposta pronta, com um exemplo concreto de como um achado dialoga com um dos três blocos da teoria (autocuidado, déficit ou sistema de enfermagem), evita a resposta genérica de que a teoria “serviu de base”.
Perguntas frequentes
Quem criou a Teoria do Déficit de Autocuidado e quando?
A enfermeira norte-americana Dorothea Orem desenvolveu a teoria ao longo de várias décadas, entre 1959 e 2001, refinando-a em edições sucessivas de sua obra.
A teoria de Orem tem mais de uma parte?
Sim, é composta por três teorias inter-relacionadas: a teoria do autocuidado, a teoria do déficit de autocuidado e a teoria dos sistemas de enfermagem.
Posso usar a teoria de Orem em um TCC qualitativo?
Sim. Os requisitos de autocuidado (universais, de desenvolvimento e de desvio de saúde) podem funcionar como categorias prévias de análise de conteúdo ou temática, orientando a construção do roteiro de entrevista.
Preciso citar a obra original de Orem ou posso citar autores secundários?
O ideal é citar a fonte primária sempre que possível; quando isso não for viável, cite autores secundários que discutem a teoria com rigor, deixando claro no texto que se trata de uma citação de segunda mão (apud), conforme a NBR 10520.
A teoria de Orem serve para qualquer especialidade de Enfermagem?
Não necessariamente. Ela se aplica melhor a contextos em que a autonomia do paciente para se cuidar é o foco central, como doenças crônicas e reabilitação, e menos a contextos de urgência e terapia intensiva.
Preciso escolher só uma teoria de enfermagem para o TCC?
Na maioria dos cursos, sim — um único referencial teórico principal deixa o trabalho mais coeso e mais fácil de sustentar na defesa. Combinar duas teorias é possível em trabalhos mais avançados, mas exige justificar explicitamente como elas se complementam sem se sobrepor.
Como o Tesify ajuda a estruturar essa seção
Depois de decidir como a teoria de Orem vai sustentar o seu problema de pesquisa, o próximo passo é redigir o referencial teórico de forma coesa, conectando cada requisito de autocuidado aos objetivos do trabalho. O Tesify ajuda você a estruturar e planejar essa seção com apoio de IA, e o texto continua sendo seu. Mais de 9.000 estudantes e mais de 15.000 capítulos já foram escritos com o Tesify — 100% escritos por você.
