Antes de escrever o TCC de Gestão de RH propriamente dito, a maioria dos cursos exige um projeto de pesquisa — também chamado de pré-projeto ou anteprojeto — que a coordenação ou o orientador aprova antes de você começar a redigir os capítulos finais. Este guia mostra a estrutura completa desse projeto, com um exemplo comentado de tema em Gestão de Recursos Humanos.
O que é o projeto de pesquisa e por que ele vem antes do TCC
O projeto de pesquisa é um documento mais curto que antecipa as decisões centrais do TCC: qual é o tema, qual pergunta ele responde, por que vale a pena pesquisar e como você pretende coletar e analisar os dados. Segundo a NBR 15287:2025 (3ª edição), que trata especificamente da estrutura de projetos de pesquisa, o documento reúne elementos pré-textuais, elementos textuais (introdução, justificativa, objetivos, referencial teórico preliminar, metodologia, cronograma) e elementos pós-textuais (referências). A aprovação do projeto é o que autoriza formalmente você a seguir para a coleta de dados e a redação do TCC completo.

Estrutura completa: o que entra em cada seção
- Capa e folha de rosto — dados institucionais, título provisório, orientador, conforme o modelo do curso.
- Introdução — contextualização do tema dentro da área de Gestão de RH e apresentação do problema.
- Justificativa — por que este subprocesso, nesta organização, agora.
- Objetivos — geral e específicos, alinhados ao problema e à metodologia proposta.
- Referencial teórico preliminar — os conceitos e autores que vão sustentar a análise.
- Metodologia — abordagem, técnica de coleta, forma de análise, acesso aos dados.
- Cronograma — as etapas previstas até a entrega final.
- Referências — obras já consultadas, no padrão NBR 6023:2025.
Exemplo de tema para este guia (fictício e ilustrativo)
Para tornar a estrutura concreta, este guia usa um exemplo fictício do início ao fim: “O impacto de um programa estruturado de onboarding na retenção de novos colaboradores em uma empresa de médio porte do setor de varejo”. Nenhum dado deste exemplo é real — é um modelo para você adaptar ao seu próprio tema e à sua própria organização de estudo. Se você ainda está decidindo o tema, veja também o guia geral de como fazer o TCC de Gestão de RH, que cobre outros subprocessos além do onboarding.
Tema e delimitação
Em Gestão de RH, um tema amplo (“retenção de talentos”) precisa de um recorte que o torne pesquisável: um subprocesso específico do ciclo de gestão de pessoas (recrutamento, onboarding, treinamento, avaliação de desempenho, remuneração, desligamento), um tipo de organização (porte, setor) e um período. No exemplo deste guia, o recorte é: subprocesso (onboarding), organização (empresa de médio porte, setor de varejo) e foco (retenção nos primeiros seis meses de trabalho).
Problema de pesquisa e objetivos (exemplo comentado)
O problema de pesquisa de um projeto em RH costuma ser uma pergunta fechada, testável com os dados disponíveis:
Problema (exemplo fictício): “Em que medida a implementação de um programa estruturado de onboarding está associada à retenção de novos colaboradores nos primeiros seis meses de contratação?”
Objetivo geral: analisar a relação entre a implementação de um programa estruturado de onboarding e a retenção de novos colaboradores nos primeiros seis meses de trabalho.
Objetivos específicos: (1) descrever as práticas de onboarding atualmente adotadas pela organização estudada; (2) comparar os índices de retenção antes e depois da estruturação do programa (ou entre grupos com e sem acesso ao programa); (3) identificar, na percepção dos colaboradores, quais elementos do onboarding mais influenciam a decisão de permanecer.
Um bom conjunto de objetivos específicos, somado, responde ao objetivo geral — e cada um deles antecipa uma técnica de coleta ou análise que vai aparecer na metodologia.
Justificativa: por que este tema importa
A justificativa liga o tema a um problema prático relevante para a área de RH — por exemplo, o custo de reposição de um colaborador que desliga nos primeiros meses (recrutamento, seleção, treinamento reiniciados) — e a uma lacuna ou oportunidade na literatura ou na prática da organização estudada. Evite justificativas genéricas do tipo “a retenção de talentos é importante para as empresas”; prefira algo específico: por que ESTA organização, ESTE subprocesso, agora.
Referencial teórico preliminar: o que entra no projeto
No projeto de pesquisa, o referencial teórico ainda é preliminar — um mapeamento inicial dos conceitos e autores que vão sustentar o TCC completo, não a revisão exaustiva que virá depois. Para um tema de onboarding e retenção, isso costuma incluir: a literatura sobre socialização organizacional (como um novo colaborador aprende os papéis, normas e valores da empresa), modelos de rotatividade voluntária (turnover) que relacionam a decisão de sair a fatores como ajuste pessoa-organização e satisfação nos primeiros meses, e literatura de gestão de pessoas sobre práticas de RH como preditoras de retenção. Cite apenas autores e obras que você já localizou e leu ao menos parcialmente — no projeto, é aceitável indicar “a ser aprofundado” em áreas que você ainda vai explorar, mas nunca invente uma citação com página ou edição que não conferiu.
Metodologia: abordagem, coleta e análise
A metodologia do projeto de pesquisa em Gestão de RH costuma combinar abordagem quantitativa (questionário estruturado com os colaboradores, indicadores de retenção fornecidos pela área de RH da organização) ou qualitativa (entrevistas semiestruturadas com gestores e colaboradores) — ou abordagem mista, comum quando o objetivo combina medir um índice (retenção) e entender a percepção sobre ele.
No exemplo deste guia: pesquisa de abordagem mista, com dados quantitativos de retenção fornecidos pela organização (comparação de índices antes/depois da estruturação do programa) e dados qualitativos de um roteiro de entrevista com uma amostra de colaboradores recém-contratados, sobre a experiência de onboarding. A técnica de análise declarada seria estatística descritiva para os índices de retenção e análise de conteúdo para as entrevistas.
Se a coleta envolver entrevistas ou questionários com colaboradores identificáveis, verifique com o seu orientador se o desenho exige submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa via Plataforma Brasil — pesquisas em ciências humanas e sociais aplicadas seguem a Resolução CNS nº 510/2016, que prevê exceções (por exemplo, pesquisa de opinião pública com participante não identificado), mas a decisão sobre o seu desenho específico cabe ao comitê ou ao seu orientador, nunca a uma suposição do estudante.

Instrumento de coleta: validando o questionário ou o roteiro antes de ir a campo
Um passo que muitos projetos deixam de fora é a validação do instrumento antes da coleta oficial. Depois de redigir o questionário ou o roteiro de entrevista, vale aplicar um pré-teste com um pequeno grupo — colegas, ou dois ou três colaboradores fora da amostra final — só para checar se as perguntas fazem sentido, se o vocabulário é claro para quem vai responder e se o tempo de aplicação é razoável. Esse pré-teste não entra como dado da pesquisa, mas o projeto pode (e deve) mencionar que ele será feito, porque mostra à banca que o instrumento não vai direto do rascunho para o campo sem checagem.
O que a banca avalia na apresentação do projeto
Na defesa do projeto (quando o curso exige apresentação oral, não só entrega escrita), a banca costuma focar em três pontos: se o problema é realmente pesquisável com os recursos e o tempo disponíveis; se a metodologia proposta responde de fato aos objetivos declarados, e não apenas soa academicamente correta; e se o acesso aos dados da organização já está minimamente encaminhado, não apenas planejado no papel. Preparar uma resposta objetiva para cada um desses três pontos evita a maior parte das perguntas difíceis na apresentação.
Acesso aos dados da empresa e cuidado com a LGPD
Um ponto que costuma travar projetos de RH é o acesso a dados internos da organização — índices de turnover, avaliações de desempenho, dados de folha. Antes de submeter o projeto, é recomendável ter pelo menos um contato preliminar com o RH ou a liderança da empresa confirmando a viabilidade do acesso, porque é comum a banca perguntar “como você vai conseguir esses dados?” já na apresentação do projeto. Quando os dados envolvem informações pessoais de colaboradores identificáveis (nome, cargo, avaliação individual), a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD, Lei nº 13.709/2018) exige tratamento cuidadoso: sempre que possível, trabalhe com dados agregados ou anonimizados (por exemplo, taxa de retenção por período, não uma lista nominal de quem saiu), e formalize com a empresa como os dados serão usados e armazenados durante a pesquisa.
Cronograma do projeto (exemplo)

Um cronograma realista para um semestre costuma reservar: 2–3 semanas para revisão de literatura e finalização do referencial teórico; 2 semanas para elaborar e validar o instrumento de coleta (questionário ou roteiro de entrevista) com o orientador; 3–4 semanas para a coleta de dados na organização; 2–3 semanas para análise; 3–4 semanas para redação dos capítulos finais e ajustes; 1–2 semanas de margem para revisão antes da entrega. Ajuste as semanas ao calendário real do seu curso — o cronograma do projeto é uma estimativa, não uma promessa rígida, mas precisa ser plausível o bastante para a banca aprovar.
Referências no projeto de pesquisa
As referências do projeto seguem a NBR 6023:2025 (3ª edição): cada entrada com autor em caixa alta, título, edição/veículo e ano, separada da seguinte por uma linha em branco de espaço simples. No projeto, é comum ter uma lista mais curta que a do TCC final — só as obras já efetivamente consultadas até o momento da submissão.
Diferenças entre o projeto de pesquisa e o TCC final
- O projeto é mais curto e o referencial teórico é preliminar; o TCC final aprofunda cada seção.
- O projeto não tem capítulo de resultados (os dados ainda não foram coletados); o TCC final tem.
- O cronograma do projeto é uma previsão; o TCC final relata o que de fato aconteceu, incluindo eventuais mudanças de rota.
- A metodologia do projeto é uma proposta; no TCC final, ela vira relato do que foi efetivamente executado — inclusive limitações encontradas no caminho.
Erros comuns que atrasam a aprovação do projeto
- Problema de pesquisa formulado como afirmação, não como pergunta testável.
- Objetivos específicos que não se conectam ao objetivo geral nem à metodologia proposta.
- Justificativa genérica, sem ligação com a organização ou o subprocesso específico estudado.
- Cronograma irreal para o tempo disponível no semestre.
- Ausência de menção a como o acesso aos dados da organização será obtido — a banca costuma perguntar isso logo na primeira leitura.
Perguntas frequentes
O projeto de pesquisa de RH precisa ter uma empresa real definida?
Na maioria dos cursos, sim — especialmente quando a coleta depende de acesso a dados internos ou de entrevistas com colaboradores. Se você ainda não tem acesso garantido a uma organização, converse com o orientador sobre alternativas, como uma pesquisa com profissionais de RH de diferentes empresas em vez de uma única organização.
É possível mudar o tema depois que o projeto foi aprovado?
É possível, mas normalmente exige nova aprovação do orientador ou da coordenação, e pode atrasar o cronograma. Pequenos ajustes de recorte (por exemplo, trocar o setor da empresa estudada) costumam ser mais simples do que uma mudança de subprocesso inteiro (de onboarding para remuneração, por exemplo).
Quantas páginas costuma ter um projeto de pesquisa de TCC?
Não há um número fixo em norma nacional para a extensão do projeto — isso varia por curso. Consulte o manual de TCC da sua instituição para a faixa esperada.
O referencial teórico do projeto precisa ser o mesmo do TCC final?
Não precisa ser idêntico. O referencial do projeto é um mapeamento inicial; ao longo da pesquisa, é normal incorporar autores novos, descartar linhas que não se mostraram relevantes e aprofundar os conceitos centrais para o TCC final.
A empresa estudada precisa autorizar formalmente o uso dos seus dados no TCC?
É recomendável ter uma autorização por escrito (carta de anuência ou e-mail formal) do RH ou da liderança, especialmente se o TCC vai citar o nome da empresa ou usar dados internos. Muitos cursos exigem esse documento como apêndice do trabalho final; verifique a exigência específica do seu curso.
