O Modelo TAM no TCC de Sistemas de Informação: Como Aplicar no Referencial Teórico (2026)

O Modelo de Aceitação de Tecnologia (TAM, do inglês Technology Acceptance Model) foi proposto por Fred Davis em 1989, na revista MIS Quarterly, com um artigo complementar de Davis, Bagozzi e Warshaw no mesmo ano, na Management Science. É um modelo muito usado em TCCs de Sistemas de Informação e Ciência da Computação porque oferece uma estrutura pronta e testável para explicar por que usuários adotam — ou rejeitam — uma tecnologia. Este guia mostra como aplicar o TAM no referencial teórico do seu trabalho, e não apenas mencioná-lo. Se você ainda não decidiu a estrutura geral do TCC, veja primeiro a estrutura de um TCC de Ciência da Computação e Sistemas de Informação capítulo por capítulo.

Os dois construtos centrais do TAM

O modelo original de Davis se apoia em duas crenças principais:

  • Utilidade percebida (Perceived Usefulness, PU): o grau em que a pessoa acredita que usar determinado sistema vai melhorar o seu desempenho em uma tarefa.
  • Facilidade de uso percebida (Perceived Ease of Use, PEOU): o grau em que a pessoa acredita que usar o sistema exigirá pouco esforço.

Essas duas crenças formam a atitude do usuário em relação à tecnologia, que por sua vez molda a intenção comportamental de usá-la, e essa intenção é o melhor preditor do uso real do sistema. O modelo também prevê variáveis externas — como influência social, características do sistema ou treinamento recebido — que afetam a utilidade e a facilidade de uso percebidas, mas não afetam a intenção diretamente.

Diagrama em quadro branco representando a cadeia de construtos de um modelo teórico
A cadeia do TAM: crenças (PU e PEOU) → atitude → intenção comportamental → uso real.

Como encaixar o TAM no seu marco teórico, passo a passo

  1. Identifique a tecnologia e o público do seu estudo. O TAM se aplica a qualquer sistema, aplicativo ou ferramenta digital cuja adoção você queira explicar — de um sistema ERP usado por funcionários a um aplicativo de saúde usado por pacientes.
  2. Diga por que utilidade e facilidade de uso são relevantes no seu contexto. Explique, com base na literatura, por que essas duas crenças provavelmente pesam na decisão de adotar (ou não) a tecnologia estudada.
  3. Transforme os construtos em variáveis do seu instrumento. Utilidade percebida e facilidade de uso percebida viram dimensões de um questionário, cada uma com vários itens (a escala original de Davis, de 1989, tem itens específicos para cada construto — cite a versão que você adaptou, e não invente itens). O guia do modelo teórico ao instrumento mostra como fazer essa passagem de construto para item de forma rastreável.
  4. Decida se vai testar o modelo completo ou só parte dele. Um TCC de graduação frequentemente testa apenas a relação entre PU, PEOU e intenção de uso, sem chegar ao uso real (que exigiria um desenho longitudinal). Deixe isso explícito na delimitação do escopo.
  5. Relacione as variáveis externas ao seu problema de pesquisa. Se o seu tema envolve, por exemplo, idade dos usuários ou treinamento prévio, posicione essas variáveis como antecedentes de PU e PEOU, não como preditores diretos da intenção de uso — isso é o que o modelo original propõe.

Exemplo ilustrativo de aplicação

O exemplo abaixo é fictício e serve apenas para mostrar a lógica de aplicação — adapte a estrutura ao seu próprio tema, nunca copie o conteúdo.

  • Tema: adoção de um sistema de prontuário eletrônico por profissionais de uma unidade de saúde.
  • Construtos: utilidade percebida (o sistema melhora o registro clínico) e facilidade de uso percebida (a interface é intuitiva).
  • Variável externa (ilustrativa): tempo de experiência profissional, testada como antecedente da facilidade de uso percebida.
  • Objetivo geral (ilustrativo): analisar a relação entre utilidade percebida, facilidade de uso percebida e intenção de uso do sistema de prontuário eletrônico entre profissionais da unidade estudada.
  • Instrumento sugerido: questionário estruturado com itens adaptados da escala original de Davis (1989) para os dois construtos, mais itens de intenção comportamental.

Erros comuns ao citar o TAM no TCC

  • Confundir “usabilidade” com facilidade de uso percebida. Usabilidade é medida por testes com o usuário interagindo com o sistema; facilidade de uso percebida é uma crença subjetiva relatada pelo próprio usuário — são conceitos relacionados, mas não idênticos.
  • Tratar utilidade e facilidade de uso como se tivessem peso igual. No modelo original, a facilidade de uso influencia a intenção principalmente por meio da utilidade percebida (uma pessoa considera um sistema mais útil quando ele é fácil de usar) — a relação direta entre facilidade de uso e intenção costuma ser mais fraca.
  • Pular a atitude e ligar PU/PEOU direto à intenção sem justificar. Versões posteriores do TAM simplificaram esse caminho, mas se você cita a formulação de 1989 de Davis, Bagozzi e Warshaw, o construto de atitude faz parte da cadeia — declare qual versão do modelo está usando.
  • Inventar itens de escala sem citar a fonte. Os itens de mensuração de PU e PEOU vêm do artigo original de Davis (1989) ou de adaptações publicadas — nunca escreva itens novos e atribua-os ao TAM sem essa citação.

TAM versus outros modelos de aceitação de tecnologia

Vale saber que o TAM não é o único modelo da área, para escolher o mais adequado ao seu problema de pesquisa:

  • TAM (Davis, 1989): dois construtos principais (utilidade e facilidade de uso), simples e amplamente validado — melhor escolha para um primeiro estudo ou um TCC de graduação com prazo curto.
  • TAM2 e TAM3: extensões que adicionam variáveis sociais e cognitivas, mais adequadas para trabalhos de mestrado com mais tempo de coleta.
  • UTAUT (Teoria Unificada de Aceitação e Uso de Tecnologia): combina o TAM com outros modelos de comportamento, com mais construtos (expectativa de desempenho, expectativa de esforço, influência social, condições facilitadoras) — mais robusto, mas exige um instrumento mais longo.

Para a maioria dos TCCs de graduação, o TAM original continua sendo a escolha mais viável pelo tempo de coleta e pela simplicidade do instrumento. Se você está considerando seguir para o mestrado depois do TCC, o guia de mestrado em Sistemas de Informação no Brasil lista programas onde temas como aceitação de tecnologia costumam ter linhas de pesquisa ativas.

Adaptando o TAM a diferentes desenhos de pesquisa

Em um estudo transversal (o mais comum em TCC), o TAM vira um questionário aplicado uma única vez, medindo as crenças e a intenção de uso simultaneamente. Em um estudo de intervenção, é possível medir PU e PEOU antes e depois de um treinamento ou de mudanças na interface do sistema, para avaliar se a intervenção alterou as crenças dos usuários. Em uma abordagem qualitativa, os dois construtos podem orientar um roteiro de entrevista, perguntando abertamente sobre a utilidade percebida e as dificuldades de uso relatadas pelos participantes, sem forçar as respostas em uma escala numérica.

Como declarar o TAM na metodologia

Um parágrafo de metodologia que declara bem o uso do TAM costuma seguir esta ordem: (1) nomear o modelo e o autor original (Davis, 1989); (2) declarar quais construtos serão testados (PU, PEOU, atitude, intenção de uso — ou apenas parte deles, se o escopo for reduzido); (3) explicar a origem dos itens do instrumento (adaptados do artigo original ou de uma validação brasileira publicada); (4) dizer como as respostas serão analisadas (estatística descritiva, correlação, ou um modelo de equações estruturais em trabalhos mais avançados). Declarar esses quatro pontos antecipa uma pergunta frequente da banca sobre esse tipo de trabalho: “o que exatamente você está medindo, e com que instrumento?”

Estudante organizando questionário estruturado com escalas para pesquisa acadêmica
Um instrumento bem declarado, com origem dos itens explicitada, é o que a banca espera ver na metodologia.

Onde o TAM funciona melhor em um TCC

O modelo rende mais em temas sobre adoção de um sistema específico e identificável — um ERP, um aplicativo, uma plataforma de ensino a distância, um sistema de prontuário eletrônico — em que existe uma população definida de usuários (reais ou potenciais) acessível para responder ao questionário. Rende menos em temas sobre tecnologia em sentido amplo, sem um sistema específico em foco, porque aí as crenças de utilidade e facilidade de uso perdem a referência concreta que o modelo pressupõe.

Validade e confiabilidade do instrumento

Ao adaptar os itens da escala original de Davis (1989) para o português e para o seu contexto específico, é boa prática relatar, mesmo que de forma simples, a consistência interna dos itens de cada construto (o alfa de Cronbach é a medida mais usada em TCC de graduação) — um valor acima de 0,70 costuma ser tratado como aceitável na literatura de metodologia de pesquisa. Declarar esse número na seção de resultados, mesmo em uma amostra pequena, mostra à banca que o instrumento foi avaliado, não apenas aplicado.

Exemplo numérico ilustrativo de análise

O exemplo abaixo é inteiramente fictício e serve apenas para mostrar como relatar um resultado, não como referência de valores reais. Em uma amostra ilustrativa de 60 usuários de um sistema, a média de utilidade percebida foi 4,1 em uma escala de 1 a 5, e a média de facilidade de uso percebida foi 3,4 na mesma escala — uma diferença de 0,7 ponto. A correlação (ilustrativa) entre utilidade percebida e intenção de uso foi de r = 0,58, e entre facilidade de uso percebida e intenção de uso foi de r = 0,31 — um padrão consistente com o modelo original, em que a utilidade tende a pesar mais do que a facilidade de uso na intenção de adotar o sistema. Relatar essas duas correlações lado a lado, com a diferença de magnitude explicitamente comentada, é exatamente o tipo de leitura que conecta o resultado de volta à teoria — em vez de apenas listar os números.

Perguntas frequentes

Quem criou o TAM e quando?

Fred Davis propôs o modelo em 1989, em um artigo publicado na revista MIS Quarterly, com um artigo complementar de Davis, Bagozzi e Warshaw no mesmo ano.

Quais são os dois construtos principais do TAM?

Utilidade percebida (o quanto o sistema melhora o desempenho do usuário) e facilidade de uso percebida (o quanto o sistema exige pouco esforço para ser usado).

Posso usar o TAM em um TCC qualitativo?

Sim, os dois construtos podem orientar um roteiro de entrevista, mas nesse caso não se trata de testar o modelo estatisticamente — é usar os conceitos como lente de análise.

O TAM serve para qualquer tipo de tecnologia?

O modelo foi criado para sistemas de informação no ambiente de trabalho, mas tem sido aplicado a muitas tecnologias digitais — aplicativos, plataformas de ensino, sistemas de saúde, redes sociais.

Devo usar o TAM original ou uma extensão como o UTAUT?

Para um TCC de graduação com prazo curto, o TAM original costuma ser mais viável pela simplicidade do instrumento; extensões como TAM2, TAM3 e UTAUT exigem mais tempo de coleta e um questionário mais longo.

Quantos itens tem um questionário baseado no TAM?

Depende da versão que você adaptar: a escala original de Davis (1989) e as adaptações publicadas diferem no número de itens por construto. Use a versão que você citar, sem cortar ou inventar itens, e declare a fonte no capítulo de metodologia.

O TAM exige análise estatística avançada?

Não necessariamente. Estatística descritiva e correlação já respondem à maioria dos objetivos de um TCC de graduação; modelos de equações estruturais, usados para testar o caminho completo do modelo, são mais comuns em trabalhos de mestrado.

Registrando as limitações do estudo baseado em TAM

Todo estudo baseado em autorrelato tem uma limitação conhecida: o que a pessoa diz achar útil ou fácil de usar nem sempre corresponde exatamente ao comportamento real observado — por isso o próprio modelo distingue intenção de uso do uso real, e a maioria dos TCCs de graduação só consegue medir a intenção. Declarar essa limitação explicitamente na seção de limitações do trabalho, em vez de apresentar a intenção de uso como se fosse equivalente ao uso efetivo, é o tipo de honestidade metodológica que fortalece a defesa perante a banca.

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