Você está fechando o TCC, confere uma referência e vê o aviso: o artigo foi retratado. A boa notícia é que isso raramente é catástrofe. A má é que a reação instintiva — apagar a citação e seguir — costuma ser a pior das saídas disponíveis.
Retratação, errata e manifestação de preocupação
Três status diferentes circulam com os mesmos nomes trocados, e a conduta muda em cada um:
- Errata ou correção. Um erro pontual foi consertado — um número errado numa tabela, um nome de autor grafado errado. O artigo continua válido. Você cita normalmente, atento à versão corrigida.
- Manifestação de preocupação (expression of concern). O periódico registra que há uma dúvida em apuração, sem decisão final. O artigo não foi invalidado, mas você foi avisado. Citar exige cautela e, em geral, menção ao status.
- Retratação. O trabalho deixa de valer como registro científico confiável. O texto normalmente continua acessível — e isso confunde muita gente —, mas fica marcado. Ele permanece disponível justamente para que quem o citou consiga entender o que aconteceu.
Vale dizer também o que uma retratação não é: não é necessariamente acusação de fraude. Retratam-se artigos por erro honesto detectado depois, por problemas de reprodutibilidade, por questões de autoria e consentimento, e sim, também por má conduta. Para o seu TCC, a distinção importa menos do que o fato bruto: o resultado não sustenta mais uma afirmação.
O panorama quantitativo brasileiro — quantas retratações, em que áreas, em que anos — está em retratações de artigos científicos no Brasil. Este artigo trata do outro lado: o que você faz quando uma delas cai na sua bibliografia.

Como checar as suas referências
Até poucos anos atrás, checar retratação era trabalho de especialista. Deixou de ser, e a mudança tem data.
Em 12 de setembro de 2023, a Crossref anunciou que o banco de dados do Retraction Watch — mantido pelo Center for Scientific Integrity — foi adquirido pela Crossref e transformado em recurso público. Nas palavras do próprio anúncio, o acordo permite que o Retraction Watch “keep the data populated on an ongoing basis and always open”, ao lado dos registros de retratação que as editoras depositam diretamente na Crossref. Ivan Oransky, diretor executivo do Center for Scientific Integrity e cofundador do Retraction Watch, resume o objetivo: tornar os dados de retratação disponíveis para o maior número possível de pessoas.
A consequência prática para você é direta: a informação é aberta e gratuita, e “eu não tinha como saber” deixou de ser uma resposta razoável para quem entrega um trabalho em 2026.
Três checagens, da mais rápida à mais completa:
- A página do artigo no site do periódico. É onde a retratação aparece primeiro e de forma mais visível, geralmente como faixa ou aviso no topo. Se você guardou só o PDF baixado há meses, esse aviso não está nele — o PDF antigo não se atualiza, e essa é a razão número um pela qual estudantes citam artigos retratados sem má-fé.
- O registro na base em que você o encontrou. Bases bibliográficas sinalizam o status: na PubMed, por exemplo, a condição de publicação retratada aparece como tipo de publicação do próprio registro.
- Os dados do Retraction Watch via Crossref, para uma conferência mais ampla e independente da base de origem.
O anúncio da Crossref também deixa claro quem é o responsável primário: as editoras são consideradas “the primary stewards of the scholarly record” e são incentivadas a registrar suas retratações nos metadados da Crossref como prioridade. Ou seja, a cobertura tende a melhorar — mas nenhuma base é completa, e por isso vale conferir na página do periódico quando a fonte for decisiva para o seu argumento.
O que fazer em cada cenário

A primeira pergunta não é sobre a citação — é sobre a afirmação. O que exatamente o seu texto diz apoiado naquela fonte, e essa afirmação sobrevive sem ela?
Cenário 1 — Trabalho ainda não entregue, afirmação periférica
A fonte sustentava uma frase de contextualização que outras referências também sustentam. Substitua por uma fonte válida, confira que a formulação continua correta, e siga. Não há nada a declarar.
Cenário 2 — Trabalho ainda não entregue, afirmação central
O resultado retratado era um dos pilares da sua fundamentação ou da sua discussão. Aqui não basta trocar a referência: é preciso reexaminar a afirmação. Procure se outros estudos sustentam a mesma conclusão de forma independente. Se sustentam, reescreva apoiado neles. Se não sustentam — e às vezes é o caso, porque o resultado retratado era justamente o achado singular —, a sua conclusão precisa ser reformulada, e essa reformulação é um trabalho intelectual honesto, não um prejuízo.
Cenário 3 — Trabalho já entregue ou defendido
Não entre em pânico, e não tente corrigir sozinho e em silêncio. Fale com o orientador. Se a retratação é posterior à sua defesa, você não cometeu erro algum: o conhecimento disponível mudou depois, o que é normal na ciência. Se o trabalho ainda vai para o repositório institucional, pode haver a possibilidade de ajuste na versão final; o mecanismo formal para correções em trabalho já depositado está em como fazer a errata do TCC.
O que não fazer, em nenhum cenário
Apagar a fonte e manter intacta a afirmação que só ela sustentava. O resultado é um texto que afirma algo sem nenhuma base — e isso é um problema maior do que a citação original, porque agora não há nem fonte a conferir. É a versão silenciosa do mesmo erro que se comete ao citar uma referência inventada, discutido em referências falsas inventadas por IA.
Como citar um artigo retratado
Há situações em que você precisa mesmo citar um artigo retratado — sobretudo se o seu trabalho discute o episódio, a área ou a própria integridade da literatura. Nesse caso a regra é uma só: o status precisa ficar visível para o leitor.
Na prática, isso significa manter a referência normal do artigo, conforme o tipo de fonte, e sinalizar no texto que a obra foi retratada, indicando o ano da retratação. Quando o aviso de retratação é ele próprio um documento com referência própria, ele também pode ser citado — o que é a solução mais transparente, porque permite ao leitor ir direto à explicação.
O que jamais deve acontecer é o leitor terminar o seu trabalho achando que aquela fonte continua válida. O formato das entradas por tipo de fonte está em como citar artigo de periódico na ABNT e o panorama geral em como fazer referências ABNT.
Como evitar que isso apareça na banca

Quatro hábitos resolvem quase tudo:
- Confira o status na reta final, não só na leitura. Entre a leitura e a entrega passam meses, e retratações acontecem nesse intervalo. Uma passada pela lista de referências antes de entregar é o momento certo.
- Volte à página do periódico, não ao PDF salvo. O arquivo no seu computador é uma fotografia de um dia; a página é o estado atual.
- Priorize as referências que sustentam afirmações centrais. Se a lista é longa, confira primeiro as que, se caíssem, derrubariam um argumento.
- Desconfie de fontes com sinais de fragilidade editorial. Retratações concentram-se onde o controle editorial é frágil — o que conecta este assunto a o que é periódico predatório e a paper mills. Entender o que a revisão por pares garante e o que ela não garante ajuda a calibrar essa desconfiança: o que é revisão por pares e o que é preprint.
Há um último ponto que vale dizer sem rodeios, porque muda a atitude com que se encara a situação. Descobrir que uma fonte sua foi retratada e agir corretamente não é sinal de trabalho fraco — é exatamente o comportamento que a integridade acadêmica descreve. O problema nunca foi ter citado; é insistir na citação depois de saber. O enquadramento mais amplo dessa postura está em fabricação e falsificação de dados na pesquisa.
Manter uma bibliografia rastreável do começo ao fim — com cada afirmação amarrada a uma fonte que você consegue reabrir e conferir — é o que torna essa checagem final rápida em vez de aterrorizante. Escreva seu TCC no Tesify: as referências em ABNT ficam organizadas desde o início, e o texto continua 100% seu.
Perguntas frequentes
O que acontece se eu citei um artigo que foi retratado?
Nada de automático — o problema não é ter citado, é manter a citação como se o artigo continuasse válido. Se a retratação é posterior à sua escrita, não houve falha alguma. Em qualquer caso, reavalie o que a sua afirmação dependia daquela fonte.
Como saber se um artigo foi retratado?
Abra a página do artigo no site do periódico, confira o registro na base em que o encontrou — a PubMed, por exemplo, marca a publicação como retratada — e consulte os dados do Retraction Watch, que desde 2023 pertencem à Crossref e são recurso público.
Retratação é o mesmo que errata?
Não. A errata conserta um erro pontual e mantém o artigo válido; a retratação invalida o trabalho como registro confiável. Há ainda a manifestação de preocupação, que sinaliza dúvida sob apuração.
Posso simplesmente apagar a referência retratada do meu TCC?
Se ainda não entregou e a afirmação se sustenta em outras fontes, substituir é natural. O que não se faz é apagar a fonte mantendo intacta uma afirmação que só ela sustentava.
Como citar um artigo retratado quando preciso mencioná-lo?
Mantenha a referência normal e sinalize o status no texto, indicando o ano da retratação. Se o aviso de retratação tiver referência própria, cite-o também. Nenhum leitor deve concluir que a fonte permanece válida.
Meu orientador precisa saber?
Sim, sempre que a fonte sustentar algo relevante. É decisão de conteúdo e não apenas de formatação, e chegar com o problema identificado e uma proposta de solução é bem diferente de ser questionado sobre ele na banca.
