Uma referência ABNT começa pelo sobrenome do autor — e é aí que mora um dos erros mais frequentes e menos percebidos dos TCCs brasileiros. Quando o nome traz Filho, Júnior, Neto, um sobrenome hispânico, um composto com hífen ou uma partícula como de, decidir o que vai para a frente deixa de ser óbvio. E a decisão errada contamina três coisas ao mesmo tempo: a entrada, a citação no texto e a ordem alfabética da lista.
Grau de parentesco: Filho, Júnior, Neto
A regra, na formulação do manual editorial do Ipea — que declara seguir a ABNT NBR 10520:2023 — é direta: “Palavras que indicam grau de parentesco: acompanham o último sobrenome e devem estar em maiúsculas e por extenso (Júnior, Filho, Neto etc.)”.
Três instruções em uma frase. O agnome acompanha o último sobrenome, ou seja, viaja junto com ele para a frente da entrada. Vai em maiúsculas, como o sobrenome. E vai por extenso — não abreviado.
O exemplo do próprio manual: TOURINHO FILHO, F. C. Processo penal. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 1994. 4 v.
Compare com o erro clássico. O autor é Fernando da Costa Tourinho Filho. A tentação é entrar por “Filho”, porque é a última palavra do nome. Mas “Filho” não é o sobrenome dele — é um indicador de parentesco colado ao sobrenome Tourinho. A entrada correta é TOURINHO FILHO, e uma lista organizada por “FILHO” agruparia, na letra F, dezenas de autores sem nenhuma relação entre si.

O efeito na citação e na ordem alfabética
Esta é a parte que quase todo material esquece, e é a que a banca vê primeiro, porque aparece no corpo do texto.
A citação repete a entrada. Se a referência entra como TOURINHO FILHO, a chamada no texto é (TOURINHO FILHO, 1994). Escrever apenas “(FILHO, 1994)” produz uma chamada que não corresponde a nenhuma entrada da sua lista — e a função do sistema autor-data é justamente permitir que o leitor vá da chamada até a referência. Quebrada essa correspondência, o sistema para de funcionar. A mecânica geral está em sistema autor-data e numérico.
A ordem alfabética muda junto. As designações de parentesco figuram na entrada logo após o último sobrenome e são consideradas na ordenação. Na prática, TOURINHO FILHO fica entre os T, não entre os F — e, se houver dois autores com o mesmo sobrenome principal, o agnome é o que os desempata. Como ordenar a lista está em ordem das referências ABNT.
Note o efeito em cadeia: um campo de autor preenchido errado erra a entrada, erra a citação e erra a posição na lista. É por isso que vale corrigir na origem, e não no texto final.
Sobrenomes hispânicos
Autores de língua espanhola costumam carregar dois sobrenomes: o paterno e o materno, nessa ordem. A entrada se faz pelo conjunto, começando pelo paterno — como no exemplo do manual do Ipea: GARCÍA MARQUEZ, Gabriel. O amor nos tempos do cólera. 33. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.
O erro típico é aplicar o hábito brasileiro e entrar pelo último elemento — “MARQUEZ, Gabriel García” —, o que desloca o autor para a letra errada e o separa de outras obras suas na mesma lista. Vale lembrar que o segundo sobrenome ali não é um sobrenome adicional opcional: é parte da identificação do autor.
O caso importa mais do que parece num TCC brasileiro, porque literatura em espanhol é frequente em várias áreas — e porque as bases de dados internacionais tratam esses nomes de formas inconsistentes.
Compostos, expressões e prefixos
Três situações que seguem lógicas próprias, todas com exemplos no mesmo manual:
Sobrenomes ligados por hífen formam uma unidade e entram inteiros: SAINT-ARNAUD, Yves. O hífen é o sinal de que os dois elementos são um sobrenome só.
Sobrenomes que formam uma expressão também permanecem juntos, porque separá-los destruiria o sentido: ESPÍRITO SANTO, Miguel Frederico de. Repare, nesse exemplo, no destino da partícula: o “de” acompanha os prenomes e vai para o fim da entrada, não para a frente.
Sobrenomes com prefixo aglutinado entram com ele: D’AMBROSIO, Ubiratan. Quando o prefixo está grudado ao nome por apóstrofo, ele faz parte do sobrenome.
A regra prática que organiza os três casos: pergunte se o elemento é parte do sobrenome ou apenas uma partícula de ligação. Partículas soltas em português — de, da, do, dos, e — ficam com os prenomes. Elementos que integram o sobrenome, por hífen, por apóstrofo ou por formarem uma expressão, vão para a frente com ele.

Tabela de referência rápida
| Nome do autor | Entrada na referência | Citação no texto |
|---|---|---|
| Fernando da Costa Tourinho Filho | TOURINHO FILHO, F. C. | (TOURINHO FILHO, ano) |
| Durval de Lima Junior | LIMA JUNIOR, Durval de | (LIMA JUNIOR, ano) |
| Gabriel García Márquez | GARCÍA MARQUEZ, Gabriel | (GARCÍA MARQUEZ, ano) |
| Yves Saint-Arnaud | SAINT-ARNAUD, Yves | (SAINT-ARNAUD, ano) |
| Miguel Frederico do Espírito Santo | ESPÍRITO SANTO, Miguel Frederico de | (ESPÍRITO SANTO, ano) |
| Ubiratan D’Ambrosio | D’AMBROSIO, Ubiratan | (D’AMBROSIO, ano) |
Um lembrete de coerência: a abreviação dos prenomes é uma escolha que vale para a lista inteira. Se você abrevia em um, abrevia em todos — e o seu guia de normalização institucional pode determinar qual das duas formas adotar, assunto tratado em qual versão da norma ABNT o seu TCC deve seguir.
O mesmo autor com dois nomes na sua lista
Há um problema vizinho que aparece muito e que ninguém ensina a resolver: o mesmo pesquisador assinando de formas diferentes ao longo da carreira. Uma autora publica como “Ana Souza” em 2015 e como “Ana Souza Lima” em 2022, depois de uma mudança de nome. Um autor aparece com o acento em um artigo e sem acento em outro, porque a base internacional o removeu. Outro assina com dois sobrenomes numa revista brasileira e com um só numa revista estrangeira.
Quando isso acontece, a sua lista de referências passa a conter duas entradas que o leitor lerá como duas pessoas. Pior: elas caem em letras diferentes, então nem ficam próximas para que alguém perceba a relação. E, no corpo do texto, você acaba escrevendo (SOUZA, 2015) e (SOUZA LIMA, 2022) sobre a mesma autora, perdendo a chance de mostrar que existe uma trajetória de pesquisa ali — que é justamente o tipo de leitura que valoriza um referencial teórico.
O que fazer, na ordem:
- Verifique se é a mesma pessoa antes de qualquer coisa. Coincidência de sobrenome é comum no Brasil; instituição, área e coautores costumam resolver a dúvida.
- Reproduza o nome como consta em cada publicação. A referência descreve o documento tal como ele existe — você não corrige retroativamente a assinatura de uma obra publicada.
- Faça a ligação no texto, e não na lista. Uma frase como “em trabalho anterior, a mesma autora (SOUZA, 2015) já apontava…” resolve com elegância o que a lista não pode resolver sozinha.
- Confira o identificador do autor quando existir. É exatamente para esse problema que os identificadores persistentes foram criados, como se explica em o que é ORCID — eles amarram todas as variações de nome a uma mesma pessoa.
Por que o gerenciador erra sozinho

Se você usa Zotero ou Mendeley, esta seção é a mais importante do artigo. Esses programas erram exatamente esta classe de caso, e erram em silêncio.
O motivo é estrutural. O gerenciador não interpreta o nome: ele usa a separação entre prenome e sobrenome que veio nos metadados da base de onde você importou o item. E bases bibliográficas — sobretudo as internacionais — costumam registrar apenas o último elemento como sobrenome. O resultado é previsível: “Tourinho Filho” chega dividido, com “Filho” no campo de sobrenome e “Fernando da Costa Tourinho” no de prenome. O estilo então aplica a regra corretamente… sobre dados errados, e produz FILHO, Fernando da Costa Tourinho, impecavelmente formatado.
É o mesmo princípio já visto na instalação do estilo: a formatação automática processa o que existe no registro; ela não conserta o registro. A instalação e a escolha do estilo estão em estilo ABNT no Zotero, e a comparação entre gerenciadores em Mendeley ou Zotero.
A rotina de conferência que resolve, e que leva minutos:
- Filtre a sua biblioteca pelos autores brasileiros e hispânicos — são onde os erros se concentram.
- Abra o campo de autor e verifique onde está a divisão entre prenome e sobrenome.
- Corrija manualmente os casos de agnome, sobrenome hispânico, hífen, expressão e prefixo.
- Regenere a bibliografia e confira a posição alfabética dos itens corrigidos — se um deles mudou de letra, a correção pegou.
O restante da montagem das entradas, por tipo de fonte, está em como fazer referências ABNT, e o tratamento de obras com muitos autores em citação com vários autores. Para não fazer essa conferência nome a nome na véspera da entrega, escreva o TCC no Tesify: as referências em ABNT são montadas conforme você escreve, e o texto continua 100% seu.
Perguntas frequentes
Como referenciar autor com Filho, Júnior ou Neto no sobrenome?
As palavras que indicam grau de parentesco acompanham o último sobrenome e vão em maiúsculas, por extenso. Fernando da Costa Tourinho Filho entra como TOURINHO FILHO, F. C.
Como fica a citação no texto de um autor com Filho ou Júnior?
A citação repete a entrada: (TOURINHO FILHO, 1994). Escrever apenas (FILHO, 1994) cria uma chamada que não corresponde a nenhuma entrada da lista.
Como referenciar autor com sobrenome hispânico?
Pelo conjunto, começando pelo sobrenome paterno: GARCÍA MARQUEZ, Gabriel. Entrar apenas pelo último elemento é o erro mais frequente com autores de língua espanhola.
E sobrenomes com de, da, dos ou d’?
As partículas em português acompanham os prenomes e ficam ao fim da entrada, como em ESPÍRITO SANTO, Miguel Frederico de. Prefixos aglutinados entram com o sobrenome, como D’AMBROSIO, Ubiratan.
O Zotero e o Mendeley acertam esses casos sozinhos?
Frequentemente não. Eles usam a separação de prenome e sobrenome que veio da base de origem, e essas bases costumam registrar só o último elemento como sobrenome. Sai uma entrada errada com formatação perfeita.
Onde essas designações entram na ordem alfabética?
Logo após o último sobrenome, e são consideradas na ordenação. TOURINHO FILHO fica entre os T; quando dois autores compartilham o sobrenome principal, o agnome é o que desempata.
E se o mesmo autor assinou de formas diferentes?
Reproduza o nome como consta em cada publicação — a referência descreve o documento como ele é. A ligação entre as obras se faz no texto, e o identificador persistente do autor, quando existir, confirma que se trata da mesma pessoa.
