Como Citar Bíblia, Encíclicas e Obras Filosóficas na ABNT: TCC de Teologia e Filosofia 2026

TCCs de Teologia e Filosofia citam um tipo de fonte que a maioria dos manuais de ABNT trata por alto: textos sagrados, documentos do magistério e obras filosóficas clássicas, muitas vezes lidos numa tradução moderna de um original escrito séculos atrás. Este guia mostra como formatar essas citações segundo a NBR 6023:2025 (referências) e a NBR 10520:2023 (citações), com exemplos prontos.

Como citar a Bíblia na ABNT

A Bíblia é tratada como uma obra sem autoria pessoal atribuível — a entrada de referência começa pelo título BÍBLIA, seguido do idioma, seguido dos dados da edição efetivamente consultada (porque diferentes edições têm tradução, notas e paginação diferentes).

Referência (exemplo): BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Tradução de José Nunes Carreira et al. São Paulo: Paulus, 2002.

Citação no texto: a citação de um versículo segue o padrão livro, capítulo e versículo, sem precisar do nome de um “autor” — por exemplo, (JOÃO, 3:16) ou, na versão em texto corrido, “conforme o Evangelho de João (3:16)”. Não existe um padrão único obrigatório de abreviação dos livros bíblicos; use a abreviação da própria edição citada e mantenha-a consistente em todo o trabalho.

Comentário: um erro comum é citar “a Bíblia diz” sem informar qual edição e tradução foi consultada. Como diferentes traduções (Almeida, Jerusalém, Ave-Maria, NVI) podem verter o mesmo versículo de forma distinta, a edição usada precisa estar declarada na referência — isso não é apenas formalidade ABNT, é rigor teológico.

Como citar encíclicas e documentos do magistério

Documentos papais (encíclicas, exortações apostólicas, cartas) têm autoria atribuível ao papa que os assinou, e a ABNT trata o pontífice como autor pessoal, com “Papa” qualificando o nome.

Referência (exemplo): FRANCISCO, Papa. Carta encíclica Laudato Si': sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

Citação no texto: (FRANCISCO, 2015, §49) — repare que documentos papais costumam ser citados por parágrafo (§), não por página, porque a numeração de parágrafo é a mesma em qualquer edição ou tradução do documento, enquanto a paginação muda de edição para edição.

Documentos conciliares (por exemplo, os do Concílio Vaticano II) e documentos de conferências episcopais seguem lógica parecida: quando não há autor pessoal, a entrada começa pelo nome da instituição — por exemplo, CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et Spes. [local]: [editora], [ano da edição consultada] — seguida do título do documento. O mesmo vale para documentos de conferências episcopais nacionais, como os da CNBB: a instituição entra como autora, e a citação no texto usa o ano da edição consultada, não o ano do evento que originou o documento, quando os dois diferem.

Página de edição crítica de obra filosófica clássica com paginação de referência nas margens
A paginação Stephanus ou Bekker, impressa nas margens de boas edições acadêmicas, permite localizar a passagem em qualquer edição ou idioma.

Como citar os Padres da Igreja e outras fontes patrísticas

Textos de autores patrísticos (Agostinho, Tomás de Aquino, Orígenes) seguem a mesma lógica das obras filosóficas clássicas: o autor pessoal é conhecido, mas você está lendo uma edição moderna, então a referência traz os dados dessa edição. Algumas obras clássicas de teologia — como a Suma Teológica de Tomás de Aquino — têm um sistema próprio de citação por partes, questões e artigos (por exemplo, “I, q. 2, a. 3”), reconhecido internacionalmente e independente da paginação da edição. Quando esse sistema existir e a sua edição o trouxer, prefira citar por ele, exatamente como acontece com a paginação Stephanus em Platão — isso permite que o leitor localize a passagem em qualquer edição, em qualquer idioma, sem depender da página específica do livro que você teve nas mãos.

Referência (exemplo): AQUINO, Tomás de. Suma teológica. Tradução das Faculdades Dominicanas. São Paulo: Loyola, 2001.

Citação no texto: (AQUINO, I, q. 2, a. 3) — repare que, quando o sistema de partes/questões/artigos está disponível, ele substitui o número de página na citação, mesmo que a referência completa ainda traga o ano da edição consultada.

Como citar obras filosóficas clássicas

O desafio aqui é diferente: a obra é antiga, mas você provavelmente está lendo uma edição ou tradução moderna. A ABNT pede que a referência traga os dados da edição efetivamente consultada — tradutor, editora, ano da edição usada — não apenas o ano em que a obra foi originalmente escrita.

Referência (exemplo): ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Antônio de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.

Citação no texto: (ARISTÓTELES, 2009). Se o seu curso ou orientador pedir que a data original da obra também apareça, uma prática aceita é indicar as duas datas na primeira menção do texto corrido — “Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco (c. 340 a.C., ed. 2009 utilizada)” — mas a referência na lista final continua trazendo apenas os dados da edição consultada, porque é essa edição que o leitor pode efetivamente localizar.

Comentário: citar “Aristóteles, 340 a.C.” como se fosse a data da referência bibliográfica é um erro comum — essa data identifica quando a obra foi escrita, não a edição que você teve nas mãos. A lista de referências sempre aponta para o livro físico ou digital que você realmente consultou.

Paginação de edição crítica: quando o número não é a página do seu livro

Algumas obras filosóficas clássicas usam um sistema de referência internacional que não corresponde à página da edição que você está lendo — por exemplo, os diálogos de Platão são tradicionalmente citados pela paginação Stephanus (um número seguido de letra, como “514a”), e as obras de Aristóteles pela numeração Bekker (também número seguido de letra, como “1094a”). Quando a edição em português que você consultou traz essa numeração nas margens — o que a maioria das boas traduções acadêmicas faz — cite por ela em vez da paginação comum do livro, porque isso permite que qualquer leitor localize o trecho em qualquer edição, em qualquer idioma. Se a edição consultada não traz essa numeração, cite pela página normal da edição e informe isso claramente, sem inventar uma paginação Stephanus ou Bekker que você não conferiu.

Exemplo comentado: um parágrafo de referencial teórico com fontes mistas

“A reflexão sobre a dignidade da pessoa humana articula, neste trabalho, três camadas de fonte: a base bíblica (GÊNESIS, 1:27, na tradução consultada), o desenvolvimento doutrinal recente (FRANCISCO, 2015, §49) e a fundamentação filosófica da dignidade como fim em si mesmo (KANT apud SILVA, 2020, p. 112, para o trecho da Fundamentação da Metafísica dos Costumes não consultado diretamente).”

Comentário: este parágrafo-modelo mostra as três lógicas de citação lado a lado — texto sagrado por livro/capítulo/versículo, documento papal por parágrafo, e citação de segunda mão com apud — todas coexistindo num mesmo parágrafo sem se confundirem, porque cada uma segue o formato correto para o tipo de fonte que representa.

Citação indireta de comentadores e tradução própria

Em Filosofia, é comum trabalhar com um comentador que interpreta o filósofo original (por exemplo, um livro sobre Kant, não o próprio Kant). Nesse caso, distinga claramente: se você está citando o que o comentador diz sobre Kant, a citação e a referência são do comentador; se você está citando o próprio texto de Kant através da obra do comentador (citação de segunda mão), use o formato “apud” — (KANT apud SILVA, 2020, p. 45) — e inclua na lista de referências apenas a obra que você efetivamente leu (a do comentador Silva), não a obra original de Kant que você não consultou diretamente.

Quando você mesmo traduz um trecho de uma obra em língua estrangeira que não tem tradução publicada em português, indique “tradução nossa” entre parênteses logo após a citação, e mantenha o texto original em nota de rodapé, se o seu curso exigir essa prática. Essa indicação também vale para trechos de encíclicas ou documentos eclesiais publicados apenas em latim ou italiano, quando você mesmo verte o trecho para o português.

Estudante organizando referências bibliográficas mistas de fontes bíblicas e filosóficas para o TCC
Organizar cada referência conforme o tipo de fonte — sagrada, papal, filosófica ou de segunda mão — evita misturar formatos na lista final.

Erros mais comuns nesse tipo de citação

  • Citar “a Bíblia” sem informar a edição e tradução usadas — diferentes traduções podem divergir no texto do mesmo versículo.
  • Usar a data de composição original da obra filosófica como data de referência — a referência aponta para a edição consultada, não para o século em que a obra foi escrita.
  • Não distinguir citação direta do texto original e citação de segunda mão via comentador — sem o “apud”, fica parecendo que você leu a obra original quando na verdade leu sobre ela.
  • Tratar documentos do magistério como se tivessem autor institucional quando têm autor pessoal (o papa), ou vice-versa — a autoria correta depende do tipo específico de documento.
  • Inventar paginação Stephanus, Bekker ou o sistema de partes/questões/artigos sem conferir se a edição consultada realmente a traz — cite apenas a numeração que está de fato impressa na sua edição.

Perguntas frequentes

Como citar um versículo da Bíblia no corpo do texto?

Pelo padrão livro, capítulo e versículo — por exemplo, (JOÃO, 3:16) — sem nome de autor pessoal. A edição e tradução consultadas entram na lista de referências, começando pela palavra BÍBLIA.

Preciso citar o ano em que Aristóteles ou outro filósofo antigo escreveu a obra?

Na lista de referências, não — ela traz os dados da edição que você efetivamente consultou. Se o seu orientador pedir contexto histórico, mencione a data original no corpo do texto, separadamente da referência bibliográfica.

Como cito uma encíclica papal?

O papa entra como autor pessoal, qualificado como “Papa” (por exemplo, FRANCISCO, Papa), seguido do título do documento. A citação no texto costuma usar o número do parágrafo (§), não da página, porque a numeração de parágrafo é constante entre edições.

O que fazer quando não encontro tradução publicada de um texto filosófico em português?

Você pode traduzir o trecho você mesmo, indicando “tradução nossa” entre parênteses após a citação, e mantendo o texto original disponível em nota de rodapé se o curso exigir. Confirme essa prática com o seu orientador antes de adotá-la no trabalho inteiro.

Qual a diferença entre citar um filósofo diretamente e citar via um comentador?

Se você leu a obra original (ou sua tradução), a citação e a referência são da obra original. Se você leu sobre a ideia do filósofo num livro de outro autor (comentador) sem ter lido a obra original, use a citação de segunda mão com “apud” e referencie apenas a obra do comentador, que foi a que você efetivamente consultou.

O que é a paginação Stephanus ou Bekker, e preciso usá-la?

São sistemas de numeração padronizados internacionalmente para os diálogos de Platão (Stephanus) e as obras de Aristóteles (Bekker), impressos nas margens de boas edições acadêmicas. Use-os se a sua edição os traz — isso permite que qualquer leitor localize o trecho em outra edição ou idioma; se a sua edição não os traz, cite pela página comum do livro.

Como citar a Suma Teológica de Tomás de Aquino?

Pelo sistema próprio de partes, questões e artigos (por exemplo, I, q. 2, a. 3), que substitui o número de página na citação e funciona em qualquer edição ou tradução da obra, desde que a sua edição traga essa numeração — a maioria das edições acadêmicas traz.

Preciso incluir a data original ao lado da data da edição consultada?

Não é exigência da ABNT, mas é uma prática comum e bem recebida em Teologia e Filosofia, sobretudo quando o distanciamento histórico entre a composição da obra e a edição consultada é relevante para o argumento. Confirme a preferência do seu curso ou orientador antes de adotar o formato “duas datas” em todo o trabalho.

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