O pré-projeto (ou anteprojeto) de TCC de Engenharia Mecânica é o documento que sua banca de qualificação vai avaliar antes de você começar os ensaios, a simulação ou o desenho técnico — e é também o documento que evita retrabalho, porque força você a decidir a metodologia antes de gastar tempo de laboratório. A estrutura segue a NBR 15287, mas o conteúdo de cada seção muda bastante entre um pré-projeto de Engenharia Mecânica e um de humanas: aqui a metodologia prevista já precisa dizer se o trabalho é projeto de produto, ensaio experimental, simulação computacional ou revisão bibliográfica, porque disso depende o resto do cronograma.

O que o pré-projeto de Engenharia Mecânica precisa ter
- Tema e delimitação — o problema técnico específico, não uma área genérica como “materiais” ou “termodinâmica”.
- Problema de pesquisa — a pergunta que o trabalho responde, formulada de forma testável.
- Objetivo geral e objetivos específicos — o que o trabalho entrega ao final.
- Justificativa — por que o problema importa tecnicamente e, quando aplicável, industrialmente.
- Referencial teórico preliminar — a base conceitual e as normas técnicas que sustentam a escolha do método.
- Metodologia prevista — qual dos formatos (projeto, ensaio, simulação, revisão) e como cada etapa será executada.
- Cronograma preliminar — as semanas até a entrega, incluindo a reserva de laboratório.
- Referências no formato da NBR 6023:2025.
Tema e problema de pesquisa
O tema de Engenharia Mecânica funciona melhor quando nomeia o componente ou processo, o material ou parâmetro variado, e o critério de avaliação. Três exemplos ilustrativos, cada um com o problema de pesquisa já formulado:
- Projeto de produto: “Como um suporte para bicicleta fabricado em manufatura aditiva (FDM) se compara, em resistência à flexão, a um suporte equivalente em aço, para o mesmo custo de material?”
- Ensaio experimental: “Como o tempo de tratamento térmico por têmpera afeta a dureza e a resistência ao impacto de um aço SAE 1045?”
- Simulação computacional: “Como a espessura de uma nervura de reforço afeta a tensão máxima de von Mises numa peça injetada em polipropileno, segundo simulação em elementos finitos?”
Repare que os três exemplos evitam o problema genérico (“estudar as propriedades do aço”) e nomeiam a variável manipulada, o material e o critério de avaliação — é isso que torna o problema testável e a banca reconhece isso de imediato.
Objetivo geral e objetivos específicos
O objetivo geral espelha o problema de pesquisa em forma de meta. Usando o exemplo do tratamento térmico: “Avaliar o efeito do tempo de têmpera na dureza e na resistência ao impacto de um aço SAE 1045.” Os objetivos específicos quebram esse objetivo em etapas mensuráveis:
- Caracterizar a microestrutura do aço antes e depois do tratamento térmico.
- Medir a dureza Rockwell dos corpos de prova em três tempos de têmpera diferentes.
- Realizar ensaio de impacto Charpy nos mesmos corpos de prova.
- Comparar os resultados obtidos com os valores de referência da literatura técnica.
Cada objetivo específico corresponde a uma etapa do cronograma e, depois, a uma seção do capítulo de resultados — decidir os objetivos com esse nível de detalhe no pré-projeto economiza retrabalho na hora de escrever o TCC completo.
Justificativa
A justificativa de um TCC de Engenharia Mecânica funciona melhor quando combina duas camadas: a técnica (por que o dado ainda não existe ou não está consolidado na literatura acessível ao estudante) e a aplicada (onde esse dado importa na prática — seleção de material por uma indústria, viabilidade de um processo, segurança de um componente). Evite justificativas vagas do tipo “o tema é relevante para a engenharia”; prefira algo como: “ainda que a têmpera seja um tratamento consolidado, a maioria dos dados publicados usa tempos padronizados de norma industrial, e há pouca informação sobre o efeito de tempos intermediários — relevante para pequenas oficinas que não seguem à risca o protocolo industrial”.
Referencial teórico preliminar
No pré-projeto, o referencial teórico não precisa ser exaustivo — isso vem no TCC completo. Aqui, ele precisa mostrar que você já mapeou os conceitos centrais (por exemplo, os fundamentos metalúrgicos da têmpera, os ensaios normatizados de dureza e impacto) e as normas técnicas que vão guiar a metodologia (ASTM E18 para dureza Rockwell, ASTM E23 para impacto Charpy, ou as normas ABNT equivalentes, quando existirem). Cite pelo menos três a cinco fontes que já sustentam a escolha do método, não apenas o tema geral. A formatação dessas referências já pode seguir o guia completo das normas ABNT vigentes em 2026, o que evita retrabalho de normalização no TCC final.
Metodologia prevista
Esta é a seção que a banca de qualificação lê com mais atenção, porque é ela que autoriza (ou não) você a seguir para a execução. Diga explicitamente qual dos quatro formatos o trabalho segue — projeto de produto, ensaio experimental, simulação computacional ou revisão bibliográfica — e detalhe, para o formato escolhido, os materiais, o equipamento, o protocolo passo a passo e o critério de análise dos dados. Um pré-projeto que só diz “será feito um estudo experimental” sem detalhar o protocolo não está pronto para qualificação.

Como adaptar este modelo para simulação, projeto de produto ou revisão bibliográfica
O modelo comentado abaixo usa um ensaio experimental como exemplo, mas a mesma estrutura de seções serve para os outros três formatos, com ajustes pontuais:
- Simulação computacional: a metodologia prevista troca “corpos de prova” e “equipamento de ensaio” por “geometria do modelo, malha, condições de contorno e software utilizado” (Ansys, SolidWorks Simulation, Abaqus). O cronograma reserva tempo de processamento em vez de tempo de laboratório físico, mas mantém a mesma lógica de folga para repetir a simulação com parâmetros ajustados.
- Projeto de produto: os objetivos específicos costumam incluir uma etapa de dimensionamento (cálculo estrutural ou térmico), uma de desenho técnico em CAD com tolerâncias, e uma de validação (por simulação, ensaio ou protótipo). A justificativa tende a comparar o produto proposto com uma solução existente no mercado.
- Revisão bibliográfica: a metodologia prevista detalha as bases de dados consultadas, os critérios de inclusão e exclusão dos trabalhos e o período coberto pela revisão, em vez de um protocolo de ensaio. O cronograma não depende de laboratório, mas ainda precisa reservar tempo real para leitura e síntese crítica, não apenas resumo dos textos.
Modelo comentado completo (ilustrativo)
Tema: Efeito do tempo de têmpera na dureza e na resistência ao impacto de um aço SAE 1045 (dados fictícios).
Problema: Como o tempo de têmpera afeta a dureza e a resistência ao impacto do aço SAE 1045?
Objetivo geral: Avaliar o efeito do tempo de têmpera na dureza e na resistência ao impacto de um aço SAE 1045.
Objetivos específicos: caracterizar a microestrutura antes e depois do tratamento; medir a dureza Rockwell em três tempos de têmpera; realizar ensaio de impacto Charpy; comparar com valores de referência da literatura.
Justificativa: a maioria dos dados publicados usa tempos padronizados de norma industrial, com pouca informação sobre tempos intermediários relevantes para pequenas oficinas.
Metodologia prevista: ensaio experimental, com doze corpos de prova (dado fictício) divididos em três grupos de tempo de têmpera, ensaiados por dureza Rockwell C e impacto Charpy conforme ASTM E18 e ASTM E23.
Cronograma preliminar (18 semanas): semanas 1–2, definição e confirmação do laboratório; semanas 3–5, referencial teórico; semana 6, entrega do pré-projeto; semanas 7–11, preparo dos corpos de prova e ensaios; semanas 12–16, tratamento de dados e redação; semanas 17–18, revisão ABNT e entrega. O passo a passo completo do cronograma do TCC de Engenharia Mecânica detalha cada uma dessas etapas e traz um modelo semana a semana que pode ser adaptado diretamente para esta seção.
Esse modelo é ilustrativo — os números de corpos de prova, os tempos de têmpera e os resultados esperados devem vir do seu próprio protocolo e da orientação recebida, nunca copiados diretamente de um exemplo genérico.
Da qualificação à defesa final
A banca de qualificação e a banca de defesa final avaliam coisas diferentes, e vale ter isso em mente ao escrever o pré-projeto. A qualificação julga se o problema é relevante e se a metodologia é exequível dentro do prazo — por isso o pré-projeto pode (e deve) apontar riscos e alternativas, sem prometer um resultado específico. A defesa final já avalia o trabalho executado: se os dados foram coletados como planejado, se a análise está correta e se as conclusões respondem de fato ao problema de pesquisa proposto na qualificação. Um pré-projeto realista sobre o que é exequível no tempo disponível poupa o desgaste de chegar à defesa final com uma metodologia que não coube no cronograma real. Para entender melhor o que caracteriza cada etapa do trabalho antes de detalhar a sua própria, vale também a leitura de o que é TCC: significado, objetivo e como funciona.
Erros que a banca de qualificação aponta
- Problema de pesquisa vago demais para ser testável (“estudar as propriedades do material X”).
- Metodologia sem protocolo detalhado — dizer apenas o tipo de estudo sem descrever materiais, equipamento e critério de análise.
- Justificativa que repete o tema em vez de explicar por que ele importa.
- Cronograma sem folga para repetição de ensaio ou atraso de laboratório.
- Referências desatualizadas ou fora do escopo, sem relação direta com o método escolhido.
Perguntas frequentes
O pré-projeto de Engenharia Mecânica precisa ter resultados preliminares?
Não. O pré-projeto é uma proposta de trabalho, e a banca de qualificação avalia se o problema é relevante e se a metodologia é exequível — não os resultados, que só vêm na etapa seguinte. Alguns orientadores pedem um teste piloto pequeno para validar o protocolo, mas isso é exceção, não regra.
Posso mudar a metodologia depois de qualificado?
Pequenos ajustes são normais e esperados — por exemplo, trocar o número de corpos de prova ou o parâmetro exato do ensaio, conforme a disponibilidade real do laboratório. Uma mudança de formato inteiro (de ensaio experimental para simulação, por exemplo) normalmente exige conversar com o orientador e, dependendo da instituição, uma nova aprovação.
Quantas páginas tem um pré-projeto de Engenharia Mecânica?
Não há um número fixo em norma nacional — varia por instituição e por orientador. A maioria dos pré-projetos cobre cada seção com objetividade em vez de tentar atingir uma contagem de páginas específica; confira o modelo do seu curso antes de definir a extensão.
O pré-projeto conta como capítulo do TCC final?
Em muitos cursos, sim — a introdução, a justificativa e boa parte do referencial teórico do pré-projeto são expandidos e viram os capítulos correspondentes do TCC completo, o que significa que escrever o pré-projeto com cuidado economiza trabalho depois, em vez de ser um documento descartável.
Preciso escolher entre ensaio experimental e simulação, ou posso combinar os dois?
Muitos TCCs combinam os dois formatos — por exemplo, simular o comportamento esperado de uma peça e depois validar com um ensaio físico dos resultados mais críticos. Isso é bem visto pela banca quando o pré-projeto deixa claro qual etapa é simulada e qual é experimental, e por que a combinação é necessária, em vez de fazer as duas coisas sem uma justificativa clara.
