Filho, Júnior, Neto e Sobrenomes Compostos na ABNT em 2026: Como Entrar o Autor na Referência

Uma referência ABNT começa pelo sobrenome do autor — e é aí que mora um dos erros mais frequentes e menos percebidos dos TCCs brasileiros. Quando o nome traz Filho, Júnior, Neto, um sobrenome hispânico, um composto com hífen ou uma partícula como de, decidir o que vai para a frente deixa de ser óbvio. E a decisão errada contamina três coisas ao mesmo tempo: a entrada, a citação no texto e a ordem alfabética da lista.

Grau de parentesco: Filho, Júnior, Neto

A regra, na formulação do manual editorial do Ipea — que declara seguir a ABNT NBR 10520:2023 — é direta: “Palavras que indicam grau de parentesco: acompanham o último sobrenome e devem estar em maiúsculas e por extenso (Júnior, Filho, Neto etc.)”.

Três instruções em uma frase. O agnome acompanha o último sobrenome, ou seja, viaja junto com ele para a frente da entrada. Vai em maiúsculas, como o sobrenome. E vai por extenso — não abreviado.

O exemplo do próprio manual: TOURINHO FILHO, F. C. Processo penal. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 1994. 4 v.

Compare com o erro clássico. O autor é Fernando da Costa Tourinho Filho. A tentação é entrar por “Filho”, porque é a última palavra do nome. Mas “Filho” não é o sobrenome dele — é um indicador de parentesco colado ao sobrenome Tourinho. A entrada correta é TOURINHO FILHO, e uma lista organizada por “FILHO” agruparia, na letra F, dezenas de autores sem nenhuma relação entre si.

Diagrama mostrando qual parte do nome é deslocada para a entrada da referência
O agnome não fica sozinho na frente: ele viaja colado ao sobrenome que qualifica.

O efeito na citação e na ordem alfabética

Esta é a parte que quase todo material esquece, e é a que a banca vê primeiro, porque aparece no corpo do texto.

A citação repete a entrada. Se a referência entra como TOURINHO FILHO, a chamada no texto é (TOURINHO FILHO, 1994). Escrever apenas “(FILHO, 1994)” produz uma chamada que não corresponde a nenhuma entrada da sua lista — e a função do sistema autor-data é justamente permitir que o leitor vá da chamada até a referência. Quebrada essa correspondência, o sistema para de funcionar. A mecânica geral está em sistema autor-data e numérico.

A ordem alfabética muda junto. As designações de parentesco figuram na entrada logo após o último sobrenome e são consideradas na ordenação. Na prática, TOURINHO FILHO fica entre os T, não entre os F — e, se houver dois autores com o mesmo sobrenome principal, o agnome é o que os desempata. Como ordenar a lista está em ordem das referências ABNT.

Note o efeito em cadeia: um campo de autor preenchido errado erra a entrada, erra a citação e erra a posição na lista. É por isso que vale corrigir na origem, e não no texto final.

Sobrenomes hispânicos

Autores de língua espanhola costumam carregar dois sobrenomes: o paterno e o materno, nessa ordem. A entrada se faz pelo conjunto, começando pelo paterno — como no exemplo do manual do Ipea: GARCÍA MARQUEZ, Gabriel. O amor nos tempos do cólera. 33. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.

O erro típico é aplicar o hábito brasileiro e entrar pelo último elemento — “MARQUEZ, Gabriel García” —, o que desloca o autor para a letra errada e o separa de outras obras suas na mesma lista. Vale lembrar que o segundo sobrenome ali não é um sobrenome adicional opcional: é parte da identificação do autor.

O caso importa mais do que parece num TCC brasileiro, porque literatura em espanhol é frequente em várias áreas — e porque as bases de dados internacionais tratam esses nomes de formas inconsistentes.

Compostos, expressões e prefixos

Três situações que seguem lógicas próprias, todas com exemplos no mesmo manual:

Sobrenomes ligados por hífen formam uma unidade e entram inteiros: SAINT-ARNAUD, Yves. O hífen é o sinal de que os dois elementos são um sobrenome só.

Sobrenomes que formam uma expressão também permanecem juntos, porque separá-los destruiria o sentido: ESPÍRITO SANTO, Miguel Frederico de. Repare, nesse exemplo, no destino da partícula: o “de” acompanha os prenomes e vai para o fim da entrada, não para a frente.

Sobrenomes com prefixo aglutinado entram com ele: D’AMBROSIO, Ubiratan. Quando o prefixo está grudado ao nome por apóstrofo, ele faz parte do sobrenome.

A regra prática que organiza os três casos: pergunte se o elemento é parte do sobrenome ou apenas uma partícula de ligação. Partículas soltas em português — de, da, do, dos, e — ficam com os prenomes. Elementos que integram o sobrenome, por hífen, por apóstrofo ou por formarem uma expressão, vão para a frente com ele.

Índice alfabético com uma entrada destacada por lupa e outras marcadas por etiquetas
A entrada correta é o que permite ao leitor encontrar a obra na lista — essa é a função inteira da regra.

Tabela de referência rápida

Como entra cada tipo de nome
Nome do autor Entrada na referência Citação no texto
Fernando da Costa Tourinho Filho TOURINHO FILHO, F. C. (TOURINHO FILHO, ano)
Durval de Lima Junior LIMA JUNIOR, Durval de (LIMA JUNIOR, ano)
Gabriel García Márquez GARCÍA MARQUEZ, Gabriel (GARCÍA MARQUEZ, ano)
Yves Saint-Arnaud SAINT-ARNAUD, Yves (SAINT-ARNAUD, ano)
Miguel Frederico do Espírito Santo ESPÍRITO SANTO, Miguel Frederico de (ESPÍRITO SANTO, ano)
Ubiratan D’Ambrosio D’AMBROSIO, Ubiratan (D’AMBROSIO, ano)

Um lembrete de coerência: a abreviação dos prenomes é uma escolha que vale para a lista inteira. Se você abrevia em um, abrevia em todos — e o seu guia de normalização institucional pode determinar qual das duas formas adotar, assunto tratado em qual versão da norma ABNT o seu TCC deve seguir.

O mesmo autor com dois nomes na sua lista

Há um problema vizinho que aparece muito e que ninguém ensina a resolver: o mesmo pesquisador assinando de formas diferentes ao longo da carreira. Uma autora publica como “Ana Souza” em 2015 e como “Ana Souza Lima” em 2022, depois de uma mudança de nome. Um autor aparece com o acento em um artigo e sem acento em outro, porque a base internacional o removeu. Outro assina com dois sobrenomes numa revista brasileira e com um só numa revista estrangeira.

Quando isso acontece, a sua lista de referências passa a conter duas entradas que o leitor lerá como duas pessoas. Pior: elas caem em letras diferentes, então nem ficam próximas para que alguém perceba a relação. E, no corpo do texto, você acaba escrevendo (SOUZA, 2015) e (SOUZA LIMA, 2022) sobre a mesma autora, perdendo a chance de mostrar que existe uma trajetória de pesquisa ali — que é justamente o tipo de leitura que valoriza um referencial teórico.

O que fazer, na ordem:

  1. Verifique se é a mesma pessoa antes de qualquer coisa. Coincidência de sobrenome é comum no Brasil; instituição, área e coautores costumam resolver a dúvida.
  2. Reproduza o nome como consta em cada publicação. A referência descreve o documento tal como ele existe — você não corrige retroativamente a assinatura de uma obra publicada.
  3. Faça a ligação no texto, e não na lista. Uma frase como “em trabalho anterior, a mesma autora (SOUZA, 2015) já apontava…” resolve com elegância o que a lista não pode resolver sozinha.
  4. Confira o identificador do autor quando existir. É exatamente para esse problema que os identificadores persistentes foram criados, como se explica em o que é ORCID — eles amarram todas as variações de nome a uma mesma pessoa.

Por que o gerenciador erra sozinho

Correção manual de entradas de autor em uma lista de referências impressa
Formatação impecável e entrada errada: o defeito que só a conferência do campo de autor revela.

Se você usa Zotero ou Mendeley, esta seção é a mais importante do artigo. Esses programas erram exatamente esta classe de caso, e erram em silêncio.

O motivo é estrutural. O gerenciador não interpreta o nome: ele usa a separação entre prenome e sobrenome que veio nos metadados da base de onde você importou o item. E bases bibliográficas — sobretudo as internacionais — costumam registrar apenas o último elemento como sobrenome. O resultado é previsível: “Tourinho Filho” chega dividido, com “Filho” no campo de sobrenome e “Fernando da Costa Tourinho” no de prenome. O estilo então aplica a regra corretamente… sobre dados errados, e produz FILHO, Fernando da Costa Tourinho, impecavelmente formatado.

É o mesmo princípio já visto na instalação do estilo: a formatação automática processa o que existe no registro; ela não conserta o registro. A instalação e a escolha do estilo estão em estilo ABNT no Zotero, e a comparação entre gerenciadores em Mendeley ou Zotero.

A rotina de conferência que resolve, e que leva minutos:

  1. Filtre a sua biblioteca pelos autores brasileiros e hispânicos — são onde os erros se concentram.
  2. Abra o campo de autor e verifique onde está a divisão entre prenome e sobrenome.
  3. Corrija manualmente os casos de agnome, sobrenome hispânico, hífen, expressão e prefixo.
  4. Regenere a bibliografia e confira a posição alfabética dos itens corrigidos — se um deles mudou de letra, a correção pegou.

O restante da montagem das entradas, por tipo de fonte, está em como fazer referências ABNT, e o tratamento de obras com muitos autores em citação com vários autores. Para não fazer essa conferência nome a nome na véspera da entrega, escreva o TCC no Tesify: as referências em ABNT são montadas conforme você escreve, e o texto continua 100% seu.

Perguntas frequentes

Como referenciar autor com Filho, Júnior ou Neto no sobrenome?

As palavras que indicam grau de parentesco acompanham o último sobrenome e vão em maiúsculas, por extenso. Fernando da Costa Tourinho Filho entra como TOURINHO FILHO, F. C.

Como fica a citação no texto de um autor com Filho ou Júnior?

A citação repete a entrada: (TOURINHO FILHO, 1994). Escrever apenas (FILHO, 1994) cria uma chamada que não corresponde a nenhuma entrada da lista.

Como referenciar autor com sobrenome hispânico?

Pelo conjunto, começando pelo sobrenome paterno: GARCÍA MARQUEZ, Gabriel. Entrar apenas pelo último elemento é o erro mais frequente com autores de língua espanhola.

E sobrenomes com de, da, dos ou d’?

As partículas em português acompanham os prenomes e ficam ao fim da entrada, como em ESPÍRITO SANTO, Miguel Frederico de. Prefixos aglutinados entram com o sobrenome, como D’AMBROSIO, Ubiratan.

O Zotero e o Mendeley acertam esses casos sozinhos?

Frequentemente não. Eles usam a separação de prenome e sobrenome que veio da base de origem, e essas bases costumam registrar só o último elemento como sobrenome. Sai uma entrada errada com formatação perfeita.

Onde essas designações entram na ordem alfabética?

Logo após o último sobrenome, e são consideradas na ordenação. TOURINHO FILHO fica entre os T; quando dois autores compartilham o sobrenome principal, o agnome é o que desempata.

E se o mesmo autor assinou de formas diferentes?

Reproduza o nome como consta em cada publicação — a referência descreve o documento como ele é. A ligação entre as obras se faz no texto, e o identificador persistente do autor, quando existir, confirma que se trata da mesma pessoa.

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